RETROCESSO NA EDUCAÇÃO

Alunos são maltratados em escola 

O QUE ACONTECEU? — Sara Trindade fez da Escola Estadual Serafine Costaperária um modelo premiado e reconhecido. Hoje, a realidade é diferente

1 — Aumenta número de jovens acusados da prática de algum crime

2 — TCU identifica milhares de ilícitos em campanhas eleitorais

3 — Políticos amapaenses estão envolvidos em grilagem internacional 

Judiciário brasileiro custa caro ao contribuinte

PRIVILÉGIADOS — Professor Sérgio Pinto atribui aumento das despesas do Judiciário ao poder de pressão dos magistrados
CONDENADO — Em pesquisa, população  defende continuidade da prisão de Lula 

PENDÊNCIAS — Congressistas têm R$ 144,8 milhões em débitos tributários

AMEAÇAS  — Barcos irregulares navegam na Amazônia com riscos de naufrágios

DÉBÂCLE — Municípios amapaenses estão entre os últimos no ranking do IFDM 2018

WWF: relatório alerta sobre o fim da Amazônia

DEVASTADA — De acordo com o levantamento, a Amazônia perdeu 50 mil quilômetros quadrados de terra nos últimos sete anos
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Sistema viário da capital amapaense está todo comprometido

DESLEIXO — Vias remendadas e esburacadas comprometem a trafegabilidade na capital amapaense

Ao transitar por algumas regiões de Macapá – a pé, de ônibus ou de carro – a sensação é a de estar andando por uma verdadeira colcha de retalhos. Percebe-se que o recapeamento asfáltico em alguns pontos, que deveria solucionar o surgimento de buracos, torna-se o principal problema quando não estão nivelados com a pista. O que se vê são verdadeiros aclives e declives que causam desconforto e, dependendo, impactam no funcionamento dos automóveis e trazem risco de queda para pedestres. Seis meses depois de mostrar reclamações da população a respeito dos buracos, o AMAZÔNIA VIA AMAPÁ voltou às ruas e constatou que, além dos buracos, agora sobram também remendos que causam transtornos.
Chama a atenção as condições do asfalto presente na avenida Raimundo Álvares da Costa, trecho entre as ruas Paraná e Hildemar Maia, um dos acessos aos bairros Jesus de Nazaré, Santa Rita, Centro e Laquinho. Os remendos são tantos que mal se consegue ver o pavimento original. Quem trafega por lá diariamente relata que a experiência é semelhante a uma corrida de obstáculos. Uma leitora que não quis se identificar conta que é preciso fazer movimentos de zigue-zague com o veículo para tentar minimizar o impacto causado pelo desnivelamento. “Além disso, a pista é tão irregular que esconde buracos e, quando menos se espera, o pneu já entrou em um deles. Ainda não tive problemas com o carro, mas temo que isso ocorra, pois trafego por lá todos os dias”, aponta.
Na mesma avenida, trecho entre as ruas Jovino Dinoá e Odilardo Silva apresenta asfalto precário ao longo de toda a via, mas o trecho entre as ruas Odilardo Silva e Eliezer Levy é o que mais apresenta problemas. Uma moradora da região, que preferiu não ter seu nome revelado, destaca que já furou um dos pneus do seu carro ao cair em um buraco na via, quase em frente ao Curso Madeira. “Há anos a via vem sofrendo com esse buracos, que são tampados e, logo em seguida, se abrem novamente. É preciso que seja feito um asfaltamento geral, e não paliativo”, comentou.
Outras avenidas e ruas que colecionam buracos e remendos são avenidas Procópio Rola, Ernestino Borges, ruas Hamilton Silva, Professor Tostes, Hildemar Maia, avenida José Tupinambá, no trecho entre as ruas Hildemar Maia e Hamilton Silva, bairro Jesus de Nazaré. Todas estão repletas de remendos e desníveis, dificultando o trajeto de motoristas não só de veículos leves, como aqueles mais pesados, pois tratam-se de vias com fluxo intenso de carros, caminhões e ônibus. Ainda na Procópio Rola os buracos, asfaltamento irregular e desnivelamento comprometem a trafegabilidade de veículos e pedestres.

Asfalto cedendo
Uma situação grave foi flagrada na avenida Procópio Rola, no Centro. Por lá, há recapeamento de menos e buraco demais. Moradores relatam que o asfalto vem cedendo e que, há algumas semanas, não foram vistos operários mexendo no local. Na sequência, a rua Manoel Eudóxio Pereira também está esburacada e apresenta remendos no pavimento em seu prolongamento até a avenida FAB. Na avenida FAB, da rua Hamilton Silva até a rua Hildemar Maia, recapeamentos em buracos chamam a atenção pelo descaso. Um deles foi feito próximo a uma boca de lobo e, no dia em que o AMAZÔNIA VIA AMAPÁ esteve no local, o ponto já acumulava placas do próprio asfalto e folhas secas de vegetação. Na mesma direção, outro buraco foi tampado, mas o material utilizado espalha-se pela pista.
Em nota, a Prefeitura de Macapá informou que, nos endereços com desníveis informados, a Secretaria de Obras do Município (Semob) promoverá uma vistoria para verificar a viabilidade de tomar medidas para amenizar o problema. Sobre a possibilidade de instalar um novo asfalto, as obras de recapeamento, por serem onerosas, necessitam da captação de recursos externos, e, devido à grave crise no país, as verbas estaduais e federais para este fim não têm sido repassadas. “No entanto, para regularizar a situação, a Semob continua executando a operação tapa-buraco em diversos pontos. Vale ressaltar que, com o período chuvoso, a carga de trabalho é maior, bem como as solicitações recebidas, porém não é possível realizar todo o serviço nos dias com precipitação intensa. Por isso, as equipes priorizam os locais que apresentam maior risco. A programação da Empav visa a atender todas as demandas da população por ordem de prioridade.”
A PMM destacou, ainda, que os servidores participam empenhados nas operações tapa-buracos”. “Os trabalhos já estão sendo intensificados neste período de maior estiagem, iniciando pelos corredores de tráfego e, portanto, locais com maior movimento. Posteriormente, o serviço se estenderá aos locais com menos movimento.” De acordo com a versão oficial, os endereços mencionados foram incluídos na programação de serviço da empresa para que os trabalhos sejam realizados assim que possível.

Buracos dificultam tráfego em vários trechos
Além dos remendos, há trechos onde os buracos persistem. O AMAZÔNIA VIA AMAPÁ percorreu vias na área central onde crateras podem ser vistas, o que dificulta a mobilidade. Na avenida Raimundo Álvares da Costa, entre as ruas Paraná e Hildemar Maia, o asfalto está em péssimas condições. Além dos buracos, há segmentos onde o piso está esfarelando. Ainda há problemas na Procópio Rola, entre as ruas Manoel Eudóxio Pereira e Professor Tostes, no bairro Santa Rita. Na rua José Anchieta o caos está escancarado. Na parte íngreme, em direção à Hildemar Maia, tem um buraco que nunca foi consertado. Quem circula frequentemente pela avenida Carlos Gomes também encontra alguns trechos onde há remendos e outros ainda com buracos.

Regularização fundiária de terras públicas no Amapá

REPORTAGEM — Veiculada pela Rede Globo no Fantástico apresenta a AMCEL como responsável pelos conflitos agrários

A reportagem exibida, dia 2 de dezembro, no programa Fantástico da TV Globo abordou a questão fundiária no Amapá e apresentou informações equivocadas, afetando negativamente a imagem do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
A Assessoria de Comunicação da autarquia forneceu todos os dados solicitados pelos produtores e também pelo repórter Marcelo Canellas. No entanto, a matéria afirma, de forma inapropriada, que a Certidão de Regularização de Ocupação (CRO) é um documento expedido pelo Incra. De acordo com o estabelecido pelo Decreto 9.309/2018, a CRO é emitida apenas pela Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead).
Em outro trecho, a reportagem menciona a investigação sobre grilagem de terras no Amapá e fala do suposto envolvimento de servidor do Incra em fraudes. É importante ressaltar que o referido técnico está cedido ao Programa Terra Legal e não desempenha nenhuma atividade na autarquia.
Cabe frisar que o Incra tem aprimorado seus mecanismos de controle interno, com vistas a prevenir e coibir a prática de irregularidades no âmbito de sua atuação institucional. Prova disso é a implantação, em 2017, da Corregedoria-Geral da autarquia. O Incra mantém ainda estreita colaboração com os órgãos de controle externo do Poder Executivo.
A autarquia ressalta que, na Amazônia Legal, regulariza lotes apenas nas áreas onde foram implantados projetos de assentamento. Fora delas, desde 2009, a competência para regularização fundiária é do Programa Terra Legal da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead).

Sociedade amapaense aterrorizada vira refém do crime organizado

ATRÁS DAS GRADES — Estabelecimentos comerciais gradeados para impedir a ação dos bandidos, perseguidos por uma polícia carente de melhor estrutura para atuar com mais eficácia contra o crime organizado. No IAPEN, as fugas por túneis viraram rotina
Por: Emanoel Reis

Não faz muito tempo, Macapá era uma cidade pacata com pouco mais de 100 mil habitantes. Capital com ares provincianos, padecia pouco dos males típicos dos grandes centros urbanos. E essa era a sua principal característica, a marca que contribuiu para torná-la a “cidade joia da Amazônia”. Atualmente, com mais de 450 mil habitantes, perdeu de vez aqueles atributos que a consagraram no passado. Virou um conglomerado desconexo, com graves problemas sociais que as autoridades não conseguem solucionar.
Não é de hoje que a população macapaense se esconde com medo da violência e dos criminosos urbanos. O tráfico de drogas, os sequestros, os assaltos e os homicídios estão presentes na história recente do Estado do Amapá. Na primeira quinzena de março, em especial a primeira semana do mês, a população assistiu perplexa uma sequência de assaltos e execuções cometidas na capital amapaense, atingindo lojas, residências, templos religiosos e vitimando pessoas inocentes ou nem tão inocentes. O fato é que a bandidagem não está livrando a cara de ninguém.

Com essas ações criminosas, os macapaenses também descobriram, com grande inquietação, a distância crescente entre o tamanho e a frequência das ações criminosas e os recursos e o preparo das autoridades para combatê-las. A polícia amapaense está atrasada e os bandidos cada vez mais organizados, audazes e violentos. Esta é a nova e assombrosa realidade do cotidiano macapaense. A realidade da violência, dos assaltos a banco, da mão armada, da audácia e do crime organizado. De um crime que ganha em eficiência, técnica e brutalidade, faz adeptos entre jovens e adultos e engorda com o tráfico de drogas. Há um novo crime na praça: mais ambicioso e mais duro. E um novo criminoso, que trocou a maconha pelo crack, a faca pela pistola e o pé-de-cabra pela marreta. E para enfrentar essa situação? Praticamente, a mesma polícia de sempre.

Política do atraso

Felizardos são aqueles que nunca foram assaltados. Mas esses poucos sortudos, não escondem o medo. O comerciante Fernando Lacerda considera-se um privilegiado. “Graças a Deus isso ainda não aconteceu comigo. Falo assim porque a maioria dos meus fregueses já sofreu algum tipo de violência”, comenta ele. Infelizmente, Lacerda integra um grupo em extinção por conta do avanço implacável da criminalidade no Amapá. Apavorado, o cidadão se encarcera em casa enquanto o marginal perambula livre pelas ruas da cidade.
Lamentável reconhecer, mas no Amapá a polícia é a mesma de ontem. Ou quase. Os policiais dizem que correm atrás de bandidos a bordo de verdadeiras latas velhas, enquanto os criminosos usam motocicletas e carros potentes. Algumas delegacias estão com os telefones cortados, computadores quebrados e ainda usam velhos arquivos de aço. Um policial veterano, avaliando seus colegas, salva 30% de bons, aponta 40% sem tarimba e sem entender nada de polícia e acusa os restantes 30% de ausentes por não quererem trabalhar.
O próprio ex-secretário de Estado da Segurança Pública, Ericlaudio Alencar, reconheceu,à época em que exercia o cargo, que o serviço policial no Estado não acompanhou o processo de desenvolvimento de outras regiões. Ficou no atraso. E esta confissão é o reflexo da falta de pessoal habilitado, da carência do aparelhamento e do desconhecimento das técnicas mais elementares da criminologia. Tudo isso contribui para que existam policiais pouco eficientes, incapazes de ir além da rotina. Diante de um assalto, lançam mão de artifícios defasados, como velhos fichários onde antigamente se selecionava os delinquentes mais conhecidos que atuavam na área, e apresentam pilhas de fotos às testemunhas e vítimas.

Fugas do IAPEN

FRAGILIDADE — Segurança deficiente no IAPEN estimula a constante fuga de presos. Por este túnel, fugiram oito detentos em agosto de 2017

Outro agravante a ser investigado intriga a sociedade: por que existem tantas fugas de presos perigosos do Instituto de Administração Penitenciária? Somente em agosto do ano passado, oito detentos fugiram por um túnel, construído em um banheiro da ala de segurança mínima do IAPEN. Os detentos arrancaram um vaso sanitário do banheiro que fica dentro de uma das celas e abriram um buraco. No local também foram encontradas várias sacas de terra. Um número espantoso para uma penitenciária estadual que teoricamente deveria ter um esquema de segurança com pelo menos 85% de infalibilidade. Na ocasião, o então secretário de Segurança apresentou uma justificativa recheada de senões. Segundo afirmou, tratou-se de “(…) uma espécie de demonstração de força, um desafio que os criminosos fazem para intimidar e desacreditar a direção da penitenciária”.
Ainda que tenha um fundo de verdade, muita gente torceu o nariz para o secretário. Principalmente porque 2018 promete ser um ano tão ou mais violento que 2017 pela simples constatação de que mesmo uma polícia eficiente não vence o crime com facilidade. Apenas o segura. “O Rio de Janeiro, por exemplo, é a um só tempo a mais violenta e a mais bem policiada cidade brasileira: três minutos após um crime chegam três carros de polícia; porém, três minutos depois há outro crime”, diz o sociólogo Rubem Leôncio.
Talvez haja aí um pouco de exagero. Mas só um pouco. Especialistas em criminologia apontam algumas causas do aumento da criminalidade no Amapá: a miséria de certas camadas da população, os problemas psicológicos de numerosos indivíduos submetidos a fortes tensões sociais, a deficiência da educação, volumosos casos de corrupção no governo, políticos envolvidos em rumorosos crimes de malversação e formação de quadrilha, e que continuam soltos, ou mesmo presos, cumprindo pena na penitenciária estadual, mantêm o mandato. “Essa impunidade e leniência estimula o aumento da criminalidade entre a população de baixa renda”, assinala o especialista.

Atração pelo crime
E parece que o sociólogo tem toda razão. Com pouca ou nenhuma perspectiva, cada vez mais jovens carentes entram no “mundo do crime” impulsionados pelo mapa tortuoso das drogas. E sem medo da morte. Porém, essa nova coragem tem calibre grosso. Há dez anos, um revólver 32 na mão de um bandido era uma novidade. Hoje, eles não se contentam com menos de 38. E gostam muito de pistolas, sub-metralhadoras, rifles potentes; enfim, armas de uso exclusivo das Forças Armadas. De onde sai tanta arma? Roubadas de porta-luvas de automóveis; furtadas em residências particulares; compradas no comércio ilegal. E as armas exclusivas do Exército e Polícia Militar, as sub-metralhadoras, por exemplo? “As nacionais são roubadas nas corporações. E as estrangeiras vêm pelos caminhos do contrabando”, comenta um agente da Polícia Civil que pediu sigilo.
Esta é a realidade atual da segurança pública no Amapá. Que precisa se modernizar para combater com eficiência o crime organizado que se alastra pelo Estado. E vencer a bandidagem significa preparar melhor o futuro policial. “Uma sociedade atenta para os seus problemas e disposta a resolvê-los até onde for possível pode atacar a criminalidade com mais vigor”, assinala Rubem Leôncio, acrescentando que “(…) nenhuma necessidade humana é mais básica do que a segurança pessoal. Nenhuma liberdade é mais instintiva que a liberdade do medo. Se não estamos seguros em nossas casas e nas nossas ruas, se estamos ameaçados — ou por um agente policial ou por um criminoso —, então não somos livres.”

Governantes negligenciam seus deveres e Complexo do Araxá vira terra arrasada

DECADÊNCIA – A sujeira que alastra-se pelo Complexo do Araxá surpreenderia qualquer visitante. Para empresário, somente a vontade dos governantes resolveria esse problema
Por: Emanoel Reis

O que deveria ser um dos principais cartões postais de Macapá, atraindo turistas dos Estados próximos e, até do exterior, virou terra arrasada, com calçadas ruindo, blocos de concreto do muro de arrimo arrancados à força de fórceps pelas águas do rio Amazona, lama, mato e muito lixo espalhado ao redor dos quiosques. Este é o retrato desfocado do Complexo Turístico do Araxá, que ocupa uma extensão de quase dois quilômetros na orla de Macapá, um dos mais belos cenários da Amazônia Legal, segundo opinião de renomados especialistas, a exemplo do pesquisador Nemézio Filho, doutor em Comunicação Cultural e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cuja visita à capital amapaense foi marcada por um almoço em um dos restaurantes do Araxá, às margens do maior rio do mundo. O que ele afirma ter sido um dos melhores momentos de sua vida.
Atualmente, e apesar das promessas reverberadas nos palanques e comícios, é desaconselhável ao habitante de Macapá ciceronear parentes ou amigos em qualquer excursão pelo Complexo do Araxá. É certeza absoluta de expor-se a constrangimentos e de obrigar o visitante a externar opiniões desagradáveis sobre a cidade do anfitrião. E pior: ser obrigado a ouvir tais críticas em silêncio sepulcral por falta absoluta de argumentos para convencer o interlocutor do contrário. Infelizmente, ele estará certo ao apontar as enormes crateras na calçada, os blocos de concreto espalhados às margens do rio, o mato abundante para mais de metro de altura, o lixo saltando aos olhos.
Questionado sobre as precárias condições do Complexo Turístico do Araxá, o empresário Reinaldo Von Sharten ergueu a sobrancelha com malícia, levantou o braço direito e apontou em direção à zona sul da cidade, mais precisamente para a avenida FAB, uma das principais vias de Macapá, onde estão localizadas as estruturas das três esferas de poder: judiciário, executivo e legislativo. Tanto do Estado quanto da capital. “A solução está na vontade daqueles dois senhores que ocupam os dois cargos mais relevantes: governador e prefeito de Macapá. Se eles quisessem, a situação do Araxá seria outra.”

Onda de violência no Amapá ganha contornos de tragédia social

Violência Urbana
Os comerciantes Edson Pereira (E) e João Batista (D) precisaram recorrer às grades para conter a ousadia dos assaltantes

Em apenass cinco meses, o número de homicídios no Estado alcança níveis alarmantes e revela um quadro em que a criminalidade vem adquirindo características de epidemia sem nenhum vislumbre de cura imediata, conforme revelam os representantes dos próprios órgãos de segurança

“Meter o bicho” quer dizer “assaltar”. A expressão, cunhada nas ruas pelos criminosos, é também bastante conhecida pelos policiais e até usada por jornalistas que cobrem o submundo do crime e a ação da polícia. Nos últimos meses, o que o amapaense mais tem visto são bandidos metendo o bicho. Os alvos são os mais variados, desde um simples mercantil de esquina a uma agência bancária dentro do que deveria ser uma fortaleza a prova de roubos: o quartel do próprio Comando Geral da Polícia Militar do Estado, onde trabalham mais de 3 mil policiais. O QG da PM do Amapá também já foi assaltado. Apesar de todas as tentativas e mega-operações realizadas nos fins de semana, as forças de segurança parecem ser incapazes de tirar de circulação os mentores por trás dessas ações criminosas. Por isso, a onda de assaltos continua, e está virando uma pororoca.
Os assaltos sempre foram comuns no Amapá, especialmente na capital, que concentra cerca de 70% dos 648 mil habitantes do Estado, segundo o IBGE. Contudo, este ano a ação dos bandidos começou a ganhar cada vez mais as manchetes dos jornais e espaço nos programas de rádio e televisão. Alguns ataques terminaram até com reféns e negociação com a polícia.
Em escalada crescente na capital do Estado estão os assaltos a pequenos estabalecimentos comerciais. No bairro Nova Esperança o comerciante Edson Pereira Souza, de 24 anos, foi obrigado a esvaziar o caixa enquando a filha de um ano e meio tinha uma arma apontada para a cabeça. “Já fui assaltado quatro vezes este ano. Na última vez, o bandido chegou sozinho armado e fugiu a pé”, lembra ele, que agora tem que trabalhar o dia inteiro atrás de uma grade que na verdade não oferece proteção alguma contra armas de fogo. “Eu vivo apavorado”, confessa.
Quem também trabalha como se fosse um criminoso, atrás de uma grade, é o comerciante João Batista Souza, de 39 anos. Desde o fim do ano passado já foi vítima de cinco assaltos. “Vou desistir. Vou entregar o ponto para o dono e voltar para o Ceará”, diz ele, desiludido. Detalhe: o mercantil de João Batista fica a 10 metros da Delegacia do Nova Esperança.
A quantidade de roubos varia muito, segundo revelam as próprias estatísticas da Polícia Militar. Assaltos onde as vítimas são pessoas caminhando em via pública lideram o ranking da criminalidade em Macapá. Os alvos mais frequentes são os pequenos e médios estabelecimentos comerciais, residências, bicicletas, motos, carros e postos de revenda de combustíveis.
A criminalidade está espalhada pelos quatro cantos do Amapá. No caso dos assaltos, o Centro, um dos maiores bairros da capital, está entre os campeões de ocorrências. Os crimes são de todos os tipos. E na ponta do atendimento está o Centro Integrado de Operações em Defesa Social (Ciodes), responsável por receber as primeiras chamadas do cidadão vítima de um crime.
A Polícia Militar está dividida em batalhões com o dever de guardar grandes extensões do território amapaense. Vinte e cinco por cento das ocorrências estão dentro da área de abrangência do 1º Batalhão, que compreende nada menos que 26 bairros, incluindo o Centro.
Apesar dos assaltos dominarem as manchetes por serem crimes onde existe violência e muitas vezes assassinatos, esses não são os crimes mais comuns. A PM também atende ocorrências sobre poluição sonora, seguidas de averiguação de suspeito, violência doméstica contra a mulher, ameaça, rixa, estupros, compra e venda de drogas entre outros.
Numa tentativa de inibir a violência, a PM tem realizado nos fins de semana mega-operações em Macapá e Santana. A Polícia Civil igualmente participa das ações. Ainda assim, a onda de violência no Amapá continua em espiral crescente.

Trânsito desorganizado em Macapá sufoca e atemoriza população

Emanoel Reis

trânsito louco
Temendo ser atropelado mesmo na faixa, transeunte foge do perigo iminente

Parado na frente de um antigo imóvel em alvenaria localizada na rua Leopoldo Machado, às proximidades da avenida Ana Nery, bairro Jesus de Nazaré, o aposentado Otoniel Moreira dos Santos, 74 anos, olha desinteressado o intenso tráfego de veículos no entorno. Já se acostumou ao ronco dos motores, às buzinas dos apressados, às freadas bruscas. Não por conformismo, assinala. Mas, porque desistiu de reclamar. “Antigamente não era assim”, observa, com evidente tom monocórdio na voz.
O tempo assinalado pelo septuagenário reporta ao século passado, mais precisamente aos anos 1950 e 1960, quando Macapá despontava como capital do Território Federal do Amapá, e ostentava o status de “cidade joia da Amazônia” pelo clima bucólico, hospitalidade cativante, ruas limpas e praças conservadas. Na época de seu Otoniel, nem havia trânsito em Macapá. Tampouco índices de violência. “Todo mundo se conhecia”, completa ele.
Sessenta anos depois, a capital do Estado do Amapá retorce-se em convulsões. Padece dos males típicos das grandes metrópoles, a exemplo do trânsito desordenado, e sofre com o desleixo político-administrativo de seus governantes. A ascensão do psolista Clécio Luiz à Prefeitura de Macapá, a partir das últimas eleições municipais, ainda provoca reações controversas. Há quem acredite numa gestão realmente comprometida com a promoção do bem-estar comum. Outros, continuam ressabiados, comportamento compreensível para quem cansou das vãs promessas dos maus políticos.
Três quarteirões após Otoniel Santos se despedir com uma declaração de amor à Macapá, apesar das marchas e contramarchas urbanas, o professor José Aguiar, radicado na capital amapaense há quase duas décadas, faz questão de relacionar os problemas do trânsito com ares de expertise. Primeiro, sugere mudanças radicais no fluxo de veículos no centro da cidade. “Algumas ruas e avenidas são subutilizadas”, comenta, referindo-se às avenidas e ruas Procópio Rola, Raimundo Álvares da Costa, Ernestino Borges, Hamilton Silva, Jovino Dinoá, Odilardo Silva. Segundo, denuncia que a sinalização (tanto vertical quanto horizontal) é confusa e precária. “Algumas nem existem, outras estão encobertas pelas folhagens das árvores.”
O paraense sugere mudanças radicais. “No primeiro mandato do [ex-prefeito de Belém] Edmilson [Rodrigues], fizeram profundas mudanças no trânsito da cidade [Belém]. Elas continuam até hoje. Acho que quem comandou essas mudanças foi a Cristina [Baddini]”, observa, acrescentando que prefere deixar o carro em casa. “Às vezes, chegou bem mais rápido ao trabalho”, exulta José Aguiar despedindo-se efusivamente.
Para relembrar, a convite de Edmilson Rodrigues a engenheira Cristina Baddini presidiu a Companhia de Trânsito de Belém ( CTBel) de 1996 a 2000. Realmente, as mudanças promovidas por ela provocaram polêmicas e discussões acaloradas. A principal delas foi a inversão no fluxo do trânsito na avenida Magalhães Barata (São Brás até a Travessa 14 de Março) e Nazaré (da avenida Generalíssimo à Travessa Assis de Vasconcelos). Outra mudança radical foi na avenida José Malcher (sentido São Brás à Assis de Vasconcelos).
No entendimento do professor José Aguiar, que seguiu pelo que restou de meio-fio e calçada à margem esquerda da rua Leopoldo Machado, somente com mudanças iguais seria possível melhorar o trânsito em Macapá. “Mas antes é preciso que todos estejam envolvidos”, recomenda.