ECONOMIA

RICAÇOS

Bilionários brasileiros ficaram ainda mais ricos durante crise da covid-19

Com o governo Bolsonaro aliado ideologicame42 bilionários vivem cada vez melhor e se tornaram ainda mais abastados, ao aumentaram as fortunas em US$ 34 bilhões
Pesquisa revela aumento das fortunas pessoais de homens e mulheres brasileiras durante a pandemia do novo coronavírus
Por Vera Batista

Pesquisa da ONG Oxfam aponta que, no Brasil, enquanto milhões de cidadãos lutam em busca do auxílio emergencial, 42 bilionários vivem cada vez melhor e se tornaram ainda mais abastados, ao aumentaram as fortunas em US$ 34 bilhões, mesmo durante a crise sanitária pelo novo coronavírus.

Entre março e junho, no país, a alta nas riquezas foi de 70% maior que em toda a América Latina e Caribe, no período, onde 73 pessoas elevaram-na em US$ 48,2 bilhões (R$ 252 bilhões) — o valor, destaca a Oxfam, é equivalente a um terço do total de recursos previstos em pacotes de estímulos econômicos por todos os países da região. Ao todo, apenas esses privilegiados brasileiros acumularam, em moeda nacional, R$ 177 bilhões.
E as desigualdades podem crescer ainda mais, pelos impactos econômicos da crise sanitária. Os dados estão no relatório “Quem Paga a Conta? – Taxar a Riqueza para Enfrentar a Crise da Covid na América Latina e Caribe”, com base na lista das pessoas mais ricas da Forbes publicada este ano e no ranking de bilionários em tempo real, também da Forbes.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre março e maio, 7,8 milhões de pessoas perderam o emprego no Brasil, e 522,7 mil micro e pequenas empresas fecharam as portas na primeira quinzena de junho.
Com a crise da covid-19, a ONG estima que a América Latina e o Caribe devem registrar perdas significativas de receita tributária para 2020. A queda no Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país) pode chegar a 2%, ou US$ 113 milhões a menos na arrecadação, o que equivale a 59% do investimento público em saúde em toda a região.

Clique na imagem

Taxar as grandes fortunas
Nesse contexto, a Oxfam apontou algumas sugestões para o projeto de reforma tributária do governo, que começou a ser discutida no Congresso Nacional este mês. Entre as propostas, o relatório destaca o imposto sobre grandes fortunas.
“É impensável abordar a recuperação econômica diante dessa crise sem romper com o tabu da sub-tributação da riqueza”, aponta a Oxfam, ao frisar que o Fundo Monetário Internacional (FMI) incluiu essa medida nas recomendações para responder à crise.
A ONG também propõe taxar ganhos extras das corporações, já que alguns setores, como o farmacêutico, grandes cadeias de distribuição e logística, telecomunicações ou a economia digitalizada vivem períodos de alto rendimento, aponta o relatório.

Essa sobretaxa extraordinária, e temporária, deveria ser aplicada sobre a parcela dos lucros durante a crise. Outra sugestão é a criação de um imposto digital para plataformas de streaming e de vendas online, que aumentaram os lucros com o isolamento social.
“No entanto, as grandes plataformas digitais vivem em uma total anomalia fiscal. Quando o sistema fiscal internacional foi desenhado, há quase cem anos, ninguém podia antecipar a evolução desses modelos empresariais de corporações digitais, às quais os vazios do sistema fiscal internacional nessa matéria permitiram operar sem tributar praticamente nada nos países onde geram suas receitas”, aponta o levantamento.


DINHEIRO SEM FIM

Fortuna de bilionários brasileiros cresceu 27% na pandemia

Mesmo durante a crise econômica causada pela pandemia de Covid-19, os 73 bilionárias da América Latina e do Caribe ficaram ainda mais ricos. Um estudo mostrou que os que têm patrimônio acima de US$ 1 bilhão na região aumentaram suas fortunas em 17%, o equivalente a US$ 48,2 bilhões.
Só no Brasil, os 42 bilionários aumentaram suas fortunas em US$ 34 bilhões e agora têm, juntos, um patrimônio de US$ 157,1 bilhões. O aumento foi de 27% no período.
O relatório Quem Paga a Conta? – Taxar a Riqueza para Enfrentar a Crise da Covid na América Latina e Caribe leva em consideração dados de março a junho deste ano. Os cálculos foram feitos com base em números da Forbes, que publica a lista anual de bilionários e tem um ranking que acompanha as fortunas em tempo real.
O montante ganho pelos bilionários da América Latina e Caribe no período equivale a um terço do total de recursos previstos em pacotes de estímulos econômicos adotados por todos os países da região.
“Ser extremamente rico na região significa estar praticamente imune a esta crise econômica”, diz o relatório. No documento, a diretora executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia, diz que “enquanto a maioria da população se arrisca a ser contaminada para não perder emprego ou para comprar o alimento da sua família no dia seguinte, os bilionários não têm com o que se preocupar”.
Conforme mostra a organização, desde o início das medidas de distanciamento social para combater a disseminação da covid-19, oito novos bilionários surgiram na região, ou seja, um a cada duas semanas. Enquanto isso, a estimativa é que 40 milhões de pessoas devem perder seus empregos e 52 milhões vão entrar na faixa de pobreza na América Latina e Caribe em 2020.

Reforma tributária
Segundo a organização, no Brasil, a discussão da reforma tributária não tem levado em conta a necessidade de reestruturar o sistema para que haja a redução das desigualdades e para torná-lo mais progressivo.
Os debates, em andamento no Congresso Nacional, têm tratado da simplificação da tributação sobre o consumo, o que, segundo a Oxfam, não resolve as distorções do sistema no qual quem ganha menos paga proporcionalmente mais imposto do que quem ganha muito. “Ninguém parece ter a intenção de tocar nos privilégios dos mais ricos, que nunca pagaram uma parte justa de impostos. É como se a maioria da população não tivesse o direito a uma vida digna”.
Com o desenho atual de impostos sobre patrimônio nos países da América Latina e Caribe, a região arrecadria um total máximo de US$ 281 bilhões dos bilionárias da região. Uma estimativa conservadora, segundo a Oxfam, mostra que se fosse aplicado um imposto extraordinário sobre as grandes fortunas, com caráter progressivo, entre 2% e 3,5% em cada país, sobre os patrimônios acima de US$ milhão, seria possível arrecadar até US$ 14,26 bilhões, cinquenta vezes mais.
Para a Oxfam, a recuperação dos impactos da Covid-19 implica uma reconstrução social e econômica do país. A ONG defende uma reforma tributária “justa e solidária, que enfrente as distorções e privilégios existentes no sistema tributário nacional e que tenha como uma de suas prioridades a redução das desigualdades”.


Analistas veem Brasil ainda mais isolado em caso de derrota de Trump

O presidente Jair Bolsonaro fez live com mensagem de apoio à reeleição do presidente dos EUA Donald Trump

Enquanto a imagem do Brasil se deteriora diante do aumento acelerado do desmatamento na Amazônia, o país corre o risco de ficar ainda mais isolado com o avanço do democrata Joe Biden nas pesquisas para a corrida presidencial dos Estados Unidos contra o republicano Donald Trump, que busca a reeleição.
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio, uma vitória de Biden exigirá mudanças na condução da atual política externa que, aliás, ainda não tem uma estratégia clara. Outro ponto que forçará alterações do governo Bolsonaro é na questão ambiental.

A preservação entrou na pauta das prioridades de governos europeus e da sociedade internacional, e o Brasil já corre risco de retaliação na conclusão do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Maior conscientização da necessidade de produtos que não agridem o meio ambiente está mudando os padrões de consumo e de investidores pelo mundo. “As certificações socioambientais das empresas podem ter impacto maior do que retaliações entre governos. Entes privados e consumidores internacionais geram uma espécie de sanção branca que poderá fazer com que os produtos brasileiros não acessem determinados mercados estratégicos”, alerta o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper.
Fundos de investimentos e empresas já se mobilizaram e exigiram uma atitude mais responsável do governo brasileiro no campo socioambiental. Em carta aberta à sociedade, ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central defenderam uma agenda ambiental e providências para zerar o desmatamento. O vice-presidente Hamilton Mourão vem conversando com todos, e o governo publicou um decreto proibindo queimadas por 120 dias.

Especialistas projetam vitória acachapante de democrata

Mas o sinal de alerta está ligado. Enquanto Trump abandonou o Acordo de Paris, que traça meta de redução das emissões de carbono, ameaça deixar a Organização Mundial da Saúde (OMS) e tenta maquiar os números da pandemia de covid-19, Biden sinaliza o contrário e ganha força na campanha em estados-chaves, lembram os analistas.
Recentemente, o democrata anunciou um plano de investimentos ambicioso de US$ 2 trilhões em quatro anos, com propostas de combate às mudanças climáticas, que incluem ampliar o uso de energia limpa nos setores de transporte, de eletricidade e de construção civil. Em pesquisa recente divulgada por NBC News e The Wall Street Journal, Biden está com 51% das intenções de voto, enquanto Trump, 40%.

Para o cientista político norte-americano David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), está praticamente certa a vitória do democrata, porque a rejeição ao republicano cresce enquanto ele conduz mal o enfrentamento da pandemia. “Bolsonaro e integrantes do governo estão preocupados com o avanço de Biden e já estudam o que fazer. E, caso o democrata vença, o presidente vai ter de trocar os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores)”, destaca.
Christopher Garman, diretor para as Américas do Eurasia Group, é mais cauteloso em apostar em uma vitória de Biden. “O sistema eleitoral dos EUA é bastante complexo e ainda não dá para cravar a derrota de Trump, quando ele ainda tem 40% das pretensões de voto”, pondera o cientista político norte-americano. Contudo, ele reconhece que o Brasil já está pagando o custo reputacional por negligenciar as questões sustentáveis. “A pauta ambiental está ganhando corpo na Europa devido às pressões da opinião pública e, com Biden mais comprometido com essa agenda, a tendência é de o Brasil ficar na defensiva daqui para a frente”, avalia.

Investidores estrangeiros questionam a devastação ambiental

“O Brasil já está isolado do mundo nesse movimento crescente de preocupação ambiental, porque esse tema passou a pesar nas avaliações das empresas, mexe com o preço das ações, e empresas europeias e norte-americanas já estão fazendo”, frisa a economista e especialista em relações internacionais Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Ela destaca que, após as críticas, o governo tenta sinalizar mudanças, mas, ainda, não há garantias. “Meio ambiente é um fator que está pesando na competitividade das empresas, e acionistas estão mais preocupados com a questão da responsabilidade socioambiental. É um ativo importante, porque as mudanças climáticas mexem com o ecossistema mundial, e o peso disso está muito claro. Não à toa, está havendo reações de investidores, empresários e ex-ministros em relação ao aumento das queimadas no país.”

Na opinião do ex-embaixador e ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente Rubens Ricupero, o cenário de vitória de Biden “parece bem realista, até provável”, mas, tudo pode acontecer nesses quatro meses. Ele foi um dos 17 ex-ministros que assinaram a carta aberta à sociedade defendendo uma agenda mais responsável do ponto de vista socioambiental.
“O problema não é o Brasil ficar isolado, mas o governo Bolsonaro. Isso se dá porque, em vez de manter a linha de uma política externa que reflete os interesses nacionais permanentes do país, o atual governo abraçou um tipo de diplomacia na qual o critério definidor é a afinidade ideológica entre governos, não os interesses permanentes dos países”, destaca Ricupero. Segundo ele, a dificuldade de Bolsonaro será maior com o Partido Democrata caso Biden vença.
O ex-ministro recorda a carta recente do Congresso opondo-se a qualquer acordo comercial com o Brasil. “Mais recentemente, uma deputada propôs emenda à lei sobre ajuda externa, proibindo, especificamente, qualquer cooperação militar com nosso país. Como se vê, antes mesmo de uma eventual vitória democrata, os problemas concretos já começaram. Não se trata, portanto, de uma hipótese futura, mas de uma realidade presente”, afirma Ricupero.

Sem representação econômica expressiva para Washington

Dias atrás, em transmissão nas redes sociais, Bolsonaro disse que torce pela reeleição de Trump e disse que, em caso de derrota do republicano, tentará aprofundar as relações comerciais com os americanos.
De acordo com o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa, é importante esse tipo de sinalização, porque a diplomacia institucional entre os governos deve prevalecer acima de preferências ideológicas. “A relação pessoal não tem nada a ver com a as relações institucionais entre dois países. Os EUA tomaram uma série de medidas restritivas em relação ao Brasil, apesar do bom relacionamento entre Trump e Bolsonaro”, ressalta.
Barbosa lembra que, apesar de os EUA serem um dos maiores parceiros comerciais brasileiros, o Brasil não está entre as prioridades de Washington, porque “não tem representação econômica expressiva”.
Vale lembrar que Biden tem histórico de ser um bom apaziguador com o Brasil. Durante a crise de espionagem da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2013, o então vice de Barack Obama foi escalado para resolver o problema e aparar as arestas entre os dois países.


TORNE-SE ASSINANTE DESTE SITE

Faça uma assinatura anual por apenas R$ 9,99 e torne-se mantenedor universal deste site.
É simples: preencha e envie o cadastro abaixo, em seguida, deposite em nome de
Emanoel Reis, Banco do Brasil, Conta 97045-X – Agência 2825-8 , o valor correspondente
à sua assinatura (R$ 9,99). Envie para o e-mail pautamcp@gmail.com cópia digitalizada do
comprovante de seu pagamento. Concluída esta operação, você receberá em seu e-mail
as SENHAS exclusivas para acessar todas as reportagens especiais publicadas neste site.
Participe desta grande corrente de apoio à Imprensa Livre.
Assine o Amazônia Via Amapá.

FORMULÁRIO