CIÊNCIA

INIMIGOS OCULTOS

“Novas pandemias virão”, alerta pesquisador que identificou 100 novos tipos de vírus

Pedro Fernando da Costa Vasconcelos passou 40 dos seus 63 anos observando o comportamento dos vírus
Pedro Fernando da Costa Vasconcelos é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e trabalha no Instituto Evandro Chagas
Por Ayrton Centeno

O pesquisador Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), passou 40 dos seus 63 anos observando o comportamento dos vírus, dos quais é um dos maiores conhecedores do mundo.
Sua equipe descreveu mais de 100 espécies de arbovírus (transmitidos por insetos) na Amazônia. Foi a primeira a detectar a presença do zika no cérebro de um recém-nascido, relacionando a infecção de gestantes com a microcefalia. Diagnosticou o primeiro episódio da febre do Nilo Ocidental no Brasil e estudou o comportamento do agente da febre amarela em macacos.
Atuando no Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA), investiga ainda o comportamento dos patógenos da dengue, chikungunya, hantavírus e raiva. Aqui, ele adverte que a ciência só conhece 0,1% dos vírus existentes no universo. Acredita que até um bilhão de espécies permanecem completamente desconhecidas e avisa que novas pandemias irão ocorrer. Recém recuperado da covid-19, ele foi entrevistado por e-mail.
“Devem emergir muitos vírus que vão causar epidemias, porém ficarão confinados em um ou, no máximo, dois continentes. Esses devem ser em número maior que os que venham a causar pandemias. E, portanto, talvez somados (ou em conjunto) causem maior número de casos e de mortes do que os que venham a causar pandemias”, alerta.

O senhor ficou surpreso com a pandemia do coronavírus ou era algo que já esperava?

Pedro Fernando da Costa Vasconcelos: Ninguém imaginava o impacto que causaria na população mundial, no comportamento das pessoas, nas reações dos governos. Houve uma transformação do mundo em que vivemos e que deve se estender por muitos anos, talvez décadas. O mundo pós-pandemia deve ser muito diferente de antes da pandemia.

Com o avanço da devastação na natureza e a presença humana em ambientes selvagens e antes protegidos, podemos dizer que novas pandemias fatalmente ocorrerão?

Sim, isso é certo. Quantos agentes virais vão atingir esse patamar de pandêmicos não sabemos, mas certamente outras pandemias por vírus até então desconhecidos devem ocorrer no planeta. Além desses, devem emergir muitos vírus que vão causar epidemias, porém ficarão confinados em um ou, no máximo, dois continentes. Esses devem ser em número maior que os que venham a causar pandemias. E, portanto, talvez somados (ou em conjunto) causem maior número de casos e de mortes do que os que venham a causar pandemias.

Seu trabalho envolveu identificar e descrever mais de 100 espécies diferentes de vírus. Que lição aprendeu com essa convivência com os vírus?

Que é preciso muito cuidado na sua manipulação durante os experimentos. Não deve se experimentar por experimentar. Não conhecemos como esses vírus novos, desconhecidos, se comportarão no laboratório, nos animais de experimentação e nos cultivos celulares.
Nos experimentos procuramos definir a patogenia dos mesmos nos animais, para conhecer os órgãos alvos preferenciais dos vírus. Assim saberemos como eles podem ou devem se comportar nos humanos, causando infecções ou doenças. Mas, por vezes, não funciona assim. Vide o caso dos coronavírus. Os conhecidos há mais tempo estão associados ao resfriado comum. Já os que emergiram recentemente estão associados com doença respiratória grave, caso dos vírus SARS, MERS e SARS-COV-2, este o causador da covid-19.

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Quais dos vírus que identificou podem representar um perigo para a humanidade?

É difícil especular. Muitos são relacionados com os vírus que causam doença grave em humanos, mas os isolados pelo IEC (Instituto Evandro Chagas) na Amazônia ou não causam doenças em humanos ou causam com quadro leve geralmente febril. Portanto, eu não me atrevo a propor que este ou aquele é mais propenso para emergir como patógeno de humanos.

Quais poderiam fazer o trajeto do animal para o homem como aconteceu com o novo coronavírus?

Diversos poderiam se tornar patógenos de humanos. Mas é bom lembrar que a maioria dos vírus que temos estudado e isolado na Amazônia, são arbovírus, ou seja, a transmissão e manutenção dos mesmos se fazem em um ciclo que envolve obrigatoriamente insetos hematófagos como vetores (transmissores), o que não ocorre com o coronavírus.
Assim sabemos que é muito mais fácil para um agente se tornar pandêmico se a transmissão do mesmo é respiratória como no caso dos coronavírus e do vírus da influenza. É possível um arbovírus se tornar pandêmico e temos exemplo deles, casos da dengue e da chikungunya. O Zika quase se tornou uma pandemia, mas felizmente durante sua emergência em 2015-2017 não evoluiu ficando (quase) restrito aos países do continente americano.

O que poderia dizer sobre o alfavírus Mayaro e o orthobunyavírus Oropouche? Que ameaça representam?

São dois arbovírus, vírus enzoóticos (comuns a uma localidade) na Amazônia e periodicamente tornam-se epidêmicos, mas diferem entre si. O Mayaro causa doença febril exantemática com artralgias (dores nas articulações), enquanto o Oropouche causa doença febril e, por vezes, quadro de meningo-encefalite, mas autolimitada e sem registros (até agora) de óbitos, e cujas epidemias ocorrem em áreas urbanas periféricas ou em localidades próximas de matas ou recém colonizadas. No Mayaro, os surtos são mais limitados e ocorrem em pequenas comunidades que adentram à floresta, pois o transmissor desse vírus, o mosquito Haemagogus, tem hábitos estritamente silvestres. As pessoas são infectadas ao entrarem na floresta.

Eles poderiam usar como vetores os mosquitos, como aqueles do grupo Aedes que já transmitem a dengue, chikungunya e zika?

O que muitos cientistas propagam é que esses dois vírus podem se urbanizar e serem transmitidos por Aedes aegypti. E, de fato, em estudos experimentais em Aedes aegypti e Aedes albopictus, ambos os vírus se replicaram nessas espécies de mosquitos que se adaptaram muito bem em ambientes urbanos e são associados com a transmissão de dengue, chikungunya e zika.

Que condições teriam para se expandir da Amazônia para o planeta?

Se Mayaro e Oropouche se adaptarem ao Aedes aegypti, certamente eles podem se disseminar onde exista esse vetor e até mesmo se tornar pandêmico, pois não existe imunidade para esses arbovírus na população fora da Amazônia. Mas, insisto, é preciso uma série de fatores atuando em favor para que esses vírus venham a se adaptar aos Aedes e daí se disseminarem.

O que a ciência, a medicina e os governos poderiam fazer para impedir tal expansão?

Muitos fatores podem ser trabalhados. Um deles é preservar a floresta onde circulam em ciclos enzoóticos entre animais e mosquitos silvestres. Hoje sabemos que as ações humanas sobre a floresta para os mais diversos propósitos, tendem a facilitar o escape de um vírus e a troca e sua adaptação a novos hospedeiros e novos vetores transmissores. Isso provavelmente foi o que ocorreu com o Oropouche que se adaptou ao seu vetor atual Culicoides paraensis (vulgarmente conhecido como maruim) e processo semelhante pode estar contribuindo também para essas emergências do Mayaro.

Seu trabalho está direcionado para os arbovírus. Existem os nativos, mas também os exóticos, como o vírus do Nilo Ocidental. Ele está presente no país? O que causa?

O vírus do Nilo Ocidental chegou nas Américas em 1999 por Nova York, quando ocorreu um surto no zoológico da cidade. Daí se disseminou pelos EUA e em 2003, quatro anos após, já havia atingido o país de costa a costa e também chegado ao Canadá. Em seguida, desceu para a América Central e finalmente a América do Sul.
Há registros desse vírus na Venezuela, Peru, Argentina e Brasil. Aqui nós isolamos o Nilo Ocidental de equinos no Espírito Santo e confirmamos diversos casos humanos e animais no Piauí e Ceará. O vírus parece que está se capilarizando silenciosamente, e esporadicamente tem sido associado com doença seja em humanos, seja em animais. O Nilo Ocidental deve no futuro continuar se tornando endêmico e paulatina e periodicamente emergir em pequenos surtos ou epizootias com raros casos em humanos.

Arte: MetaCom

E quanto ao vírus Nipah que causa encefalite e, em alguns casos, demência?

Esse é um vírus extremamente perigoso, mas não é arbovírus. É zoonótico, transmitido por morcegos na Ásia, onde é endêmico em países como Malásia, Sri Lanka, etc. Os surtos nesses países têm apresentado letalidade de aproximadamente 20% e a prevalência das sequelas neurológicas é bastante elevada, entre as quais a demência tem sido muito frequente. Mas eu penso que continuará como problema localizado no sudeste da Ásia.

Além do coronavírus, o Brasil convive em 2020 com o avanço da dengue em vários estados ao ponto de termos, hoje, mais de 820 mil casos. Como a dengue, uma doença discreta até os anos 1970/80, tornou-se um flagelo anual?

Pergunta interessante, mas, no caso do dengue, o fator humano foi fundamental na disseminação da doença ao facilitar a expansão do seu transmissor Aedes Aegypti. Se houvesse um controle vetorial eficiente, o dengue se limitaria a poucos casos (e também o chikungunya, zika e outros vírus transmitidos por esse mosquito).
Como os países fracassaram no controle vetorial do aedes, as epidemias se tornaram cada vez mais frequentes e com muito mais casos. E o Brasil é o país que mais notifica casos quase sempre acima de um milhão, e mesmo assim a subnotificação é muito grande. A [Organização Mundial de Saúde] OMS estima que, para cada caso notificado, ocorreriam entre 10-100 outras infecções clínicas e subclínicas e inaparentes. Portanto, dá para se ter ideia do impacto dessa arbovirose na vida do cidadão.

A febre amarela foi outra moléstia que reapareceu…

Sim é verdade. O Brasil vivenciou uma grande epidemia entre 2016 a 2019 com mais de 2500 casos notificados e quase 100 mortes registradas. Um escândalo para uma doença com uma vacina ativa e eficaz há mais de 80 anos!

A vacinação é uma vitória humana na luta contra a doença e a morte, mas, recentemente, surgiram grupos antivacinas que, através de notícias falsas, questionam a eficácia e os benefícios da imunização…

São uma loucura esses movimentos antivacinas. É bom lembrar que todos eles (os pais) foram vacinados na infância, mas agora questionam a eficácia das vacinas e não querem que seus filhos sejam vacinados. A título de exemplo, vamos voltar à atual pandemia. Se nós tivéssemos uma vacina para a covid-19, certamente talvez nem 10% dos casos registrados e de óbitos teriam ocorrido.
A vacinação é muito importante. A única doença erradicada do planeta, a varíola, só se conseguiu isso graças aos esforços conjuntos dos países e da OMS. Há décadas ninguém morre de varíola. Muita gente nem sabe o que é, mas, no passado, foi uma doença terrível. A vacinação universal resultou na erradicação em definitivo. Aí eu pergunto: como ser contra as vacinas? A poliomielite é outro exemplo. Muito em breve devemos estar livres para sempre desses três vírus da pólio. E graças à vacinação universal das crianças!

A cobertura vacinal caiu 20% e, em 2019, o Brasil perdeu o certificado de país livre do sarampo que obtivera três anos antes. Como interpreta esse retrocesso?

Falta de coesão nos programas estaduais de vacinação junto ao PNI [Programa Nacional de Imunizações]. Infelizmente, os números das coberturas vacinais estão bem abaixo do recomendado e, além dessa falta de entrosamento entre governo federal, governos estaduais e municipais, esses movimentos antivacinas têm influenciado os pais vacinados e protegidos, de fazer o mesmo com seus filhos. Daí essa queda.

Se for possível usar uma porcentagem, qual percentual ainda desconhecemos dos vírus existentes no mundo?

Eu diria que desconhecemos mais de 99,9% da virosfera do planeta. Hoje temos catalogado cerca de 10 mil vírus e se estima que devam existir vários milhões de vírus, talvez até passe do bilhão. Portanto, temos pouco conhecimento sobre esses agentes de doenças.


Fiocruz trabalha em vacina brasileira para Covid-19

Oito vacinas em fase experimental já iniciaram a fase clínica de testes com pessoas

Em todo o mundo, cerca de 200 grupos de cientistas trabalham intensamente no desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz contra a covid-19. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), pelo menos oito delas já iniciaram a fase clínica, de testes em pessoas.
A equipe brasileira, composta por 15 pessoas, é liderada pelo pesquisador Alexandre Vieira Machado, da Fiocruz em Minas Gerais, em parceria com outras instituições, como a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o Instituto Butantã, a USP (Universidade de São Paulo) e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.
Segundo Machado, o Incor (Instituto do Coração) de São Paulo também trabalha no desenvolvimento da vacina, liderado pelo médico Jorge Kalil, e há troca de informações entre as duas equipes. “Esperamos que nós possamos utilizar a deles junto com a nossa em alguns testes”, diz Machado.

Coronavírus
A atual pandemia de covid-19 é causada pelo novo coronavírus, chamado tecnicamente de Sars-CoV-2, uma mutação do vírus Sars-CoV-1, que provoca a Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars, da sigla em inglês). Segundo dados da OMS, a Sars registrou 8.098 casos e deixou 774 mortos em 26 países entre 2002 e 2003, com foco principal na Ásia.
Outro tipo de coronavírus causa a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, da sigla em inglês), que deixou 858 mortos desde 2012, com um total de 2.494 casos em 27 países.
Covid-19 significa Corona Virus Disease, ou doença do coronavírus em português. O 19 se refere a 2019, ano em que foram divulgados os primeiros casos em Wuhan, na China. O Sars-Cov-2 já registrou quase 6 milhões de casos em todo o mundo, com mais de 360 mil mortos.
Machado explica que o vírus Sars-CoV-1 desapareceu depois do surto de 2002 e as pesquisas com ele foram interrompidas, por isso agora há mais dificuldade de se encontrar a vacina, com a pandemia em andamento e com um vírus muito mais contagioso e que causa uma doença grave. “É como ter que trocar o pneu de um carro em movimento descendo uma ribanceira”, diz o pesquisador.
“Não tem vacina pro Sars-CoV. É uma coisa muito triste e um recado para a ciência e para as agências de fomento. Somos frequentemente confrontados com doenças novas, como zika e chikungunya, e a volta de outras, como sarampo e febre amarela, isso desvia o foco das linhas de pesquisa e dos investimentos em vacina. Isso é ruim, porque se nós tivéssemos uma vacina aprovada para Sars-CoV-1, mesmo que fosse em fase clínica, numa plataforma que funcionasse, a gente poderia ter pulado algumas etapas”.

Vacina
Machado explica que o trabalho de sua equipe está sendo feito a partir de algum conhecimento acumulado com o Sars-CoV-1 e usa como base o vírus influenza recombinante, outra doença com sintomas respiratórios e mais grave em idosos, assim como a covid-19.
“Nós modificamos geneticamente o vírus da gripe, que é o vírus influenza, para que ele produza tanto as proteínas do vírus da gripe quanto uma proteína que nós chamamos de imunogênica, uma proteína que induz resposta imune, no caso ao Sars-CoV-2. Esperamos que uma pessoa vacinada com esse vírus tenha uma proteção contra a covid-19 e também à influenza”.

Porém, embora promissor, o trabalho ainda está longe de ser concluído. Segundo o pesquisador, o desenvolvimento laboratorial, com testes em camundongos, deve ser concluído em meados do ano que vem. Para só então iniciar a fase clínica, que é mais complexa e cara, pois exige mais estrutura, pessoal especializado e condições sanitárias específicas.
“A partir daí começa a parte clínica, usando outra espécie, como hamster, com mais controle de segurança, de toxicidade, de reações adversas. Depois que sair disso, ainda vai mais uns dois anos para entregar uma vacina com segurança para a população. Hoje é torcer para essas vacinas que estão em fase clínica, algumas delas, cheguem a termo e que nós tenhamos vacinas o suficiente para vacinar a população mundial”.
Segundo ele, uma das vacinas que já entrou na fase clínica foi o da Universidade de Oxford, no Reino Unido. A equipe britânica estava trabalhando com a vacina da Mers e testam agora com o antígeno do Sars-CoV-2. “Eles já tinham um conhecimento que colocou eles alguns passos adiante”, explica Machado, afirmando que, no momento, ainda há mais perguntas do que respostas sobre a vacina.

“Nós não sabemos ainda com quantas doses a vacina vai funcionar. Será que vai ter a mesma eficácia em jovens, idosos e crianças? Por quanto tempo a pessoa vai ficar imunizada? Essas questões todas têm que ser avaliadas e quanto mais opções nós tivermos de ferramentas, mais chances nós temos de chegar a um produto final”.
Equipes americanas e chinesas também estão na corrida para uma imunização para a covid-19 com resultados promissores.
Mas para o pesquisador, é fundamental que as instituições públicas do Brasil desenvolvam a vacina com tecnologia própria, para que o país seja capaz de proteger a sua população sem depender de outras patentes, muitas vezes desenvolvidas por empresas privadas.
“Isso é muito importante, porque a vacina para covid-19 nem existe e já tem briga por ela. Qual a garantia que o Brasil tem, se um laboratório no exterior conseguir produzir, que terá acesso a ela? E em tempo hábil? Então o Brasil ter uma vacina própria, com tecnologia própria, é soberania nacional e independência tecnológica. Hoje, vacina é geopolítica e ciência é poder”, afirma.


Cientistas da Nasa descobrem evidências de possível universo paralelo

O experimento realizado por pesquisadores da Nasa em laboratório na Antártica mostrou partículas viajando para trás no tempo

Por Luiz Nogueira

Em um cenário que parece ter saído de um filme de ficção científica, um grupo de cientistas da Nasa detectou evidências da existência de um universo paralelo, em que as regras da física são opostas às nossas. Esse ‘mundo invertido’ foi descoberto durante um experimento realizado na Antártica.
Usando a Antena Impulsiva Transiente da Antártica (Anita), da Nasa, os especialistas tinham a intenção de detectar o constante “vento” de partículas de alta energia vindas do espaço. O ar frio e seco do local oferecia o ambiente perfeito para que não houvessem distorções na captação desse fenômeno.
Devido à baixa energia e massa próxima a zero, os neutrinos subatômicos podem passar completamente pela Terra. No entanto, uma variante de alta energia é interrompida pela matéria sólida do nosso planeta.
Isso significa que elas só podem vir do espaço, já que, se estivessem por aqui, seriam barradas pelos elementos sólidos presentes. Porém, o que chocou os especialistas foi que detectaram um ruído vindo da Terra. Ao analisarem os dados, encontraram neutrino de alta energia saindo do chão.

Viagem no tempo
A descoberta implica que essas partículas podem estar realmente viajando para trás no tempo, sugerindo evidências de um universo paralelo, em que as leis da física funcionam de forma contrária às nossas.
Peter Gorham, físico experimental de partículas da Universidade do Havaí e um dos principais pesquisadores por trás do projeto Anita, sugeriu que a única maneira do neutrino de alta energia se comportar dessa maneira é se ele se transformasse em um tipo diferente de partícula antes de passar pela Terra.
Ao descrever o fenômeno, o especialista disse que alguns colegas que presenciaram o acontecido ainda estavam céticos, mas que ficaram intrigados com a descoberta. De acordo com ele, a explicação mais simples para o acontecido é que, no momento do Big Bang, explosão que deu origem a tudo, dois universos foram formados: o nosso e um que, da nossa perspectiva, apresenta regras opostas da física.
Porém, pelo menos por enquanto, não há como ter certeza de que há um universo paralelo coexistindo com o nosso. Mesmo assim, essa descoberta não deve ser ignorada. Estudos mais aprofundados talvez possam esclarecer essa questão.

Vacina da Pfizer contra novo coronavírus será testada em milhares de pessoas

Vacina experimental da Pfizer terá testagem abrangente com aproximadamente 360 pacientes com sintomas de Covid-19

O CEO da gigante farmacêutica Pfizer, Albert Bourla, afirmou que a empresa pretende expandir os testes da sua vacina experimental contra o novo coronavírus para milhares de pacientes até setembro.
A companhia, que atua ao lado da alemã BioNTech, começou a testagem do composto BNT162 nos primeiros humanos nos Estados Unidos na semana passada. Este teste clínico deverá usar ao menos 360 pacientes.
A Pfizer, atualmente, trabalha em quatro variações de vacina, segundo Bourla, em encontro virtual da emissora CNBC. “Estamos coletando dados neste momento, em tempo real, e monitoramos a segurança das doses.” Os primeiros resultados deverão ser conhecidos em junho ou julho.
Se uma das vacinas indicar sucesso, a empresa vai aumentar os testes, e, em setembro, ampliará o estudo com milhares de pacientes para comprovar a eficácia. “Se tudo der certo, e achamos que o produto é seguro e eficaz, e as agências reguladoras aprovarem, nós deveremos ter milhões de doses já em outubro”, completou.
Ainda não há tratamentos comprovadamente eficazes contra a covid-19, mas cientistas ao redor do mundo correm contra o tempo para produzir uma vacina.

Israel faz testes para tratamento da Covid-19 com remédio de maconha

Israel dá início a testes que visam o tratamento da Covid-19 com remédio a base de maconha

Novas pesquisas estão sendo realizadas no Estado de Israel para o desenvolvimento de um tratamento dos problemas pulmonares causados pela Covid-19 a base da planta da maconha. O CBD, canabinoide com famoso efeito anti-inflamatório, pode ser benéfico às vítimas da doença que se alastra pelo mundo.
É o que pensa o Centro Médico Rabin, instituição responsável pelos testes clínicos, em associação com a empresa Stero Biotech, que produz o canabinoide, e a Clarit, um laboratório importante local. Porém, possível medicina gerada pela pesquisa não será uma cura da patologia viral, apenas um auxiliar no tratamento de seus efeitos.

LÍBANO LIBERA O USO DA MACONHA PARA SALVAR A ECONOMIA DO PAÍS

O governo do Líbano assinou uma lei que autoriza o cultivo de maconha para fins medicinais e industriais, a decisão acontece em um momento de grande crise local.
O objetivo com a medida é salvar a economia libanesa que está em colapso, o país enfrenta uma dívida nacional de mais de US $ 80 bilhões de dólares, R$ 436 bilhões na conversão para o real. Mesmo antes das restrições sociais causadas pela pandemia de coronavírus, em 15 de março, a economia do Líbano já não ia bem.
Com a nova lei — que começa a valer já na semana que vem —, a produção legalizada da substância pode gerar cerca de 1 bilhão de dólares para a economia do Líbano, segundo estudos realizados pela consultoria McKinsey & Co.
Informações divulgadas pelo jornal The Daily Star, afirmaram que a planta já era cultivada de forma ilegal em Beeka, na fronteira com a Síria. O Líbano é um dos cinco maiores produtores mundiais de maconha, com essa medida a expectativa do governo é suprir a demanda ilegal da cannabis voltada para uso medicinal.

Coronavírus no Líbano
Segundo as últimas informações divulgadas pela agência de notícias francesa AFP, na última terça-feira, 22 de abril, o Líbano registra oficialmente 677 casos de infecção por Covid-19, com 21 vítimas fatais.

O objetivo geral dos novos exames é a contenção da inflamação que gera fadiga e até afogamento devido à infecção do vírus na parede interna dos pulmões daqueles que o contraiu, o que pode agir em sintonia com os esteroides atualmente utilizados. Isso impediria o colapso do sistema respiratório, principal causa de mortes dessa pandemia.
“Acreditamos que nosso tratamento baseado no CBD pode melhorar o tratamento atual daqueles pacientes que estão em risco de vida”, afirmou David Bass, fundador e CEO da Stero Biotech, em um comunicado. “Pacientes hospitalizados com COVID-19 estão sendo tratados principalmente com esteroides, e nosso estudo está planejado para demonstrar o benefício de uma solução combinada com tratamentos com esteroides”.

Xiaomi lança touca que promete reverter queda de cabelo em 12 semanas

O invento lançado por pesquisadores chineses e já à venda no mercado é parecido com um boné de beisebol

Uma pesquisa conduzida na China aponta que 1 em cada 6 pessoas sofre com queda de cabelo – no país, mais de 250 milhões de habitantes são afetados por esse problema, tendo grande parte deles entre 20 e 40 anos.
O fenômeno também ocorre em outras regiões, com a geração atual apresentando calvice pelo menos 20 anos antes do que a geração passada, ou seja, uma tendência que, possivelmente deve-se aos hábitos atuais de alimentação, poluição atmosférica, sedentarismo, entre outros.
Por isso, a Xiaomi – que marcou há pouco a data para lançamento da linha Mi 10 na Europa – decidiu lançar em sua plataforma de financiamento coletivo um produto chamado COSBEAUTY LLLT, que trata-se de uma touca especial que promete reverter a queda de cabelo em até 12 semanas.
O produto pesa apenas 210g, traz um design parecido com um boné de beisebol, e está sendo oferecido pelo equivalente a USS$ 221 (~R$ 1.122).
Ele traz 81 feixes de luz a laser que cobrem totalmente a área do couro cabeludo que auxiliam na redução da conversão de diidrotestosterona do hormônio masculino testosterona, apontado por experts médicos como o principal culpado pela queda de cabelo.
A touca protege os cabelos, bloqueando a ligação da diidrotestosterona (DHT) ao receptor de folículos capilares (AR), dessa forma salvaguardando os folículos capilares de serem danificados pela diidrotestosterona.
A Xiaomi alega que existem apenas alguns dispositivos certificados para crescimento capilar, e a COSBEAUTY LLLT não só passou na rigorosa certificação do CFDA como também na do FDA, atendendo totalmente aos requisitos técnicos para dispositivos médicos usados em tratamentos para crescimento capilar.
Um relatório clínico realizado pelo Hospital da Amizade de Pequim constatou que 80,9% dos pacientes com perda de cabelo que experimentaram o produto notaram crescimento significativo do cabelo.
O produto está disponível para compra na plataforma Youpin, para financiamento, e ainda não tem data certa para chegar às lojas, tampouco possui lançamento garantido nos mercados internacionais.

Empresa vende imortalidade congelando corpos e cérebros

A KrioRus diz ter centenas de clientes em potencial, com pessoas de quase 20 países se inscrevendo em seu serviço de pós-morte

Uma empresa russa, chamada KrioRus, armazena cérebros e corpos humanos congelados em nitrogênio líquido, apenas esperando o momento certo para revivê-los. A empresa vê a criogenia como uma possibilidade para, no futuro, a imortalidade (ou pelo menos capacidade de ressuscitação).
Quando Alexei Voronekov perdeu sua mãe, ele pagou para congelar o cérebro dela e armazená-lo, na esperança de que avanços na ciência possam um dia trazê-la de volta à vida. Ela é um dos 71 cérebros e cadáveres humanos (chamados de “pacientes” pela KrioRus) que flutuam em um dos tanques de nitrogênio líquido, com vários metros de altura, situados em um galpão nos arredores de Moscou.
Os corpos são armazenados a 196 °C negativos, com o objetivo de protegê-los contra a deterioração, embora não hajam evidências de que a ciência será capaz de reviver os mortos.
“Fiz isso porque éramos muito próximos e penso que é a única chance de nos encontrarmos no futuro”, explicou Voronenkov, que pretende se submeter ao procedimento de criogenia quando morrer.
O chefe da Comissão de Pseudociência da Academia Russa de Ciências, Evgeny Alexandrov, descreveu a criogenia como um método “exclusivamente comercial que não possui nenhuma base científica”, em comentários feitos ao jornal Izvestia. É “uma especulação fantasiosa sobre as esperanças das pessoas em ressuscitar os mortos e sonhos de vida eterna”, afirmou Alexandrov.
Valeriya Udalova, diretora da KrioRus, congelou seu cachorro quando ele morreu, em 2008. Segundo ela, é provável que a humanidade desenvolva a tecnologia para reviver pessoas mortas no futuro, mas não há nenhuma garantia de que isso funcione no momento.
A KrioRus diz ter centenas de clientes em potencial, com pessoas de quase 20 países se inscrevendo em seu serviço de pós-morte. Congelar apenas o cérebro custa US$ 15 mil, enquanto preservar o corpo inteiro custa US$ 36 mil. Esses valores são apenas para russos; para estrangeiros, os preços são um pouco mais altos.
A empresa diz que é a única a oferecer esse serviço na Rússia e região. Criada em 2005, a KrioRus possui, pelo menos, duas concorrentes nos Estados Unidos, onde a prática existe há mais tempo.
Voronekov disse que depositou suas esperanças na ciência. “Espero que um dia atinjamos um nível em que possamos produzir corpos e órgãos artificiais para criar um corpo no qual o cérebro de minha mãe possa ser integrado”.
Udalova argumenta que aqueles que pagam para preservar os restos mortais de seus parentes estão mostrando o quanto os amam. “Eles tentam ter esperança”, disse ela. “O que podemos fazer por nossos parentes próximos da morte ou por quem amamos? Um bom enterro, um álbum de fotos. Eles vão além, provando seu amor ainda mais”.

Cientistas transformam lixo nuclear em superbateria de diamante

Os cientistas desenvolveram um diamante sintético que é capaz de criar pequenas correntes de eletricidade simplesmente por estar próxima de uma fonte de radiação

Cientistas provavelmente passam mais tempo se perguntando porque as baterias não duram mais do que o que vamos fazer com todo o lixo radioativo produzido por usinas nucleares. Mas um grupo de pesquisadores da Universidade de Bristol acha que pode ajudar a solucionar os dois problemas de uma vez.
Para provar que o material funciona, eles usaram um isótopo instável de níquel – mas eles tem ideias bastante ambiciosas de onde encontrar outros materiais radioativos.
Uma das opções mais atraentes é o enorme estoque de carbono-14 que a Inglaterra, onde fica a Universidade, tem armazenada. Isso porque as plantas de energia nuclear do país usavam blocos de grafite como moderadores de reatores nucleares. O problema é que esse material também se torna reativo, pelo menos na superfície – e a Inglaterra acabou com 95 mil toneladas de grafite que precisa ser monitorado para não contaminar o ambiente.
Os cientistas pretendem incorporar esse mesmo carbono-14 dentro dos diamantes “elétricos”. Assim, reaproveitam lixo nuclear como fonte de radiação e geram energia, enquanto o diamante também funciona como proteção contra vazamento de radiação.
“O carbono-14 foi escolhido como matéria prima porque ele emite radiação de curto alcance. É perigosa se entrar em contato com a pele ou for ingerida, mas se ela foi contida com segurança no diamante, nenhuma radiação escapa”, afirmou Neil Fox, um dos pesquisadores, em um comunicado à imprensa.
A superbateria de diamante tem uma corrente elétrica baixa e uma capacidade menor que uma pilha AA, por exemplo, que é capaz de prover 700 joules por grama, e vem com 20 gramas. O problema é que, 24 horas depois, com uso contínuo, a pilha acaba.
Já o diamante tem energia pelo tempo que durar a radiação dentro dele. No caso do carbono-14, uma grama, segundo os cientistas, consegue prover 15 joules ao dia – todos os dias, rigorosamente, por 5.730 anos, que é a meia vida dele. Quase 6 milênios depois, então, o medidor de bateria mostraria “50%”, dizem os cientistas.
Se a bateria de diamante não pode, atualmente, prover energia para abastecer eletrodomésticos, os cientistas creem que ela pode se tornar uma alternativa para marca-passos, por exemplo, que têm baixo consumo de energia e precisam de baterias duráveis.
A longo prazo, os pesquisadores esperam desenvolver a tecnologia para satélites, drones de grande altitude e até naves espaciais, equipamentos bem mais inconvenientes de carregar do que os nossos smartphones.

Durabilidade
A energia nuclear é livre de carbono, o que a torna uma alternativa atraente e prática aos combustíveis fósseis. Também temos a infraestrutura para ela já instalada. São os resíduos nucleares que tornam a fissão ruim para o meio ambiente.
E dura tanto tempo, alguns isótopos por milhares de anos. O combustível nuclear é composto de urânio-235, colocados dentro de barras de metal. Após a fissão, restam dois isótopos radioativos: césio-137 e estrôncio-90.
Cada um deles tem meia-vida de 30 anos, o que significa que a radiação terá desaparecido pela metade nesse período. Resíduos transurânicos, como o plutônio-239, também são criados no processo. Isso tem meia-vida de 24.000 anos. Esses materiais são altamente radioativos, tornando-os extremamente perigosos de manusear, mesmo com exposição a curto prazo.
A usina nuclear padrão cria cerca de 2.300 toneladas de resíduos anualmente. Atualmente, 99 reatores estão empregados nos Estados Unidos. Isso é muito desperdício por ano. Atualmente, os EUA estão estocando 75.000 toneladas de resíduos nucleares.
É cuidadosamente armazenado e mantido. No entanto, como qualquer outra coisa, é vulnerável a desastres naturais, erros humanos e até terrorismo. O armazenamento também é caro.
Então, o que pode ser feito? Pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, têm uma solução. O geoquímico Tom Scott e seus colegas inventaram um método para encapsular os resíduos nucleares nos diamantes, os quais, como bateria, podem fornecer um suprimento de energia limpa que dura, em alguns casos, milhares de anos.

Como funciona uma usina nuclear?
Scott disse que não havia emissões, peças móveis, manutenção e nenhuma preocupação com segurança. A radiação é bloqueada com segurança dentro da pedra preciosa. Enquanto isso, gera um fluxo pequeno e constante de eletricidade. O níquel-63, um isótopo instável, foi usado neste primeiro experimento. Criou uma bateria com meia-vida de um século.
Existem outras substâncias que durariam dez vezes mais, ajudando a reduzir nosso estoque de resíduos nucleares. Reatores nucleares mais antigos, em serviço entre as décadas de 1950 e 1970, usavam blocos de grafite para resfriar as hastes de urânio.
Mas, após anos de serviço, esses blocos ficam cobertos por uma camada de carbono-14, um isótopo radioativo com meia-vida de 5.730 anos. Depois que uma usina é desativada, esses blocos também devem ser armazenados.
Ao aquecer os blocos, os cientistas podem transformar o carbono-14 em um gás, que seria coletado e comprimido em um diamante – já que os diamantes são apenas outra forma de carbono.
Cada pedra preciosa emite radiação de curto alcance, que é facilmente contida por praticamente qualquer material sólido. Como o diamante é a substância mais forte da Terra, ele pode ser armazenado com segurança no interior. Os pesquisadores cobriram seu trabalho em uma palestra na universidade intitulada “Ideias para mudar o mundo”.
As baterias de diamante emitem apenas uma pequena quantidade de corrente. Eles não podem substituir os contemporâneos ainda. Scott disse à Digital Trends: “Uma bateria alcalina AA pesa cerca de 20 gramas, tem uma taxa de armazenamento de densidade de energia de 700 Joules/grama e [consome] essa energia se for operada continuamente por cerca de 24 horas”.
Enquanto isso, “uma bateria beta de diamante contendo 1 grama de C14 fornecerá 15 Joules por dia e continuará a produzir esse nível de produção por 5.730 anos – portanto, sua capacidade total de armazenamento de energia é de 2,7 TeraJ”. Outro obstáculo é o custo.
Uma vez superados esses obstáculos, as possíveis aplicações incluem alimentar espaçonaves, satélites, drones voando por mais tempo e dispositivos médicos como marca-passos qualquer coisa em que as baterias sejam difíceis ou impossíveis de carregar ou trocar.
Uma especulação tentadora: alimentada por esses cristais, as sondas interestelares poderiam operar mesmo nos trechos mais escuros do espaço, onde a energia solar não é mais viável. Os aplicativos são abundantes. Tanto que Scott e seus colegas estão pedindo ao público outros usos possíveis.

Projeto mapeará genoma de 15 mil brasileiros

Além de desvendar as características do DNA dos brasileiros, o projeto também tem o objetivo de montar um banco público com dados genéticos da população brasileira

O projeto DNA do Brasil, liderado por uma cientista brasileira, vai identificar as principais características genéticas dos brasileiros para que seja possível prevenir e tratar doenças, além de mapear os ancestrais da população. A inciativa, lançada recentemente, será o primeiro projeto de sequenciamento de DNA em larga escala no país e vai inserir o Brasil no mapa mundial dos estudos genômicos.
“Nosso projeto quer fazer um panorama geral da população brasileira como um todo, com um número grande de brasileiros para que a gente possa fazer pesquisas mais aprofundadas tanto sobre a saúde, a genética da nossa saúde, quanto também sobre a nossa origem, de como a gente se formou a partir desses grupos populacionais originais” disse a professora Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), que lidera o projeto, sobre os dois eixos do estudo genômico. Até o momento, menos de 0,5% das pesquisas realizadas no mundo contemplaram a população brasileira.
No que diz respeito à saúde, Lygia explicou que o sequenciamento do DNA dos brasileiros vai possibilitar “entender quais são as variações genéticas que estão associadas ao nosso risco de desenvolver doenças comuns. O grande desafio da genética do século XXI é entender a genética da predisposição para doenças como diabetes, doença cardiovascular, Alzheimer, asma, depressão, que são doenças comuns. A gente não conhece bem a genética dessas doenças porque é complexa, ela é o resultado de centenas de alterações genéticas, mais o meio ambiente”, explicou Lygia.
Por meio do projeto, será possível identificar genes associados a doenças e genes associados a características morfológicas – que se referem à forma do organismo. Além da detecção da doença, a interpretação dos testes genéticos vai permitir, segundo a pesquisadora, identificar a predisposição às doenças, respostas a medicamentos e levar ao desenvolvimento de novas terapias.
Além de desvendar as características do DNA dos brasileiros, o projeto também tem o objetivo de montar um banco público com dados genéticos da população brasileira que ficará disponível para pesquisadores de todo o mundo que tenham interesse em estudos da genética da população do Brasil. “Esse banco de dados vai poder ser explorado e garimpado para a gente fazer muita descoberta, tanto do ponto de vista de saúde, como de evolução e até histórico”, disse.
O projeto pretende mapear o genoma de 15 mil pessoas, com idades entre 35 e 74 anos, que já integram a amostra do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa), a maior pesquisa epidemiológica do país, financiada pelo Ministério da Saúde e Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. O Elsa abrange moradores dos estados da Bahia, de Minas Gerais, do Espírito Santo, Rio de Janeiro, de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
Essas 15 mil pessoas têm sido acompanhadas clinicamente desde 2008 e agora as informações genéticas serão agregadas a esse banco de dados, conforme elas forem assinando o termo de consentimento para participação desse novo projeto. O sigilo delas está garantido, segundo Lygia.
“Existe uma série de mecanismos para gente poder trabalhar com esses dados, mas de forma absolutamente anônima. A gente precisa ter segurança sobre a privacidade das pessoas e ao mesmo tempo poder usar esses dados para poder fazer descobertas, descobertas que vão impactar a saúde do brasileiro”, disse ela.
Para o professor Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP e que está à frente do Elsa em São Paulo, “o projeto permitiu destacar as doenças cardiovasculares e diabetes na agenda da pesquisa epidemiológica no país. E, esse novo passo a ser dado com o DNA do Brasil nos permitirá contribuir ainda mais para a saúde da população”.
Os recursos para sequenciar o genoma completo dos primeiros três mil brasileiros – que correspondem à primeira etapa do projeto – foram garantidos pela empresa Dasa. A reportagem visitou o Centro de Diagnósticos em Genômica da empresa, na capital paulista, onde serão feitos os sequenciamentos.
“Atualmente a gente consegue fazer o processamento de cerca de 40 genomas completos a cada dois ou três dias, é uma alta capacidade que vai permitir que a gente sequencie as primeiras três mil amostras em seis meses e depois completar todas as 15 mil em até dois anos”, disse Gustavo Campana, diretor-médico da Dasa.
Campana explicou que, com a evolução da tecnologia, houve uma queda no custo de sequenciamento de um genoma completo. “Por exemplo, no projeto Genoma Humano [na década de 1990], um único genoma demorou 13 anos e custou mais de R$ 3 bilhões. Hoje nós conseguimos sequenciar um genoma em torno de 36 a 48 horas por cerca de US$ 1 mil”.
Para o sequenciamento dos 12 mil genomas restante, há uma proposta em andamento que depende da captação de recursos pelo projeto. O diretor da Dasa contou que, apesar de os valores das negociações serem confidenciais, a empresa tem uma proposta para realizar o restante do sequenciamento em valor abaixo do que havia sido proposto por outros laboratórios. Uma das propostas chegou a orçar em US$ 650 dólares cada genoma completo sequenciado.
Além da Dasa, outras empresas privadas estão envolvidas para realização do projeto: a Illumina, que vai fornecer os insumos para o sequenciamento; e a Google Cloud, que vai processar os dados de sequenciamento em sua nuvem, permitindo análises e cruzamento de dados em escala.
Após a conclusão dos primeiros 3 mil genomas, no prazo previsto de seis meses, o banco de dados já estará disponível para uso pelos pesquisadores. “A gente vai saber exatamente aquela população que tem alto risco de diabetes, por exemplo, ou alto risco de enfartar, então você pode fazer terapêuticas mais precoces e faz prevenção e até alteração de hábitos de vida. Então na vida de um indivíduo, no futuro, isso vai ter um impacto muito grande para deixar as pessoas mais saudáveis e não desenvolver as doenças crônicas”, finalizou Campana.

Pesquisadores conseguem combater sintomas do Alzheimer com canabinoide

Os testes com composta extraído da Cannabis foram repetidos com o intervalo de uma hora e de um dia, para avaliar memória de curto e longo prazo

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) conseguiu combater os sintomas do Alzheimer usando um composto canabinoide. Os testes apresentaram bons resultados em ratos em que houve a simulação dos estágios iniciais da doença. Os resultados forma publicados na revista científica Neurotoxicity Research.
Para os experimentos foi usado o composto sintético ACEA (Araquidonil-2′-cloroetilamida) em animais em que receberam no cérebro a droga estreptozotocina (STZ), que provoca uma deficiência no metabolismo dos neurônios. Em seguida, foram aplicados teste da memória nos ratos, com o reconhecimento de objetos.
São colocados objetos novos no ambiente onde estavam os animais. Os ratos que não estavam sob o efeito da droga exploraram mais os locais com as novidades, enquanto aqueles com Alzheimer mantiveram o mesmo interesse por todo o ambiente. Os testes foram repetidos com o intervalo de uma hora e de um dia, para avaliar memória de curto e longo prazo.

Resultados
A partir daí, os ratos passaram a ser tratados com o ACEA, uma forma sintética de um dos compostos extraídos da maconha. Ele se liga ao receptor CB1, presente especialmente no hipocampo, parte do cérebro relacionada à memória e que é afetada pelo Alzheimer.
Segundo a coordenadora do estudo, professora Andréa Torrão, os resultados da administração do canabinoide foram “bem positivos”. De acordo com a pesquisadora, foi verificada uma “reversão do déficit cognitivo”. Segundo ela, isso significa que o composto foi capaz de impedir a progressão da doença que foi simulada em uma fase inicial.
Andréa disse que o ACEA tem sido usado por diversos grupos de pesquisa no mundo, porém, ainda existem aspectos não investigados, que a equipe do Instituto de Ciências Biomédicas tentou avaliar. “Ele foi bem descrito bem mais recentemente. Mas tinha muitas outras perguntas, lacunas, que a gente queria entender”, enfatizou.
Apesar dos bons resultados, as pesquisas com o canabinoide no instituto foram paralisadas. “Os complexos canabinoides estão muito caros para a gente importar com os cortes de verbas que tem sido feito nos últimos anos”, ressaltou a pesquisadora. Por isso, o grupo tem usado outras substâncias que agem em outros aspectos do Alzheimer.

Estudo aponta que neurônios periféricos são ligados ao autismo

(foto: Michael Halassa, M.D., Ph.D., NYU Langone Medical Center/Divulgacão)
Por Vilhena Soares

O autismo ainda não é bem compreendido pela ciência. Por isso, muitos pesquisadores têm se dedicado a decifrar os mecanismos desse transtorno, em busca, principalmente, de novas terapias. Um estudo conduzido por norte-americanos traz avanços nesse sentido. Em experimentos com ratos, os cientistas observaram que, quando presentes em neurônios somatossensoriais periféricos, localizados fora da medula, mutações relacionadas ao autismo geram comportamentos característicos do transtorno. Ao eliminar as falhas genéticas nas cobaias, esses sintomas desapareceram. As descobertas deram ao grupo o grande prêmio The 2019 Eppendorf & Science Prize for Neurobiology, conferido pela revista americana Science.
Como a genética e os comportamentos relacionados ao autismo são muito variados e complexos, encontrar um vínculo consistente entre todos esses componentes é um desafio. Até o momento, a grande variedade de sintomas tem sido atribuída à atividade neuronal disfuncional. Mas, segundo os cientistas, essa visão é incompleta. Avaliando a reatividade excessiva ao toque, a equipe partiu da informação de que os primeiros passos na percepção do toque ocorrem nos neurônios somatossensoriais periféricos, que recebem informações de todo o corpo. Dessa forma, a equipe começou a explorar a função neurossensorial desses elementos.
Para isso, provocou, em neurônios somatossensoriais periféricos de camundongos, três mutações relacionadas ao autismo — Mecp2, Gabrb3 e Shank3. Surgiram, então, sintomas do transtorno nas cobaias, como prejuízos sociais e comportamentos semelhantes à ansiedade. “Inicialmente, ficamos bastante surpresos ao descobrir que a disfunção dos neurônios sensoriais periféricos contribui para comportamentos relacionados ao autismo”, destaca, em comunicado, Lauren Orefice, pesquisadora da Universidade de Harvard e uma das autoras do estudo.
Após retirar as mutações com intervenções genéticas, os cientistas detectaram que os sintomas sumiram. “A importância dos neurônios periféricos para o processamento do toque é algo interessante, mas o comportamento geral dos ratos com as mutações condicionais foi algo mais notável, junto com as alterações vistas na ausência das mutações”, complementa Lauren Orefice.
Segundo a pesquisadora, não existe uma explicação que esclareça completamente a relação dos neurônios relacionados ao toque com o autismo, mas ela ressalta que muitas pequisas indicam que os estímulos sensoriais orientam o desenvolvimento e o comportamento do cérebro. Portanto, melhorar a função dos neurônios periféricos para reduzir a sensibilidade ao toque também pode ajudar a aliviar outros sintomas relacionados ao transtorno. “Esse trabalho abre as portas para possíveis intervenções médicas que atinjam o sistema periférico e provoquem melhoras mais significativas em relação aos sintomas do autismo”, reforça.

Ação seletiva
A possibilidade de desenvolvimento de uma nova abordagem terapêutica deixou os pesquisadores ainda mais entusiasmados porque a abordagem testada por eles não ultrapassa a barreira hematoencefálica. Dessa foram, há um risco reduzido de desencadeamento de efeitos colaterais comuns a medicamentos que atuam no cérebro. “Estou realmente empolgada com nossas descobertas e com as direções que meu laboratório está explorando agora”, comemora Lauren Orefice.
Segundo a cientista, para se chegar a uma nova classe de compostos capazes de atuar seletivamente nos neurônios somatossensoriais periféricos, é preciso definir qual perfil de paciente será beneficiado. “Precisamos determinar quais pessoas com autismo apresentam reatividade excessiva aos estímulos ao toque leve e, portanto, quem se beneficiaria com esse tipo de tratamento”, explica. Os pesquisadores pretendem dar continuidade ao estudo e investigar a atividade dos neurônios somatossensoriais em outras áreas do corpo, como o trato gastrointestinal, além de avaliar como esses fenômenos podem influenciar o autismo.
Thaís Augusta Martins, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), acredita que a pesquisa traz dados que estão em concordância com observações clínicas. “A questão da sensibilidade ao toque é algo que já sabemos em relação ao autismo. É de se imaginar que ela poderia estar relacionada a esse distúrbio, sendo assim um bom foco de análise escolhido pelos cientistas”, avalia.
A médica também acredita que os dados podem contribuir para novos tratamentos. “Essas informações são importantes, pois mudam o alvo do tratamento. Novos remédios poderão ser direcionados a essa área periférica e, quem sabe, render resultados positivos ligados à diminuição dos sintomas do autismo”, diz.
Para a neurologista, muito ainda precisa ser estudado até que novas drogas cheguem aos consultórios. “Esse é mais um passo da ciência para entender essa doença, e que pode render mais descobertas. É um tema complicado e que pode ter outros fatores com funções importantes, como a microbiota. Por isso, é necessário se aprofundar”, afirma Thaís Augusta Martins.

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