Morte de cacique Wajãpi gera controvérsias

Os procuradores anunciaram que o corpo de Emyra Wajãpi será exumado trasladado no helicóptero do Grupo Tático Aéreo da Secretaria de Segurança Pública do Estado, da região de Pedra Branca do Amapari até Macapá. O vereador Jawaruwa demonstrou preocupação com o fato de o corpo já ter sido tocado pela família. O procurador da República Rodolfo Lopes explicou que somente o técnico responsável poderá dar detalhes a respeito e ressaltou que o exame é fundamental para esclarecer a causa da morte.

A versão sustentada pelo vereador indígena Jawaruwa Wajãpi (Rede), durante reunião recente com os procuradores da República Rodolfo Lopes e Joaquim Cabral, responsáveis pelas investigações iniciais acerca da morte do cacique Emyra Wajãpi e do relato de invasão de área pertencente à nação wajãpi, no município de Pedra Branca do Amapari, a 188 quilômetros de Macapá, contradiz as afirmações do general Luiz Gonzaga Viana Filho, comandante do Exército no Amapá.
No encontro, Jawaruwa Wajãpi reiterou ter ocorrido invasão de um grupo de garimpeiros na aldeia Yvototõ. “Viram três invasores não-índios, que estavam lá sentados, conversando. Voltaram para avisar a comunidade na aldeia Yvototõ. Então, nesse momento, os guerreiros foram atrás dos invasores, seguiram pelo rastro, só que eles apareceram na aldeia onde não tinham homens, guerreiros wajãpi”, relatou ele aos procuradores.
O general, contudo, rejeita essa versão. Conforme esclarece, “a perícia da Polícia Federal não encontrou indícios de que houve invasão de garimpeiros e nem conflito com índios nas terras da etnia Waiãpi”. No entendimento dele, os índios “(…) provavelmente se assustaram e se comentou de uma invasão que, em trabalho científico pericial, não foi constatada.”

Embora o Conselho das Aldeias Waiãpi (Apina) tenha afirmado que “a morte do cacique Emyra Wajãpi não foi testemunhada por nenhum outro Waiãpi, e só foi descoberta na manhã seguinte (23 de julho)”, os indígenas insistem em questionar o trabalho realizado pela Polícia Federal. Segundo afirmam, os agentes federais teriam ignorado as indicações de possíveis localizações de não-índios feitas durante as diligências. “Esses polícias chegaram lá e nós mostramos os sinais para eles: o piso onde que eles (invasores) pisaram e deixaram sua marca, o piso de sapato”, disse. “Eles falaram ‘não viemos para entrar no mato, não viemos para ir atrás dos invasores, viemos para onde pensávamos que estavam localizado, dentro de uma casa, um trabalho, fazendo exploração lá. Viemos para prender essas pessoas num lugar, não viemos para ir atrás’. Não se interessou para ajudar a gente. Ou tem medo de entrar dentro do mato para poder encontrar”.
Para o general Viana Filho, possivelmente os indígenas estão equivocados. “Eu não digo que é mentira. Porque, às vezes, se encontra um corpo e causa um susto, um clamor, começa um ‘disse me disse’. Acho que se assustaram ao encontrar um indígena morto e é possível [ter sido um assassinato causado por não indígena]. Já aconteceu isso nas terras, de invasões, então é lícito que o primeiro pensamento seja que foi uma invasão, que foi um garimpeiro, que foi um invasor, que foi um assassinato por alguém fora da aldeia. É lícito pensar assim. E é pra isso que temos a Polícia Federal, a Polícia Militar, o próprio Exército. Fazemos o trabalho pericial para descartar ou não esses indícios”, completou.
A questão, no entanto, parece mais complexa do que simples desencontro de informações. Há tempos, os Waiãpi denunciam invasões em suas terras feitas, inclusive, por grandes empresas de mineração que estiveram instaladas no município de Pedra Branca do Amapari. A Apina confirma que tentativas de invasão de “não indígenas” ocorrem desde a década de 1970, mas, sempre foram rechaçadas pelos próprios indígenas. Dessa vez, assinala a entidade, o cacique Emyra Wajãpi teria sido executado “(…) com perfurações de faca, na cabeça, barriga e olhos, [tendo] o pescoço amarrado e o corpo jogado dentro de um rio”.
Por sua vez, o general Luiz Gonzaga Viana Filho afirma, peremptoriamente, que não houve nenhuma invasão de não-índios nas terras dos Waiãpi. “É uma área grande e, obviamente, todo o solo do Amapá é rico em minerais, particularmente em ouro, então essas cobiças em busca de garimpo, de ouro, sempre existem e, às vezes, se tangenciam as terras indígenas ou às vezes até dentro das terras indígenas. É pra isso que nós temos que proteger os índios, proteger de invasões, mas temos que ser coerentes e fidedignos nas narrativas. Nesse caso específico a narrativa de que houve invasão de 40, 50 garimpeiros fortemente armados é descabida. Nós temos que falar a narrativa correta até por uma questão de justiça com o trabalho sério das instituições de Estado”, ressalta.

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