ECOLOGIA

A Amazônia e a procura pelo desenvolvimento sustentável

Quais os caminhos para garantir qualidade de vida e manutenção da biodiversidade na maior floresta tropical do planeta? A busca por resposta já atravessa quase cinco décadas. Nesta reportagem, especialistas apontam caminhos
DIVERGENTES — A defesa pelo “desenvolvimento sustentável” na Amazônia contraria interesses de preservacionistas e desenvolvimentistas
Por Rita Soares

Queimadas e desmatamentos ilegais em larga escala chamaram a atenção para a Amazônia brasileira, mas espera-se que, passada a fase aguda da crise, os olhos do Brasil continuem voltados para esta região que, somada à parte que se estende por outros países, responde por 50% da biodiversidade do Planeta.
E sempre que se fala em Amazônia, costuma haver um empate entre dois grupos mais extremistas : de um lado os preservacionistas, do outro os desenvolvimentistas. No centro estão os que defendem e trabalham pelo chamado “Desenvolvimento Sustentável”.
Você deve ter ouvido falar e muito sobre ele, não é mesmo? Mas, afinal, o que caracteriza esse tipo de desenvolvimento? A definição vem das Nações Unidas e foi sendo burilada ao longo de quase cinco décadas (desde 1972, quando houve a primeira conferência ambiental).
Hoje, a definição encontrada em todos os artigos, livros, sites e documentos oficiais é que o desenvolvimento sustentável é o “capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender às necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro”
O marco do debate entre as maiores nações do mundo sobre o tema se deu em 1972, no que ficou conhecido como “Conferência de Estocolmo” (Suécia).
Foi quando os alertas de que os recursos naturais da terra eram finitos e que o uso nos níveis que vinham se dando até aquele momento poderiam levar, rapidamente, ao esgotamento, comprometendo o futuro das próximas gerações.
Vinte anos depois, os líderes mundiais voltaram a se reunir para falar sobre Desenvolvimento Sustentável. Desta vez, a sede do encontro foi a Cidade Maravilhosa no que ficou conhecido como “Rio 92”.
Dez anos depois, em 2002, ocorreu em Joanesburgo, na África do Sul, a Rio+10. Em setembro de 2015, na sede da ONU, em Nova York, foi realizada a Cúpula do Desenvolvimento Sustentável. O próximo encontro já está marcado para 2030, mas todos os países já têm tarefas a serem cumpridas até lá.
Engana-se, contudo, quem imagina que desenvolvimento sustentável diz respeito apenas à preservação dos oceanos e combate ao desmatamento ilegal. A pauta inclui, lógico, a preocupação com as mudanças climáticas, mas também o combate à fome e a luta pela igualdade de gênero.
Para ver a pauta completa clique aqui: Cartilha de Perguntas e Respostas dos ODSQuer entender direitinho como a Amazônia poderia ser um lugar melhor se aplicados aqui os preceitos do Desenvolvimento Sustentável? Então, dá um play e veja os caminhos apontados pelos especialistas.

—  Economia Verde  — 

*O Vídeo foi produzido pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) 

The Economist denuncia ‘velório’ da Amazônia e faz duras críticas a Bolsonaro

ACUSAÇÕES GRAVES — A revista ressalta que o mundo não deve tolerar o que chamou de “vandalismo” de Bolsonaro

Uma das principais publicações sobre economia, mercado e política do mundo, a edição desta semana da revista britânica The Economist denuncia o desmatamento da Amazônia.
O velório para a Amazônia: a ameaça do desmatamento descontrolado, diz a capa do veículo, que afirma que a maior floresta do mundo está bem próxima de um “ponto de inflexão”, do qual já não haveria mais tempo de retornar. “O Brasil tem o poder de salvar a maior floresta tropical da Terra — ou destruí-la”, diz o editorial, que faz duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro.
“Bolsonaro está acelerando o processo, em nome, ele afirma, do desenvolvimento. O colapso ecológico que suas políticas podem precipitar seria sentido com mais intensidade nas fronteiras de seu país, que circunda 80% da bacia — mas iria muito além delas. Precisa ser evitado”, alerta o texto.
Ainda de acordo com o editorial, o presidente “deixou claro que os infratores não têm nada a temer” e, “como 70% a 80% da extração madeireira na Amazônia é ilegal, a destruição aumentou para níveis recordes. “Desde que ele assumiu, em janeiro, “as árvores estão desaparecendo a uma taxa de mais de duas ilhas de Manhattan por semana”, acusa a publicação.
Sem rodeios, a revista ressalta que o mundo não deve tolerar o que chamou de “vandalismo” de Bolsonaro, e sugere ações concretas, como boicote aos produtos exportados pelo Brasil.
“Empresas de alimentos, pressionadas pelos consumidores, devem rejeitar a soja e a carne produzidas em terras amazônicas exploradas ilegalmente. Os parceiros comerciais do Brasil devem fazer acordos contingentes de seu bom comportamento. O acordo alcançado em junho pela União Europeia e pelo Mercosul, do qual o Brasil é o maior membro, já inclui dispositivos para proteger a floresta tropical. Aplicá-los é esmagadoramente do interesse das partes. O mesmo vale para a China, que está preocupada com o aquecimento global e precisa da agricultura brasileira para alimentar sua pecuária”, destaca o editorial.
Em reportagem de extensa reportagem, intitulada À beira, a The Economist denuncia que a floresta amazônica está bem perto de ser irremediavelmente destruída, e como isso seria desastroso para o mundo inteiro.

Castanheiros atuam como guardiões da floresta amazônica no Amapá

CENÁRIOS E VIDAS DESLUMBRANTES
1- Fluxo brando do Igarapé Amazonas avoluma-se com as águas do inverno. Rio Jari, paralelo ao rio Iratapuru. 2 – O Jari divide dois estados – Pará e Amapá (Monte Dourado e Laranjal do Jari), e deságua no rio Amazonas. 3 – Para Seu Antônio é importante reconhecer os sinais e sons vindos da mata, bem como respeitar os limites e seres que fazem parte desse território. 4 – Na comunidade São Francisco do Iratapuru, grupos familiares se preparam para viajar aos castanhais, ajustando motores das canoas menores, socializando e fazendo as últimas organizações na casa que passará meses vazia. 5 – A naturalidade com que os castanheiros lançam os ouriços juntados em seu paneiro em uma área de quebrador é resultado de um aprendizado iniciado ainda na primeira infância. 6 – O casal Francisco, o Tica-pau, e Josielma trabalham juntos realizando a calafetação da canoa(Fotos: Maurício de Paiva e Leandro Salles)
Por Débora Pinto

A vila de São Francisco do Iratapuru, ao redor da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do rio Iratapuru, no sul do estado do Amapá, tem a sua rotina completamente alterada todos os anos entre os meses de março e julho. Nesse período, a maior parte dos aproximadamente 300 habitantes que compõem as 68 famílias do local lançam-se ao chamado ciclo de coleta e extração da castanha-do-brasil. Ao embarcarem em canoas e batelões (embarcações maiores, voltadas ao transporte de pessoas, mantimentos, equipamentos e também das sacas de castanha no final da safra) rio acima, rumo às regiões de castanhais, iniciam a movimentação de uma complexa engrenagem.
Ponto reconhecido como inerente ao trabalho: manter a floresta em pé, utilizando de forma consciente e responsável os seus recursos ? O que envolve observar
movimentações suspeitas que apontem para a presença de caçadores ou de outras formas de ação predatória na reserva, como o garimpo e o corte ilegal de madeira. De geração em geração são transmitidas as técnicas e saberes necessários para a coleta nos castanhais e, também, o senso de afeto e respeito como modo de interação com a mata.
A RDS do rio Iratapuru conta com 806.184 hectares e foi instaurada em dezembro de 1997 com a criação da Lei Estadual nº 0392. Resultou de mobilizações que envolveram as populações locais, esforços do governo estadual em criar mecanismos sólidos de proteção para extensas áreas de vegetação (o Amapá é o estado com a maior cobertura vegetal do país), e é parte de um processo de luta ambientalista que ganhara força aproximadamente uma década antes, com o movimento liderado por Chico Mendes. Considerada um corredor de biodiversidade por interligar o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque ? O maior parque nacional brasileiro ? à Reserva Extrativista do rio Cajari, a RDS do rio Iratapuru tem a alcunha de altíssima importância no Corredor da Biodiversidade do Amapá, que compreende mais de 10 milhões de hectares de floresta. A reserva possui como limites a Terra Indígena Waiãpi, ao norte, o rio Jari a oeste e parte da Estação Ecológica do Jari, ao sul.

“Esta já foi uma área de grande visibilidade, o secretário chegava a vir despachar do escritório da SEMA (Secretaria do Meio Ambiente) daqui. Hoje a situação é diferente: precisamos estar o tempo todo em busca de recursos, temos dificuldades estruturais e de apoio para o monitoramento da reserva”, explica Francisco Brito, responsável pelo escritório da SEMA em Laranjal do Jari. O município é a principal referência comercial e institucional para os moradores que vivem nas cinco vilas dos arredores da RDS. Empiricamente, na ausência de guarda-parques, são eles que fazem a observação de alterações na área. Também, através de denúncias, permitem que sejam acionadas outras instâncias de proteção, como a polícia ambiental.
O Brasil é o segundo maior produtor de castanha-do-brasil, representando 31% da produção mundial, com uma safra anual média de 35 mil toneladas, segundo dados do IBGE. As quebras de safra costumam causar grande desorganização na cadeia, que conta com escassa regulação. Uma dessas quedas bruscas, há 15 anos, possibilitou que a Bolívia assumisse o posto de maior produtora mundial. “Em 2017 tivemos outra quebra muito intensa por conta das mudanças climáticas, principalmente por causa do fenômeno ‘La niña’”, explica o castanheiro Jonas Lima do Nascimento, de 42 anos. A escassez do produto em torno de 50% elevou os preços a níveis históricos. E, embora a produção tenha se regularizado no ano seguinte, os mercados ainda não se recuperaram, uma vez que os valores elevados afastaram consumidores ? E a castanha não é considerada um item essencial.
Segundo os dados oficiais, Amazonas, Acre e Pará representam 93% da produção brasileira ? O Amapá fica na sexta posição, atrás ainda de Mato Grosso e Rondônia, com produção aproximada de 473 mil toneladas em 2018. Os números, porém, são contestados pelos estudiosos no tema – os estados onde existem indústrias e maior formalização, essas informações são coletadas de forma mais precisa, o que não ocorreria no Amapá, onde a cadeia ainda possui a forte marca da informalidade.

EXTRAINDO A SOBREVIVÊNCIA DO SAL DA TERRA
As mulheres castanheiras são pró-ativas dentro da Reserva. Segundo afirmam os castanheiros, elas vão em um número cada vez maior aos castanhais.
O fator da transmissão cultural é central para os castanheiros do Iratapuru. Faz parte das aprendizagens do castanheiro iniciante aprender a realizar a lavagem e o saque da produção. Outro aprendizado é realizar o transporte de até cem quilos de castanha-do-brasil em paneiros para as beiras dos igarapés.
Dentre os saberes envolvidos na prática da coleta da castanha está a retirada do chamado umbigo, pequena parte que fica no centro do fruto e não é consumível, além da verificação de possíveis castanhas tomadas por fungos. Esse primeiro processo de qualificação do produto acontece manualmente e de forma delicada, ouriço por ouriço.
Com água de rio, café e milharina como merenda, o dia passa. A atividade da quebra do ouriço da castanha é realizada muitas vezes coletivamente – dinâmica que pode variar de grupo para grupo. Nos chamados quebradores, o ritmo das batidas entoa histórias, risos, conversas e silêncios meditativos em constante contato com a mata. (Fotos: Maurício de Paiva)

Dias antes das partidas dos grupos na subida do rio Iratapuru, na vila de São Francisco, é possível sentir a agitação, a constância do tema castanheiro nas conversas, costuradas por falas de temor em relação às muitas cachoeiras do percurso ? Na verdade, grande parte das corredeiras podem tornar-se de difícil transposição para as embarcações devido ao nível baixo das águas e à presença de pedras. A travessia até os castanhais pode levar de dois a cinco dias (ou mais, dependendo das condições de navegação) com paradas em barracos para pernoite. O trajeto ocorre em meio ao chamado inverno amazônico. O período, que vai de dezembro a maio, é marcado por temperaturas mais amenas e a maior incidência de chuvas. Sem o decorrente aumento no nível das águas, seria impossível transitar com canoas e batelões sobretudo na área de igarapés denominada Amazonas, onde estão localizadas a maioria das colocações, áreas utilizadas para extração castanheira da região.
As datas de subida obedecem ainda a outra ordem natural: é entre os meses de fevereiro e março que as castanheiras terminam de lançar ao solo praticamente todos os seus frutos. Aguardar o momento certo de estar na mata é necessário para evitar acidentes, uma vez que a queda de um ouriço de castanha pode atingir pessoas em solo e gerar sérios ferimentos. Um ouriço de uma castanheira de até 60 metros de altura chega a pesar, em média, dois quilos.
O senso de compreensão das variações naturais é habilidade primordial para quem passará até três meses em barracos construídos em beiras de rios e igarapés, trabalhando diariamente na floresta. “É necessário muito respeito para entrar na mata. E muita atenção também. Não é uma coisa que dê para fazer assim, sem conhecimento”, explica Josué dos Santos, o seu Antônio, de 57 anos. Há mais de trinta, ao casar-se com uma moradora da vila, ele aprendeu com os antigos da região a trabalhar com a castanha e escolheu deixar para trás suas atividades no garimpo.
Embora tenha estado ausente por alguns anos após divorciar-se, é um respeitado líder e com dois filhos, uma filha, neto, genro e pelo menos mais dois castanheiros, prepara-se para iniciar mais um ano de coleta em suas duas colocações.
Enquanto os últimos ouriços de castanha-do-brasil caem na mata, seu Antônio e seus parceiros de jornada adquirem principalmente em Laranjal do Jari os mantimentos necessários para a viagem: itens de alimentação como arroz, óleo, manteiga, alho, cebola, sal, açúcar, além de combustível para as embarcações e munição para as espingardas de caça, permitida para consumo próprio dentro da RDS durante o período do trabalho extrativista. Essa organização requer a reunião familiar e comunitária, a decisão tomada muitas vezes conjuntamente sobre quem irá participar da empreitada e como todo esse processo será financiado.

MOMENTOS DE BRAVURA
É subindo o rio, contra o fluxo, que se inicia todos os anos o percurso de São Francisco do Iratapuru rumo às áreas de castanhais. A viagem realizada em canoas e batelões dura no mínimo dois dias, com paradas para descanso em barracões e momentos de bravura logística que incluem a presença de cabos para que se vençam corredeiras com nível de água baixo.
Na imagem de baixo, equipe sobe o rio Iratapuru. (Fotos: Maurício de Paiva)

No caso dos moradores da vila de São Francisco do Iratapuru, um agente central é a Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru (COMARU). Criada em 1997 para buscar alternativas de beneficiamento e valorização da castanha, com o fomento do governo estadual, conseguiu superar problemas de gestão e fabricar biscoitos que chegaram a ser vendidos para compor a merenda escolar em todo o Amapá. Mudanças nas políticas públicas e um incêndio que destruiu a fábrica em 2003 trouxeram a necessidade de busca por novas possibilidades de organização e beneficiamento. Em 2004, a empresa de cosméticos Natura iniciou conversações e, após testes que comprovaram a eficácia do uso do óleo de castanha em seus produtos, articulou-se junto à cooperativa a realização do beneficiamento na própria comunidade. É na fábrica que grande parte dos castanheiros e suas famílias trabalham fora do período da safra. A comunidade também conta com um fundo formado por 0,5% da receita líquida das vendas dos produtos da linha Ekos.
Os associados recebem da cooperativa adiantamento financeiro de acordo com os contratos que fecham, onde se comprometem a vender uma quantidade pré-estipulada de castanha para beneficiamento. “Com esse processo, foi sendo amadurecida uma certa estabilidade, já que o castanheiro pode prever quanto ganhará por essa produção ao final da safra”, explica Aldemir Maisa, presidente da COMARU.
Parte considerável do produto, porém, vai para as mãos dos chamados atravessadores, compradores independentes para os quais é possível vender qualquer quantia de castanha-do-brasil sem a necessidade de contratos prévios. Em alguns casos, atravessadores também oferecem financiamento na forma de adiantamento para a logística e os mantimentos necessários para a estadia na mata, a partir do compromisso de venda de parte da produção.
Lidar com a multiplicidade de negociações e agentes é, portanto, outro saber importante para os castanheiros. Para Magda Ribeiro, antropóloga e professora da UFMG que estuda as práticas econômicas e culturais da vila de São Francisco, a capacidade de criar alianças é uma potência utilizada como resistência por essa população. “Existe uma habilidade de converter as negociações a favor, de buscar o que é possível dentro de relações que são de trabalho, de confiança e, também, de afeto”, explica a pesquisadora, que realizou sua tese de doutorado sobre o tema.

Trabalho e transmissão
“Eu aprendi a coletar castanha desde muito pequeno mesmo. Com 9, 10 anos eu já usava um paneiro pequeno, já ajudava e aprendia”, explica Leandro Nascimento Pessoa, de 33 anos, atualmente responsável pela colocação que já pertenceu a seu pai. Com a esposa ele organiza o trabalho de pelo menos outros quatro grupos de castanheiros, famílias que também montam seus barracos ao lado do seu na beira do igarapé. Entre 15 e 20 pessoas saem diariamente no período da safra nas terras que Leandro administra para fazer a coleta e extração, em alguns momentos com ele mesmo indicando os caminhos a seguir. “O bom é quando as pessoas passam a vir todos os anos porque assim elas já criaram mais familiaridade com a área”, explica o castanheiro, que também vai para a mata fazer a coleta. As diárias de trabalho são pagas de acordo com a quantidade de sacas de castanha-do-brasil extraídas da mata.
Quando chegam na parte da floresta reservada para o trabalho ? Percurso feito em alguns casos a pé mas, na maioria das vezes, por canoas motorizadas ? Os castanheiros seguem piques, abertos geralmente por um membro do grupo. Esses caminhos demarcam também os limites entre as colocações. Seguindo essas trilhas, chega-se aos quebradores, locais próximos a zonas de castanhais onde os extrativistas fazem a quebra do ouriço. Deixam ali parte de seus pertences e seguem então mata adentro com seus paneiros (cestos trançados) amarrado ao corpo. Caminhando por entre as árvores, localizam visualmente os ouriços e, utilizando cambitos (cabos com uma da extremidades cortada em quatro e aberta de modo a servir de encaixe) os levam do solo ao paneiro. Reúnem então os ouriços nos quebradores, onde são abertos com o uso de machados, apoiados em pedras encontradas na própria mata. É realizada a cuidadosa retirada das sementes, deixando de lado as de mal aspecto e o chamado umbigo, semente não apropriada para consumo.
O produto ainda é transportado de paneiro para a beira do rio ou igarapé ? Carga que pode chegar aos cem quilos ?, onde são utilizadas peneiras para lavagem. Uma outra quantidade de castanhas ? As que flutuam por estarem mal formadas e muito leves ? é descartada. As castanhas restantes são colocadas em sacas, fechadas por costuras feitas com agulhas e cipó titica. Todo esse processo requer considerável força física, intimidade com a mata e a reunião de saberes e técnicas bastante específicos. Esse modo de trabalho é ensinado de pai para filho e essa transmissão é considerada um valor cultural. “Eu quero que meus filhos tenham a oportunidade de estudar para contarem com mais escolha do que eu pude de ter. Mas também acho importante que eles aprendam esse ofício e, se escolherem trabalhar como castanheiros, tenham condições de pensar em melhorias”, explica Leandro. E enfatiza: “para mim a floresta é um lugar de receber conhecimento. Eu quero que eles recebam esse conhecimento também”. Em 2019, pela primeira vez, graças a uma mudança realizada no calendário das férias escolares, os jovens da vila poderão subir aos castanhais, fator comemorado pelos castanheiros.
Para Marcelino Guedes Carneiro, professor e orientador nos programas em Biodiversidade Tropical e Ciências Ambientais, na Universidade Federal do Amapá e pesquisador da Embrapa com ênfase em manejo e ecologia florestal para uso sustentável da biodiversidade amazônica, para que essa continuidade se fortaleça é necessário que a economia da floresta se consolide. “Esse imaginário da floresta intocada e completamente harmônica dificulta a compreensão de que na verdade trata-se de um espaço dinâmico, onde inclusive ocorrem trocas e transações entre diferentes populações desde as épocas pré cabralinas”, explica o professor. Assim, segundo considera, a presença humana na mata, vivendo de seus recursos, é parte integrante e causa da biodiversidade.
Especificamente as áreas de castanhais guardam resquícios de presença humana há pelo menos 2 mil anos. Segundo estudos comandados pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, é frequente a existência de castanheiras em sítios arqueológicos e sabe-se que apenas cotias (roedores que abrem o ouriço e enterram sementes de castanha) e seres humanos realizam a dispersão da espécie ? Que, para se desenvolver, necessita ainda ser plantada em local com ampla incidência de sol. A hipótese já amplamente aceita é que a distribuição atual das castanheiras, de dimensão quase continental na Amazônia, seja resultado de práticas de manejo de populações indígenas do passado.

FOCO NO TRABALHO — Castanheiro migrante do Maranhão se prepara desde a manhã no seu barraco no mato. (Foto: Maurício de Paiva)

No mundo contemporâneo, a ação humana na floresta ganha outros contornos. “Essa interação é central para o funcionamento das Unidades de Conservação, reservas onde esse uso é permitido e regulado, caso das RDS. E também para a Amazônia como um todo, já que efetivamente ajuda a barrar o desmatamento e outras formas de degradação”, explica Lúcia Wadt, pesquisadora da Embrapa com ênfase no manejo de produtos não madeireiros na região amazônica. “O extrativismo associado à castanha-do-brasil facilita a geração de renda, fator fundamental para que a atividade continue sendo praticada. Trata-se do principal produto não madeireiro da Amazônia: não é perecível, tem valor diferenciado em comparação a outros e pode ser vendido em qualquer quantidade, movimentando uma considerável cadeia”, completa Wadt.
O castanheiro Jonas, que trabalha sozinho em uma área de castanhal e montou seu barraco próximo ao da família de seu Antônio, aponta ainda algumas melhorias de manejo apreendidas após o processo de tentativa de certificação realizado pela Organização não-governamental Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) na região. A ONG é ligada à USP de Piracicaba. “Nós aprendemos a ter mais consciência em relação ao período correto de estar na mata, de como manter a área ao redor dos barracos limpa ou evitar o acúmulo de lixo e de resíduos a serem deixados na mata”, explica. Segundo Patrícia Cota Gomes, gerente de projetos da Imaflora, as delicadezas da região e das relações nela estabelecidas são muitas, o que pode tornar mais lentos certas adequações para certificações oficiais. Indica, porém, um grande potencial. “A castanha coletada no Iratapuru pode passar a fazer parte de redes mais transparentes e o produto alcançar consumidores interessados na responsabilidade ambiental dos produtores desde a origem”, indica.

Convívio antigo
Em de novembro de 2006, um decreto federal proibiu a exploração da castanha-do-brasil para fins madeireiros em florestas naturais, primitivas ou regeneradas. Em 2012, a lei número 12.651 indicou que apenas as árvores provenientes de cultivo de reflorestamento, previamente cadastrado no órgão ambiental competente, são passíveis de corte para fins madeireiro, como construção civil e naval, e sua exploração deve ser previamente declarada para o controle de origem. Em dezembro de 2014, a árvore castanheira (Bertholletia excels) passou a figurar na Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção, na categoria vulnerável.
“Em um momento como este, em que se espalha a ideia do desmatamento em prol do desenvolvimento econômico, é necessário esclarecer que existem possibilidades que também geram recursos financeiros de forma potente, mas mantendo, por exemplo, as castanheiras de pé. Trata-se de compreender que é possível estabelecer dinâmicas com baixo grau de distúrbio, como já é do funcionamento real da natureza”, reforça Marcelino Cordeiro Guedes. Para a professora Lúcia Wadt, a cadeia da castanha-do-brasil poderia ser favorecida com mais transparência e menos elos entre o trabalhador extrativista e o consumidor final. Ainda segundo a pesquisadora, mesmo os números oficiais do IBGE em relação à produção de castanha são extremamente frágeis por pouco conseguirem captar a complexa microeconomia que movimenta.
No olhar dos castanheiros do rio Iratapuru, a maior dificuldade da atividade é a descida dos batelões com as sacas de castanha, rio abaixo. Uma logística complexa, que envolve descarregar e carregar novamente a produção várias vezes, transportando-a para embarcações mais leves, para evitar naufrágios. Ao fim do trajeto, o reencontro com os familiares que ficaram e momentos para contar mais algumas das histórias vividas em meses de convívio na mata. Fecha-se um ciclo que movimenta ciclos maiores, em uma cadeia que resulta em ensinamentos sobre as forças de resistência presentes na manutenção do modo de vida de uma população tradicional que assume as complexidades de se estabelecer em colaboração com a floresta.

Estatal ignora etnia em extinção para aprovar hidrelétrica na Amazônia

BEIÇOS-DE-PAU — Povo indígena tapuyuna vem sendo dizimado ao longo dos últimos cem anos e agora o governo federal tenta licenciar as obras da usina Castanheira, no rio Arinos. Pode ser o fim de uma raça
Por Caio de Freitas Paes

No Centro Norte de Mato Grosso, o rio Arinos é responsável por alimentar aldeias inteiras, em especial durante os períodos de seca. Hoje, uma hidrelétrica proposta pelo governo federal coloca todo esse cenário em risco. Para se ter uma ideia, a barragem da usina Castanheira bloqueará um dos principais pontos de pesca e reprodução de peixes no rio. Entre àqueles que dependem do Arinos para sobreviver estão parte dos últimos 160 tapayunas do país.
Também conhecidos como “Beiços-de-Pau”, os tapayuna foram praticamente dizimados no século passado, além de terem sido envenenados e contaminados com o vírus da gripe durante missões de colonização e pacificação. Não há um número consolidado da população em um passado recente, mas, nos anos 1970, o indigenista Américo Peret calculou algo em torno de 1,2 mil indígenas.
Eles estão espalhados em aldeias nas terras indígenas Wawi e Capoto Jarina, no Parque Nacional do Xingu, norte do Mato Grosso, e hoje reivindicam seu território original na cidade de Diamantino, a 500 quilômetros do parque. Há ainda indivíduos isolados dessas aldeias, vivendo nos territórios Apiaká/Kayabi, Erikpatsa e Japuíra, pouco acima do local onde ficavam suas terras originais. Todos esses povos podem sofrer um novo e duro golpe do homem branco caso o projeto Castanheira seja concretizado, pois haverá a inundação de territórios essenciais, usados para o acesso aos rios e para ritos tradicionais.
O governo federal tenta licenciar as obras da usina há mais de quatro anos, enfrentando a resistência da Funai, do Ministério Público Estadual, Federal e também de organizações civis que atuam na região. Agora, a nova diretoria da empresa, empossada no início do governo Bolsonaro, já deixou claro que há expectativa que o projeto avance logo.
Castanheira sintetiza a ameaça das hidrelétricas no centro-norte mato-grossense, em que diversos projetos têm avançado sem dar ouvidos às comunidades atingidas nem medir os efeitos cumulativos das usinas sobre a área. Estão previstos um reservatório de 94,7 km², área praticamente equivalente à da capital capixaba, Vitória, e uma barragem que se estenderá por 67 km no rio Arinos, dos mais importantes afluentes do Juruena – a 650 km da capital Cuiabá.
A usina é a maior entre pelo menos 80 projetos energéticos planejados só para a região do Juruena, um dos rios formadores do Tapajós – esse número exclui as hidrelétricas já aprovadas e construídas, segundo dados da própria Agência Nacional de Energia Elétrica.
Projetos hidrelétricos já têm causado enormes danos nesse ponto da floresta amazônica. O caso mais recente foi o desastre da usina Sinop no início de fevereiro de 2019, quando 13 toneladas de peixes foram mortas no rio Teles Pires após uma manobra irregular durante o enchimento de seu reservatório.
A Empresa de Pesquisa Energética, a EPE, responsável pela elaboração do projeto de Castanheiras, defende-se ao dizer que as terras indígenas não estão na zona de impacto direto da usina. A Funai contesta ao apontar que esses territórios ficam num raio de menos de 40 km do local previsto para as obras – o que não obriga as tribos a serem realocadas de onde estão, mas afeta diretamente a alimentação dos indígenas.
Ligada ao Ministério de Minas e Energia, a EPE é responsável por fazer a pesquisa, aprovar e liberar a usina para ser construída pelo governo ou, como neste caso, ofertada via leilão. Além da Funai, os Ministérios Público Estadual e Federal acusam a empresa de ignorar a presença de indivíduos tapayunas isolados em seus relatórios de impacto social e ambiental. Por isso, o MPF desaconselhou a secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso a licenciar Castanheira – por enquanto.

 

Vocês, civilizados, mataram todos’
A história dos tapayunas é marcada por conflitos e centenas de mortes ao longo do século 20. No início, uma iniciativa criada pelo governo para ocupar territórios e estabelecer as fronteiras nacionais, a Comissão Rondon, abriu caminho. Já nos anos 1940, a “Marcha para Oeste” de Getúlio Vargas inundou a área com migrantes brasileiros – gaúchos, na maioria – e estrangeiros. Toda a tensão entre colonos e índios culminou em ao menos duas tragédias em menos de duas décadas.
Na primeira, em 1953, centenas de tapayunas foram envenenados por arsênico misturado ao açúcar que lhes fora oferecido por seringueiros, em um crime bárbaro que só foi noticiado ao país 15 anos depois. Já em meados dos anos 1970, uma gripe vitimou a maior parte daqueles que restavam, durante uma expedição do antigo Serviço de Proteção ao Índio para fortalecer o vínculo com a etnia. O resultado foi devastador, como relatou o sertanista Antônio de Souza, em 1971:
“O índio Tariri [que acompanhou o sertanista na expedição] pôs as duas mãos na cabeça, depois bateu com a mão direita em cima do coração e nesta altura já estava chorando olhando para os ossos todos fuçados pelos porcos da mata, lembrando que no meio daqueles ossos estavam os da moça que ia ser sua esposa e falou: ‘Karái-tán-aiti-n?nvaine K?re, kêtt Kue n’ – ‘vocês, civilizados, mataram todos, tudo acabado’”.
O número de mortos pode ser ainda maior do que o estimado, de acordo com relatos dos índios vivos hoje em dia. “Morreram mais de 2 mil da nossa tribo”, me disse o tapayuna Orengô, um dos 160 índios da etnia. Ele é um dos “isolados” aos olhos da Funai, e vive em uma das terras indígenas que serão impactadas pelo projeto. “A maioria dos que restaram foi levada para o Parque Nacional do Xingu, com a promessa de termos nossas terras devolvidas – o que nunca aconteceu”, completou, ao lembrar da transferência orquestrada pela fundação indigenista em 1970. Desmobilizados, tiveram de se juntar a rivais históricos, como apiakás, kayabis, mundurukus e rikbatsas, para sobreviver.

Juruena, um rio sufocado
Desde 2014, o Ministério Público Federal conduz duas investigações para apurar os impactos sociais e ambientais do projeto. Segundo o órgão, a EPE foi omissa ao minimizar, por exemplo, a existência de outras dezenas de hidrelétricas na região e seus devidos impactos na relação dos povos com o rio. Na avaliação ambiental de Castanheira, a empresa menciona apenas 13 projetos energéticos no rio Arinos, desconsiderando o número muito superior de usinas e pequenas centrais hidrelétricas inventariadas para a região do Juruena. Assim, estimativas de danos se distanciam do que um projeto desse porte realmente pode acarretar.

Hidrelétricas planejadas para o Juruena
A Funai também contesta o relatório da EPE. Segundo análise da fundação, a hidrelétrica vai bloquear a rota de migração das espécies, desregulando o ecossistema do rio e entornos – o Arinos é considerado o melhor para a pesca ali.
O aumento da população nas cidades durante as obras também deixa os indígenas mais vulneráveis aos riscos da exposição a álcool e drogas. “O aumento populacional poderá intensificar o acesso dos povos indígenas ao álcool, às drogas, assim como a propagação de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST’s), que se associa ao aumento contingencial e consequente circulação de pessoas envolvidas com o empreendimento”, detalha uma análise da Coordenação-Geral de Licenciamento Ambiental da Funai sobre a obra, realizada em dezembro de 2017.
“Já vimos o que aconteceu em Belo Monte e no complexo do Teles Pires. Junto com as outras tribos estamos unidos, não queremos essa hidrelétrica aqui”, diz Orengô. “Já sofremos muito com a ação do homem branco, só queremos nossa terra para ficar em paz.”
Ainda não houve ajustes nos relatórios ou em medidas compensatórias, as chamadas “condicionantes”, para lidar com a questão indígena tapayuna no projeto Castanheira. De acordo com a EPE, as contrapartidas não foram ajustadas porque a licença prévia ainda não foi concedida. No entanto, a própria empresa se contradiz uma vez que já havia apresentado sub-programas voltados para outras etnias afetadas pela usina. Além disso, estimar possíveis danos e formas de minimizá-los é prática padrão em obras desse tipo.
Pesquisadores e organizações civis que atuam na região também afirmam que os estudos foram feitos à distância, sem condição de estimar os danos da obra – uma prática recorrente no país. A empresa nega.
A EPE diz que foi notificada sobre a “possível ocorrência” de povos indígenas isolados apenas em 2017. A estatal afirma ter proposto um “subprograma de apoio a estudos de índios isolados” que deverá ser conduzido pela Funai e garante que seu relatório “evidencia a abordagem dos efeitos cumulativos e sinérgicos em escala regional na avaliação dos impactos ambientais” – mas há controvérsias.
“As decisões sobre hidrelétricas em Mato Grosso têm um caráter muito mais político do que técnico”, me disse Ricardo Carvalho, da ONG Operação Amazônia Nativa, que atua na causa indígena na região desde os anos 1960.
A organização é uma das que questiona a viabilidade financeira do projeto. Em uma análise custo-benefício feita em parceria com outras ONGs com base nos dados do próprio projeto, ela aponta que, segundo estimativas conservadoras, haverá prejuízo econômico de pelo menos R$ 239 milhões caso a usina seja construída. Levando em conta também os custos das emissões de gases de efeito estufa, perdas econômicas de áreas produtivas inundadas e diminuição das reservas de peixes na região, o prejuízo causado pela hidrelétrica salta para R$ 419 milhões. O documento serviu de referência para decisões do MPF contra o licenciamento da usina.
No geral, a usina Castanheira tende a agravar um cenário que já é problemático: ali há intenso desmatamento pela presença de madeireiros, pecuaristas e monocultores de soja e milho. Além disso, Mato Grosso é um estado no qual há constante tensão com povos indígenas – provocada por fazendeiros, grileiros e madeireiros. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, em 2017 foram oito conflitos diferentes, envolvendo contaminação por agrotóxicos, desmatamento, incêndios e invasões.

Mineradoras à espreita
No centro-norte de Mato Grosso ainda existem ricas jazidas de minérios estratégicos para processos industriais em larga escala, como cobre e manganês, além de diamante e ouro. São alvos de cobiça tanto de grandes mineradoras quanto de garimpeiros ilegais. Nesse cenário, a usina Castanheira cairá como uma luva para a exploração na área.
A hidrelétrica poderá fornecer energia o bastante para a extração e o beneficiamento de minérios em larga escala, o que ajuda a entender o interesse do governo Bolsonaro em leiloar o projeto e colocá-la em funcionamento o quanto antes.
Não faltam interessados: somente em Juara há mais de 40 requerimentos de pesquisa só para mineração industrial de cobre, manganês e pedras preciosas. Entre os requerentes há grandes empresas, como a filial brasileira da Codelco, mineradora de cobre estatal do Chile, e a gigante Nexa, criada após a fusão entre a Votorantim Metais e a peruana Milpo.
Juara, Novo Horizonte do Norte e região ainda foram pouco exploradas e, por isso, há um lucrativo mercado à espera da infraestrutura necessária para começar a operar.
Com base em dados da Agência Nacional de Mineração, o Intercept descobriu que as pesquisas ativas para extrair diamante e ouro na cidade somam uma área total de 46 mil hectares – equivalente ao dobro do tamanho de Recife.
Pesquisadores também alertam que, caso avance a mineração, novos garimpos ilegais deverão surgir nas redondezas, aumentando a pressão e os conflitos com os grupos indígenas que permanecem na região.
A garimpagem já é preocupante nessa parte da Amazônia. Há pelo menos 34 garimpos ilegais próximos a áreas de proteção ambiental e terras indígenas nos cursos dos rios Juruena e Tapajós, segundo monitoramento da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) em 2018.

2019, uma ‘tempestade perfeita’
Neste momento, o projeto Castanheira está emperrado no estágio de apresentação do estudo ambiental para as comunidades afetadas. Só em 2018, o MP impediu em duas ocasiões a apresentação do relatório às comunidades, devido aos problemas do projeto. Mas os sinais sugerem que o governo federal deve entrar no jogo para fazer o licenciamento avançar.
Questionada pelo Intercept, a estatal confirma o plano de seguir adiante com Castanheira ainda este ano. O presidente da EPE, Thiago Barral, disse que o governo corre contra o tempo para ofertar a hidrelétrica nos próximos leilões de energia, no segundo semestre de 2019. Ele foi escolhido para o cargo com a benção do atual ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.
Para isso, é preciso que Aneel e Funai aprovem os estudos e que sejam feitas audiências públicas para discutir o impacto com as comunidades afetadas – só depois disso que a secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso pode conceder a licença prévia do projeto. Vale lembrar que, na gestão de Bolsonaro, a sub-pasta da Funai responsável por manifestar-se em licenciamentos ambientais como esse foi enxotada para a Secretaria de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, comandada pelo pecuarista Nabhan Garcia.
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já disse que o governo não descarta novas hidrelétricas na Amazônia. Segundo ele, as decisões sobre as propostas serão despojadas de “interferência ideológica”, em mais uma provocação àqueles contrários a grandes obras na floresta.
Isso tudo, claro, em meio a um cenário delicado, no qual o governo diz aos quatro ventos que fará o necessário para autorizar a mineração em terras indígenas. A Amazônia concentra a maior parte de reservas homologadas, é riquíssima em diversos tipos de minérios valiosos e está na mira desde a campanha de Bolsonaro. O presidente que, aliás, quer abrir a porteira para investimentos norte-americanos na maior floresta tropical do mundo.
Caso Castanheira avance, quem dará o aval final será o governo de Mato Grosso, comandado por Mauro Mendes, do DEM. Ele é sócio em uma problemática mineradora de ouro nos arredores da Chapada dos Guimarães, em Cuiabá.

Amazônia está sendo transformada em Cerrado, diz Carlos Nobre

PODE DESAPARECER — Desmatamento na região do Parque Indígena do Xingu, no sul da Amazônia, exemplifica a devastação ambiental em espiral crescente na região

Há fortes suspeitas de que a Amazônia caminha a passos largos para deixar de ser a maior cobertura florestal do mundo e se transformar em bioma semelhante ao do Cerrado brasileiro ou à savana africana – o processo chamado de savanização. Os sinais, que preocupam cientistas, são a morte de espécies de árvores amazônicas e o aumento da duração da estação seca no Sul e no Sudeste da região.
Nos últimos 30 anos, a estação seca está em média seis dias mais longa por década. A mais duradoura passou de meio mês. “Se continuar assim, aquela região acabará virando uma savana bem degradada”, disse o climatologista Carlos Nobre em entrevista publicada esta semana pela revista National Geographic.
Esses impactos já eram previstos em seus estudos pioneiros em 1991, quando lançou a hipótese da savanização. Era uma época em que os desmatamentos na Amazônia brasileira estavam na faixa de 8%, 9% e hoje chegam a 20%.
Mas para o ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro (PSL), Ricardo Salles, o aquecimento global é questão secundária. E o chanceler Ernesto Araújo acredita que os estudos e a política sobre mudanças climáticas são influenciados pelo “marxismo cultural”.
Cientista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Nobre foi um dos autores do relatório sobre o aquecimento global do Painel Intergovernamental em Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), em 2007. E desde maio de 2018 é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP. O objetivo é estabelecer caminhos de desenvolvimento sustentável para o Brasil até 2050.

CLIMA — O climatologista Carlos Nobre vem alertando sobre o aquecimento global

Na entrevista, o cientista, que pesquisa o clima do bioma há 40 anos, destaca que alguns lugares do Cerrado têm o mesmo nível de chuva da região de Santarém, na Amazônia – anualmente, um total de 1.800 milímetros. “Se chove o mesmo volume, por que em um lugar se tem floresta e no outro, cerrado? Na região de Santarém a chuva é bem distribuída o ano todo e a estação seca é muito curta. No Cerrado, a precipitação é muito concentrada na estação chuvosa, e depois essas regiões passam por três, quatro meses de chuva zero, enquanto em Santarém chove 80, 100 milímetros na estação seca. Essa é a grande diferença. Estudos de ecologia começam a mostrar um aumento da mortalidade de algumas espécies de árvores. Então, estamos realmente muito próximos desse ponto de ruptura”, alerta.
A savanização é causada pelo desmatamento, queimadas e o aquecimento global. Os dois primeiros fatores, conforme o cientista, podem ser combatidos pelo governo brasileiro com políticas para zerar o desmatamento e acabar definitivamente com as queimadas e incêndios florestais. O terceiro fator está fora do nosso controle: o aquecimento global. “Mesmo se reduzirmos a zero as emissões do Brasil, ainda dependemos que o resto do mundo faça o mesmo.”
Pelos cálculos de Carlos Nobre e outros cientistas, a savanização vai ocorrer se o aquecimento na Amazônia passar de 4ºC – já chegou a 1,5ºC e o desmatamento passar de 20%. “Seria um caso extremo, no qual as emissões continuariam como estão por 40, 50 anos. Recentemente, escrevemos um alerta na Science Advances de que não deveríamos deixar o desmatamento passar de 20%, 25% na Bacia Amazônica como um todo. Já chegou a 17% na internacional; na parte brasileira, a 20%”, diz.
A estimativa, segundo ele, é que, uma vez ultrapassado o limite do desmatamento, leva-se entre 20 e 50 anos para ocorrer essa substituição. “E a savana virá de forma irreversível, porque será o bioma em equilíbrio para o novo clima. Ao diminuir as chuvas locais, reduzirá também a vazão dos rios.”

Para lembrar

Em entrevista à Revista do Brasil, em 2013, Carlos Nobre deu uma aula sobre a relação entre mudanças climáticas, aquecimento global e modelos econômicos que têm conduzido o mundo ao aumento da desigualdade.
Parte 1 – “O mundo não tem escolha: precisa se impor metas muito mais ambiciosas contra o aquecimento, com o cuidado solidário de não agravar desigualdades entre ricos e pobres”
Parte 2 – “Países desenvolvidos têm de criar fundos e apoiar os em desenvolvimento na mudança de suas matrizes de emissão sem impactar na possibilidade deles de reduzir a pobreza””
Parte 3 – “Indivíduo sustentável vive com o que precisa, nada mais. O modelo das sociedades ricas levou à crise ambiental. E um novo modelo depende do indivíduo. A expectativa dele é que transforma a sociedade”

Fonte: Rede Brasil Atual

Desmatamento: Amazonia perdeu 20% e Cerrado, 50%, desde 1970, aponta relatório do WWF

DEVASTADA — De acordo com recente levantamento, a Amazônia perdeu 50 mil quilômetros quadrados de terra nos últimos sete anos
Reportagem: Edison Veiga

O Fundo Mundial para a Natureza (WWF, da sigla em inglês), ONG de defesa do meio ambiente, acaba de divulgar a versão 2018 do seu relatório Planeta Vivo. E as conclusões não são nada boas, principalmente para o Brasil.
A análise, feita por 50 pesquisadores em todo o mundo com base em pesquisas de 19 organizações, apontou para um desmatamento intenso, que reduziu, de 1970 para cá, 20% da Floresta Amazônica e 50% do Cerrado, biomas bastante representativos do país.
A redução das áreas verdes acaba trazendo uma implicação direta na vida de espécies, aumentando ainda mais a lista daquelas que estão ameaçadas de extinção.
O relatório atual, que traz um cenário desolador, confirma uma curva de desgaste ambiental que vem se acentuando nos últimos anos.
No caso dos botos, a exploração é tida como involuntária: os animais acabam sendo presos em redes de pesca, mesmo não sendo alvo de pesca predatória.
De acordo com a WWF, que monitora, desde 1970, 16.704 populações animais, declínio de populações de vertebrados no período em todo o mundo é de 60% – mamíferos, peixes, aves, répteis e anfíbios. De lá para cá, houve um declínio de 83% das populações de água doce. No caso dos mamíferos, a redução total foi de 22%.
Para efeitos comparativos, entre 1970 e 2010, esse declínio foi de 52%. Ou seja: não estamos conseguindo conter o estrago, quanto menos recuperá-lo. Um dos exemplos mais críticos trazidos pelo relatório é a população de elefantes na Tanzânia, que reduziu em 86% desde os anos 1970.
Para se recuperar sozinha do estrago causado pela humanidade, a natureza precisaria de seis milhões de anos, diz o documento.
Nos trópicos, principalmente nas Américas Central e do Sul, a deterioração do ecossistema é ainda mais grave – com redução de 89% dessas populações.
A região entre os trópicos é onde está a maior parte da vida do planeta, justamente por conta da questão climática. Ao mesmo tempo, é nesta faixa onde estão também as maiores áreas de uso de solo e dos recursos naturais – as áreas cultivadas para a produção de alimentos.
O desmatamento para o uso intenso da terra tem afetado drasticamente os ecossistemas do planeta.
Segundo a WWF, a taxa de extinção das espécies hoje – número que indica o risco de desaparecimento das mesmas – é de 100 a 1.000 vezes maior do que era antes de as atividades humanas começarem a alterar a biologia e a química do planeta.
Isso significa que a Terra vive seu sexto processo de extinção em massa nos últimos 500 milhões de anos. Desta vez, o culpado é uma espécie que habita o planeta – nós, os humanos.
“Preservar a natureza não é apenas proteger os tigres, pandas, baleias e animais que apreciamos. É muito mais: não pode haver um futuro saudável e próspero para os homens em um planeta com o clima desestabilizado, os oceanos sujos, os solos degradados e as matas vazias, um planeta despojado de sua biodiversidade”, declarou o diretor-geral da WWF, Marco Lambertini.

Ambientes brasileiros
Em junho, dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente indicavam que a devastação do Cerrado, a savana brasileira, era 60% a mais do que a perda na Amazônia nos últimos sete anos.
No total, foram 80 mil km² de terras devastadas, contra 50 mil km² da Amazônia.
A região do Cerrado é onde mais se expande o agronegócio brasileiro. Em coletiva de imprensa realizada em junho, o pesquisador Claudio Almeida, responsável por divulgar os dados, ressaltou que na parte mais ao norte do bioma, em especial nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, foi observada a maior incidência do desmatamento nos últimos anos – os Estados respondem por 62% do total perdido.
E é justamente essa região apontada como a nova fronteira do agronegócio brasileiro – dedicada sobretudo à produção de soja, óleo de palma e criação de gado.
Os números são do monitoramento chamado Prodes do Cerrado, feito por satélite pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Quando os dados foram divulgados, o Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia divulgou nota afirmando que a “savana consolida-se como o bioma mais ameaçado do Brasil atualmente”.
O desmatamento ocorrido no Brasil tem afetado, de acordo com o WWF, não só a vida dos animais. Mas também a oferta de água doce – o que ajuda a explicar as recorrentes crises hídricas que têm ocorrido, como a que deixou em risco o abastecimento da região Sudeste nos últimos anos.
Isto porque as regiões mais afetadas, onde estão Cerrado e Amazônia, são justamente as que abrigam os principais mananciais da malha hidrográfica brasileira.
De acordo com as metas da convenção da Organização das Nações Unidas para a biodiversidade, pelo menos 17% dos ecossistemas de cada país precisariam estar em áreas protegidas para a conservação.
O Brasil, país que tem a maior biodiversidade do planeta, está distante desse número. Apenas 8% do cerrado está protegido. No Pantanal, apenas 2% das áreas estão protegidas.

Planeta
O relatório mostra que três quartos do planeta já foi impactado pela ação humana. Há uma projeção que, em 2050, apenas 10% da Terra esteja livre da interferência humana.
O WWF aponta que os seres humanos já ultrapassaram os limites de segurança quanto às mudanças climáticas e níveis de interferência no sistema terrestre. Integridade da biosfera e fluxos biogeoquímicos de fósforo e nitrogênio também já sofreram interferências humanas tidas como irreversíveis – sobretudo por conta do uso de fertilizantes na agricultura e do manejo da pecuária intensiva.
Segundo o texto, isto representa um declínio acentuado da “saúde da planetária”, da “natureza” e da “biodiversidade”. “Prejudicando a saúde o bem-estar das pessoas, espécies, sociedades e economias em todos os lugares”, ressalta.
A organização emitiu um alerta vermelho para a degradação do solo e ressaltou que está perto de fazer o mesmo em relação à acidificação das reservas de água doce e dos oceanos.
Uma possível solução apontada para tentar reduzir esses estragos seria o emprego mais eficiente de tecnologias já disponíveis para a produção de alimentos. Embora tenha havido avanços por conta dos equipamentos e técnicas mais modernas, a WWF acredita que as melhorias cresceram de forma menor do que o potencial de dano.
A pegada ecológica do homem, conclui o relatório, está hoje três vezes mais degradante do que era em 1970.
Um exemplo está no desperdício. Atualmente, cerca de 40% do que é produzido acaba sendo descartado por conta de falhas no processo de produção, transporte e mesmo dentro das residências.
O relatório frisa que é preciso “elevar o nível de alerta” para provocar um amplo e consciente movimento, chamando a atenção “suficiente dos líderes mundiais”.
Segundo a ONG, é preciso uma ação consistente antes de 2020, porque, ao contrário, “uma porta sem precedentes se fechará rapidamente”.
“Somos a primeira geração que tem uma visão clara do valor da natureza e do nosso impacto nela. Poderemos também ser a última capaz de inverter esta tendência”, adverte o relatório.

Praia do Goiabal vira cenário de terra arrasada

PRAIA DO GOIABAL — O abandono pelo governo estadual da única praia do Amapá de água salgada exemplifica a falta de planejamento do atual governo para o setor turístico — (Fotos: Emanoel Reis)

Única praia de água salgada do Amapá, Goiabal, localizada na costa leste do Amapá, jaz no esquecimento. Este é o entendimento dos moradores da pequena vila de pescadores, situada a 14 quilômetros do município de Calçoene, que por sua vez, fica a 460 quilômetros de Macapá. Em Goiabal, a erosão avança implacável, destruindo residências e estabelecimentos comerciais. Os prejuízos são incalculáveis, porque não se resume, somente, a bens móveis, mas, sobretudo, atinge o setor econômico, prejudicando a sobrevivência das poucas famílias que ainda residem na localidade.
Embora apresente grande variedade de atrativos naturais, visitar a praia do Goiabal, mesmo em qualquer época do ano, não é para principiantes, principalmente os que não têm espírito aventureiro. Buraqueira interminável, lama e mato fazem parte da estrada de terra poucas vezes beneficiada com terraplanagem ou algum asfaltamento. Pela trafegabilidade complicada, é fundamental a escolha do veículo para a viagem. Uma boa picape, com tração nas quatro rodas, é recomendável para percorrer quase 40 minutos de solavancos.

Meses atrás, o governo federal (leia-se Ministério do Turismo – MTur) disponibilizou R$ 20 milhões para a promoção do turismo na região, contemplando todos os Estados da Amazônia Legal. Mas, sem um projeto de envergadura para alavancar o turismo a médio e longo prazo no Amapá, o governo Waldez Góes (PDT) recebeu parcela insignificante dessa bolada. As regras para liberação do recurso, que deveria ser usado na divulgação das potencialidades turísticas de cada Estado, foram estabelecidas no Fórum das Secretarias de Comunicação da Amazônia Legal, em conjunto com as Secretarias de Turismo dos Estados.
Mas, desprovida do mínimo necessário para transformar-se em atração turística, a praia do Goiabal é tratada com desleixo pela Secretaria de Estado do Turismo do Amapá. Conforme informações repassadas por assessores do titular da Pasta, advogado Vicente Cruz, “(…) existe projeto em andamento para recuperação de toda a extensão da praia”, contudo, não informaram, nem por estimativa, o prazo de quando essas obras seriam iniciadas.

“A Amazônia já está sob controle internacional”, denuncia general

INCANSÁVEL – A cruzada do general Augusto Heleno contra a lenta e gradual ocupação internacional da Amazônia por potências estrangeiras trouxe à tona problemas graves como o tráfico de animais e a biopirataria
Reportagem: Emanoel Reis

Logo ao assumir o posto de comandante militar da Amazônia, o general Heleno se declarou surpreso com a quantidade de organizações não-governamentais (ONGs) que trabalhavam com os índios. “Ficava difícil entender por que pouquíssimas ONGs dedicavam-se a socorrer a população nordestina enquanto centenas delas trabalhavam junto às populações indígenas”, recorda hoje.
Conforme o general, a cobiça internacional pela Amazônia não se manifesta por ações explícitas de força. “Ela age de forma sub-reptícia, pouco transparente e dissimulada. Por isso, a Amazônia já está sob domínio estrangeiro.” Contudo, Heleno Pereira acredita que a Amazônia brasileira “(…) é nossa de fato” porque o poder público passou a ser mais presente na região. “Não identifico um estado de calamidade ou de grave perturbação da ordem. Vejo, sim, uma região fantástica, riquíssima, rarefeita em população. Desejo que as ações governamentais caminhem na direção do desenvolvimento sustentável, da ocupação e da presença racional e efetiva, e da correta exploração dos recursos naturais. Por muito tempo nós, militares, fomos presença solitária em várias regiões da selva brasileira. Precisamos que os demais organismos estatais e privados se juntem a nós para integrar e desenvolver a Amazônia, sem prejuízos ao meio ambiente, mas sem abrir mão de usar o que é nosso”.
Embora demonstre convicção nesse pensamento, na época em que Augusto Heleno Pereira pontificou na Amazônia, teve todos os motivos para ficar alarmado sobre a atuação das ONGs. Os números eram alarmantes: cerca de 100 mil entidades (nacionais e estrangeiras) atuavam na região, pelas contas militares. Desse total, 29 mil ONGs captavam recursos federais, e só em 2007 amealharam R$ 3 bilhões. Entre 1999 e 2006, R$ 33 bilhões teriam sido repassados por órgãos públicos para essas entidades. Além do dinheiro do governo brasileiro, as ONGs recebiam ainda bilhões e bilhões de euros, dólares, libras e outras moedas fortes – é impossível contabilizar quanto. Pior ainda: existiam ONGs patrocinadas por verbas vindas de órgãos de inteligência de países desenvolvidos como EUA, Inglaterra, França, Japão e agora China. E o pior de tudo: não havia – e não há – controle sobre o uso desse dinheiro.

Ambientalista renomado alerta sobre a avidez internacional

Presidente da Sociedade de Preservação aos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia (Sopren), fundada em 1968, o médico Camillo Vianna (ex-vice-reitor da Universidade Federal do Pará) conquistou credibilidade internacional ao posicionar-se intransigente porta-voz amazônico. No entendimento do ecologista, a Amazônia sempre foi a região mais cobiçada por sua riqueza e biodiversidade. “Boa parte dos outros países, já esgotou ou está esgotando seus recursos naturais e depende hoje de importação das principais matérias-primas que consome. Essa realidade demonstra quão predatória é a economia dos EUA e o quanto é cínica a sua ‘defesa da ecologia e do meio ambiente’, fachada que usam para tentar se apropriar dos sete milhões e 160 mil quilômetros quadrados de reservas de água, madeiras, petróleo, minerais valiosos, flora e fauna”.
Vianna sempre lembrou que em nenhum lugar do mundo os americanos combateram o tráfico, pelo contrário, o estimularam e brigaram para mantê-lo sob seu controle. Salienta, ainda, que George Bush, pai de George W. Bush, ex-diretor da CIA e ex-presidente, esteve no centro do escândalo conhecido como Irã-Contras. Recorda que a CIA entupiu os bairros negros dos EUA com crack, e o dinheiro desse narcotráfico foi usado para financiar os crimes da máfia nicaraguense contra o governo sandinista. Na Indochina eles fomentaram o tráfico de entorpecentes e as quadrilhas que se enriqueceram com sua venda. Na Iugoslávia cevaram o ELK, grupo de assassinos e narcotraficantes, para agredir a população de Kosovo e viabilizar sua política de desmembrar o único país na região que defendia sua soberania. Na Rússia, alimentaram com dinheiro do FMI, e até do seu Tesouro Federal, a máfia das drogas e o narco-separatismo da Chechênia. No seu próprio território, desde 1988, não se conhece nenhuma prisão pela Lei de Tráfico e Controle de Químicos, dado mais do que sugestivo porque na Colômbia mais de 70% dos materiais químicos usados para a transformação da folha de coca em droga vem dos EUA.
“O mais grave, é que a questão da soberania nacional sobre a região amazônica já não é mais suficiente para inibir a exposição das pretensões mundiais. Sem o menor constrangimento discutem o futuro da Amazônia, como se já estivesse internacionalizada, como a Antártida. Assim, justificariam uma intervenção político-militar na região, com o objetivo de defender a floresta tropical, combater o narcotráfico ou de proteger as nações indígenas. O governo brasileiro insiste em ignorar a cobiça internacional explícita sobre ela, limitando-se a olhar quase que exclusivamente para o Sudeste e Sul”, assevera o ambientalista Camilo Vianna.

General Durval Nery: “Já perdemos a Amazônia!”

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