OPINIÃO

EDITORIAL

Estímulo à economia

É notória a necessidade de se estimular as atividades econômicas no País, afetadas pela pandemia da Covid-19. O setor produtivo sofreu impacto imediato com a chegada da doença ao território nacional, precisando ainda enfrentar uma série de incertezas, como a imprevisibilidade do fim da emergência sanitária; o socorro da administração pública e das políticas de Estado; e mesmo a resposta dos consumidores.
Esforço recente para fazer mais frutífera a retomada das atividades, em diversas partes do País, é ação nacional prevista para a primeira quinzena de setembro. O Governo Federal anunciou a segunda edição da Semana do Brasil, evento inspirado na Black Friday norte-americana, com oferta de descontos em variados segmentos do comércio. O slogan da campanha deste ano é “Todos juntos com segurança pela retomada e o emprego”. A iniciativa ainda foi pensada para ser a primeira data comemorativa do varejo após a reabertura do comércio, que sofre restrições desde março por causa da pandemia do novo coronavírus. A previsão é que dias de ofertas especiais se estendam de 3 e 13 do próximo mês.
O objetivo do Governo Federal é incentivar as vendas de pequenas, médias e grandes empresas. Se bem-sucedida, também pode estimular o hábito de consumo, que se retraiu durante os meses de mais cerrado isolamento social. A campanha ocorre, portanto, em um contexto desafiante em mais de um sentido.
Por ora, a Semana Brasil conta com a adesão de 83 associações do comércio varejista e deve unir o setor para celebrar a retomada econômica. A promessa é reunir ao menos 3 mil lojas de todo o País e oferecer descontos de até 70%. A ideia é aquecer as vendas de setembro, que tradicionalmente são mais fracas em relação aos demais meses do segundo semestre.

No Brasil, o comércio emprega cerca de 10 milhões de pessoas. É uma das principais atividades do Amapá. A reboque, o sucesso da empreitada pode estimular outros setores, que fornecem produtos a lojas de todo gênero.
No Estado, é esperado que a temporada de compras se beneficie do auxílio emergencial de R$ 600 e dos recursos advindos da primeira parcela do décimo terceiro salário do Governo do Estado e da Prefeitura Municipal de Macapá. A injeção dessas fontes terá um papel preponderante na atividade econômica amapaense nos próximos meses.
A campanha foi criada originalmente pela Secretaria de Comunicação do Governo Federal, no ano passado, e em 2020 vai ser coordenada pelo Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV). Conforme a Ebit/Nielsen, que acompanha a evolução do varejo eletrônico e é referência em inteligência competitiva para o e-commerce, o aumento nas transações on-line durante o evento de 2019 foi de 41% se comparado com igual período de 2018. A expectativa para este ano é que os resultados, mesmo com a pandemia, sejam melhores.
Não se tem dúvidas da necessidade de ações do gênero. É preciso criar mecanismos para estimular a economia, ajudar a abrir vagas de trabalho e despertar confiança no mercado para o retorno sustentável da economia. Tudo isso, não se deve esquecer, deve se dar com atenção aos protocolos sanitários que o momento exige.

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QUADRANTE

LULA, O DEVEDOR
O nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consta na lista de dívidas ativas da Receita Federal. De acordo com os dados da PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional), o petista deve R$ 1.154.170,32 à União. A PGFN não detalha e nem dá especificações sobre a origem da dívida do ex-presidente. Em nota enviada ao UOL, a assessoria de imprensa do Instituto Lula afirmou: “É uma cobrança injusta referente ao Instituto Lula, e estamos recorrendo dessa decisão da Receita”.
Lula foi condenado duas vezes em processos da Operação Lava Jato. O ex-presidente permaneceu mais de um ano e meio preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Lula foi solto após o STF (Supremo Tribunal Federal) decidir que um condenado só pode ser preso após o trânsito em julgado (o fim dos recursos). O ex-presidente alega ser inocente e recorre dos dois processos para tentar reverter as condenações.

Fundo emergencial à cultura
O Ministério do Turismo anunciou os valores que serão repassados aos estados, Distrito Federal e municípios para apoiar ações emergenciais ao setor cultural e seus trabalhadores durante a pandemia da covid-19. A região Norte receberá o valor de R$ 327.265.525 distribuídos da seguinte maneira: Acre (R$ 23.106.331), Amazonas (R$ 66.649.294), Amapá (R$ 22.790.043), Pará (R$ 127.840.428), Rondônia (R$ 31.155.659), Roraima (R$ 23.886.859) e Tocantins (R$ 31.836.911)

Mulheres na política
O aumento da representatividade da mulher na política brasileira reflete em menor taxa de mortalidade em menores de 5 anos. Este impacto positivo é observado quando mulheres são eleitas como prefeitas e também quando a representatividade feminina é de ao menos 20% e 10%, respectivamente, dos eleitos às assembleias legislativas estaduais e à Câmara Federal. Os dados são de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, Universidade Estadual de Campinas, Universidade dos Andes, em Bogotá, e do Banco de Desenvolvimento Interamericano, em Washington. O estudo foi financiado pelo projeto de pesquisa Saúde Urbana na América Latina (Salurbal).

Premiação
Uma pesquisa que decifrou o papel de uma célula do sistema imunológico no câncer colorretal é a vencedora do 11º Prêmio Octavio Frias de Oliveira na categoria Pesquisa em Oncologia. Na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia, o trabalho que propôs um jeito de baratear um dos tratamentos mais modernos contra a leucemia ficou em primeiro lugar.

Urnas Eletrônicas
A brasileira Positivo, fabricante de computadores e softwares, vendeu para o TSE 180 mil urnas eletrônicas para a eleição de 2022; e vai embolsar R$ 800 milhões.
É consenso na Corte que as 470 mil urnas atuais estão aptas a atender as eleições municipais deste ano – e parte delas, substituídas, pode ser vendida a outros países.

Como assim?
Já prevendo o fiasco nas urnas no maior colégio eleitoral do país, petistas históricos, como Marilena Chauí e Ricardo Kotscho, apoiarão a chapa Boulos/Erundina (PSOL) à prefeitura de São Paulo. Ainda assim, “xiitas e xaatos” do PT pressionam o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva a impor a candidatura de Fernando Haddad, mas o ex-prefeito não quer saber da ideia, uma vez que deseja mesmo é disputar à sucessão do presidente Jair Bolsonaro em 2022.

Sistema único da segurança
Pode ser aprovado ainda nesta semana um projeto que vai reunir todas as informações criminais do país em um sistema único. O projeto, elaborado pelo Ministério da Justiça em parceria com a Polícia Federal, tem o objetivo de interligar os atuais 27 bancos de dados dos estados e do Distrito Federal — que não se comunicam. A proposta deve custar cerca de R$ 90 milhões e será paga pelo Fundo Nacional de Segurança Pública.

Consumo de Energia
O consumo de energia no Brasil apresentou retração média de 2,1% nas duas primeiras semanas de julho, frente ao mesmo período de 2019, ainda com efeito da retomada gradual das atividades em várias partes do país. O mercado livre, no entanto, registrou a primeira elevação no volume consumido desde o início das medidas de isolamento social para combate à covid-19. De acordo com o mais recente estudo da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica(CCEE), o mercado regulado apresentou retração de 3,6% no período.

Tributos
Prefeitos de grandes cidades, acima de 100 mil habitantes principalmente, atuam para que o Congresso não inclua a discussão sobre impostos municipais na reforma tributária. A intenção é preservar a gestão do ISS (Imposto sobre Serviços), que abastece uma fatia importante da arrecadação desses municípios, como é feita hoje, com os municípios.

Sem essa
Antes da pandemia do novo coronavírus, os prefeitos já queriam evitar esse debate. Agora, dizem que, com a piora da crise econômica, tornou-se mais importante lançar a discussão para frente. Por isso, eles apoiam a ideia do governo resolver, por ora, apenas a parte relativa a impostos federais e pressionam para que o Legislativo retire da proposta a ideia de alterar tributos municipais.

Setor de serviços reclama
Após ouvirem as tentativas do ministro Paulo Guedes para aprovar a CPMF digital, empresários do setor de serviços afirmaram ao ministro que temem um “descompasso” no Congresso entre a aprovação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) – imposto que unificaria PIS e Cofins –, com alíquota de 12%, e a desoneração da folha de pagamento. Guedes está apostando na criação de um imposto sobre transações digitais, uma nova CPMF, para ampliar a base de arrecadação do governo e cobrir o rombo nas contas públicas.

Vidas poupadas
Um estudo inédito realizado por professores de estatística da UFRRJ estima que o isolamento social pode ter poupado 118 mil vidas no Brasil em maio. Os responsáveis pelo estudo tomaram por base dados de como a pandemia se comportou no país no período, a taxa de isolamento e diferenças regionais. Segundo eles, a cada 1% de aumento no isolamento social havia uma redução na taxa de crescimento do vírus de até 37%.

Previsão nada otimista
O governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, disse ao jornal O Globo que “a esquerda poderá perder em todas as capitais brasileiras em novembro”. A previsão da derrota catastrófica, segundo ele, se dá em função dos nomes dos pré-candidatos escolhidos até agora.

Contra a intimidação
O caso da arrogância do desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, multado por não usar máscara, repercutiu no país inteiro, ainda mais diante da coragem dos guardas municipais, que não se intimidaram. Chamado de analfabeto no instante em que multava o doutor, o guarda Cícero Hilário Roza Neto reagiu à arrogância com moderação. Já autor da filmagem, guarda Roberto Guilhermino, também se manteve dentro das fronteiras da civilidade. Após serem identificados, o comportamento da dupla tem sido elogiado na cobertura do caso.

Favoritismo
Ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro “virou político” e tem muita chance de chegar ao segundo turno da eleição presidencial caso seja candidato em 2022. A avaliação é do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), feita em longa entrevista à Globonews. “Virou político, né?”, disse Maia, esclarecendo que não considerava a mudança necessariamente ruim. “Acho bom que ele venha para o debate político, dá legitimidade ao que ele defende.

Como fica esquerda?
Caso se confirme Bolsonaro e Moro em um eventual segundo turno nas eleições de 2022 para a Presidência da República resta saber quem a esquerda vai apoiar. Não esqueçamos que a política é muito dinâmica, muito dinâmica.

PGR x Lava Jato
A guerra da Procuradoria-Geral da República (PGR) com a força-tarefa da Lava Jato está só começando, com troca de críticas em público e de acusações nos bastidores. Vem aí uma devassa numa operação anticorrupção que ganhou fama mundo afora, mobilizou o Brasil e, com a prisão de um ex-presidente, ex-governadores, ex-presidentes da Câmara e os maiores empreiteiros do País, gerou a esperança de que a lei valeria para todos. Segundo o procurador-geral, Augusto Aras, em conversa ontem com a coluna, “não se trata de linchar quem quer que seja, até porque isso seria cair nos mesmos vícios”.

Eleição atípica
O ineditismo de uma campanha eleitoral sob uma pandemia exigirá adaptações de candidatos e eleitores, que vão protagonizar um pleito municipal marcado por muitas incertezas, além das já habituais. O cenário atípico pode ter impacto desde a fase de propagandas até os resultados.

Foro mantido
Denunciado por supostas propinas de 65 milhões de reais, que teriam sido pagas há dez anos, o deputado federal Aécio Neves, do PSDB, segue com foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal. Em decisão recente, o ministro Edson Fachin também manteve na corte a competência para julgar os operadores do tucano, que nunca tiveram um mandato eletivo. O despacho acolheu pedido da subprocuradora-geral, Lindôra Araújo.

Datena Candidato
O famoso apresentador da Band José Luiz Datena, filiado ao MDB, potencial candidato a qualquer cargo (neste ano ou 2022) ganha chance de repensar decisão de não disputar a prefeitura paulistana. Pela lei eleitoral, teria de encerrar suas apresentações na TV e rádios no último dia 30. Agora, com novo calendário eleitoral respaldado pela PEC analisada no Congresso, tem até dia 11 de agosto como prazo final. Registro de candidaturas será até dia 26 de setembro. Campanhas e propagandas eleitorais serão de 27 de setembro a 12 de novembro. Eleição dias 15 de novembro (1º turno) e 29 de novembro (2º turno).

Blecaute
Os partidos de esquerda ainda não se entenderam desde a derrotada do PT de Lula e Cia Ltda. Vejam só, um ato virtual contra o presidente Jair Bolsonaro convocado pelo movimento “Direitos Já” deve reunir ao menos 100 políticos, sendo 13 presidentes de partidos, da esquerda à direita, ex-presidenciáveis e coordenadores de outros grupos de defesa da democracia. No entanto, os principais nomes do PT ficaram de fora, embora tenham sido convidados.

Atletas brazucas
O Comitê Olímpico do Brasil começa a embarcar atletas para Portugal nas próximas semanas, para treinamento de 45 dias, em média, de diferentes modalidades. Serão ao menos 207 atletas hospedados em dois centros de treinamento de primeira linha: em Lisboa e em Rio Maior, revela o diretor-geral do COB, o judoca Rogério Sampaio. A turma do Surf, modalidade estreante nos Jogos de Tóquio em 2021, quer treinar nas praias de Nazaré. E há atletas de outras modalidades, como Robert Scheidt, que já mora na Europa, e vão continuar treinamentos na Itália e França. A delegação brasileira para a Olimpíada do Japão deve passar de 800 pessoas. O COB já fechou com Air Canadá como transportadora oficial. Todos os voos terão escala de 12 horas em Toronto.


ARTIGOS

Benditas decepções

* Por Emanoel Reis

Há três décadas, venho tentando driblar as decepções. E não tem sido fácil. Embora consciente da complexa natureza humana, resiste a esperança na amizade. Desde a adolescência, nunca acreditei no amor apenas como expressão individual de bem-querer. Para mim, o amor é um conjunto universal de sentimentos indissolúveis, cuja existência é intrinsecamente coletiva. Não sobrevivem isolados. Esta compreensão, no entanto, não nos protege dos equívocos resultantes de nossas escolhas enviesadas. Simples: somos humanos, demasiado humanos. Compreender esta verdade em nós, e, principalmente nos outros, é o primeiro passo para minimizar os impactos causados pelas decepções.
Quem se decepciona em demasia, é porque espera muito das pessoas. Ou, exige demais de quem só pode dar menos. Eu nunca esperei muito – nem pouco. Aliás, não esperei (nem espero) nada. Ainda assim, não estou completamente imune às desilusões. Tenho preferências, externo opiniões, defendo opões político-ideológicas, manifesto crenças religiosas (ou, a ausência delas). E isso agrada ou desagrada os ouvintes, gerando demonstrações de apreço ou repulsa. Procuro estar preparado para ambas, sem maior envolvimento. A primeira, provoca contentamento; a segunda, indiferença. Nunca, rancor ou mágoa.
Recentemente, li no Facebook um texto do amigo jornalista Euclides Moraes. Combinava positivismo exacerbado, próprio dos otimistas contumazes, e pessimismo conceitual, involuntariamente pinçado da filosofia pessimista e irracionalista de Arthur Schopenhauer, cuja origem, segundo o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, é deduzida dos postulados de Immanuel Kant. Otimismo expresso no “(…) Um bom dia para começar tudo de novo. Reavaliar projetos abandonados”. Subentende-se, nos contextos das frases, profundo desejo de mudança a partir de projetos inconclusos ou mesmo nascituros.
Euclides Moraes quer mudar. Anseia por mudanças significativas. Contudo, para promover essas transformações na própria vida precisa, antes de qualquer decisão pessoal, “(…) Dimensionar os estragos dos equívocos. E, principalmente, ser mais seletivo e cuidadoso com a escolha das pessoas (…)”. Às vezes, os equívocos provocam estragos irremediáveis. Deixam marcas indeléveis. Disso, surgem das profundezas da alma decepções em profusão. Nessas circunstâncias, a relação com o “irremediável e indelével” deve ser de enfrentamento constante para que jamais suplantem a esperança na amizade.
Foi decepcionando-me que percebi a loucura em “querer agradar a todos”. É impossível. Então, fiz o inverso. Passei a agradar-me. Conhecendo-me, reduzi sobremodo os impactos das decepções. Alcancei esse conhecimento intensificando o convívio pessoal, nas diferentes esferas sociais, com pessoas de níveis opostos. Nunca querendo ser igual a elas. Mas, tão somente aprendendo com suas virtudes e vícios. Compreendendo-lhes as limitações e deficiências a partir do entendimento de minhas próprias limitações e deficiências.
Quando o Euclides Moraes descortina o desejo em “(…) Dimensionar os estragos dos equívocos (…)” está dizendo, simplesmente, que aprendeu inestimável lição de vida. Em resumo: vai demorar para cometer os mesmos erros. Talvez, até volte a cometê-los. Mas, não com a mesma intensidade. Tampouco, desintencional. Certamente, sucumbirá a outros equívocos. Incorrerá em outros erros. E daí? Humano, demasiado humano. Ao final, estará mais resistente às decepções porque, intensificando o convívio social, terá aprendido que somos todos passíveis dos equívocos mais comezinhos.
Quanto a “(…) ser mais seletivo e cuidadoso com a escolha das pessoas (…)” é um processo inerente às relações interpessoais que exige elevado conhecimento da natureza humana. Isso demanda tempo e qualidades indispensáveis como perspicácia e paciência monástica. E outras, naturais ou adquiridas por meio de estudos permanentes, e observações acuradas do cotidiano. Nesse aspecto, ninguém está imune. Toma-se como exemplos Caio Júlio César e Jesus Cristo. Ambos vítimas da traição cometida por amigos íntimos. No caso de César, o traidor foi seu filho adotivo, Marcus Junius Brutus; no de Jesus, o apóstolo chamado Judas Iscariotes.
Quão amargas foram as decepções desses dois homens. Infelizmente, não sobreviveram a elas “(…) para reavaliar projetos abandonados, dimensionar os estragos dos equívocos e começar tudo de novo”. Por isso, parei de “(…) ser mais seletivo e cuidadoso com a escolha das pessoas (…)” com as quais devo me relacionar. Primeiro, porque o mal é inerente e, por mais que tente me proteger, estarei sempre suscetível a ele. É o humano, demasiado humano. Segundo, “selecionar e escolher” me parece muito “charlesdarwiniano”. Algo como almejar a amizade perfeita. Repito: é impossível. Assim, diante das imprevisibilidades do convívio social, recomendo atenção redobrada. Afinal, “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém” não é, mesmo?!

* Jornalista e Teólogo

O tempo da Amazônia (II)

* Por Lúcio Flávio Pinto

Mesmo com os choques que sofreu ao voltar à sua desaparecida Itá, duas décadas depois do primeiro contato, e das tristes notícias que lhe chegavam do Brasil, o antropólogo Charles Wagley (1913-1991) tinha consciência de que seu livro amazônico estava acima das turbulências do mundo transitório e da cultura de ocasião.
Por sua consistência (e, mais do que por ela, devido a sua estatura humana), surgira para ficar para sempre. “Ao refletir sobre o passado, sei agora que sou essencialmente um humanista; e chego à conclusão de que este foi um livro humanista com mensagem humanista”, foram suas últimas palavras do prefácio.
Seus dois discípulos, Marianne Schmink e Charles Wood, atualizando a visão da questão, se dedicaram, durante 20 anos, a acompanhar, registrar e finalmente consolidar num trabalho acadêmico as transformações mais profundas que aconteceram desde que Uma Comunidade Amazônica foi publicado pela última vez.
O livro fundamental de Marianne e Charles (Conflitos sociais e a formação da Amazônia) foi publicado no Brasil em 2012 (em bela edição da editora da Universidade Federal do Pará), 20 anos depois da edição americana, o que dá uma ideia do avanço do descaso pelo conhecimento da Amazônia e da estreiteza do nosso horizonte intelectual e cultural. Ou seja: do quanto a Amazônia involuiu em autoconhecimento, apesar de tantas pesquisas científicas realizadas ou em andamento, mas de pouca inserção social.
Para preencher o vácuo entre as duas edições (felizmente a brasileira saiu melhor do que a americana), Marianne voltou a São Félix do Xingu, acompanhada por uma equipe que preparou o documentário. O filme é um trabalho louvável e que merece respeito. Devia ser exibido por toda a região por seu conteúdo e sua qualidade técnica, apesar dos parcos recursos ao alcance dos seus realizadores.
Confesso, porém, que não partilho o tom de esperança ou confiança no futuro com base na realidade atual. De fato, há experiências pequenas que podem ter bom desfecho e até influir sobre realidades maiores. Pode-se citar um dos mais recentes e de melhores perspectivas: o da cooperativa que produz chocolate de alta qualidade em Medicilândia, na Transamazônica.
Mas a situação geral é mais difícil e preocupante. O tom sentimental e de reconhecimento do filme pelo magnífico trabalho realizado por Marianne Schmink espargiu um tom de cordialidade coerente com o reconhecimento ao que ela e Charles fizeram, mas destoante do avanço massacrante das frentes econômicas.
Senti falta de imagens da partida da PA-279 em Xinguara, 780 quilômetros ao sul de Belém, e toda discussão que se travou nos anos de 1980 sobre o seu impacto. Por incrível que isso hoje pareça, tentou-se evitar que a estrada fosse levada para oeste, até São Félix para poupar o Xingu (ou menos dar-lhe uma trégua maior) da devastação impiedosa do vale do Araguaia/Tocantins. Mesmo os responsáveis pela construção da estrada admitiram dialogar com os críticos da conclusão da obra, num nível técnico elevado e com compreensão.
Mas a estrada era um objetivo categórico e acabou chegando a São Félix, sendo o seu elo final a ponte de acesso à cidade pelo mundo da destruição que avançou a partir do leste, violentada tanto quanto o território em sua volta. Florestas foram derrubadas para a formação de pastagem e culturas de ciclo curto. O presente de grego, coerente com essa visão destrutiva, foi colocar São Félix no topo do ranking dos municípios pecuários do Brasil.
O tom de esperança do documentário é típico da parte de quem quer aproveitar os poucos exemplos positivos que pipocam como exceção nessa ampla frente de devastação da Amazônia e levar as pessoas a acreditarem na possibilidade de um desfecho feliz para a questão amazônica, mesmo sabendo da sua enorme complexidade, com um potencial destrutivo muito grande. Não querem desistir dos seus ideais nem se tornarem niilistas e derrotistas.
Mas qual a alternativa real, de significado, para esse modelo de exploração dos recursos naturais da Amazônia voltado para atender os mercados externos com produtos de baixo valor agregado, mesmo quando carregam grande carga de um bem nobre, como a energia (extraída dos rios amazônicos a um custo ecológico e social que não é computado ou é calculado por baixo)?
Uma alternativa podia ser o investimento nas várzeas amazônicas, aproveitando um processo de adaptação multissecular. Uma participante de um encontro sobre o aproveitamento da floresta que então se realizava me disse que achava importante ajudar a divulgar a pauta dos povos extrativistas; “pelo pouco que ouvi e li já deu para entender que a realidade que se vive dentro dessas reservas extrativistas é bastante complicada, com muitas contradições e atropelos, mas as entrevistas com alguns representantes como a Maria Nice Machado, quebradeira de coco de babaçu, o Braulinio Caetano, da região norte de Minas, e Raimundo Nonato, do norte de Tocantins, bastaram para me convencer da sua justa causa. São tantas histórias que merecem ser ouvidas e divulgadas”. Mas que são ignoradas, omitidas pelos meios de divulgação de massa e, por isso, não chegam ao conhecimento da opinião pública.
Uma análise do que aconteceu nos últimos 60 anos será capaz de demonstrar o abandono dos compromissos que o Brasil assumiu, ao retomar sua vida democrática, em 1946, com a Amazônia: valorizá-la, através do conhecimento científico, antes de utilizar os seus vastos recursos naturais.
Só assim seria possível saber o que e como fazer numa região imensa e complexa. A presença ativa do Estado e o planejamento rigoroso seriam os principais instrumentos dessa intervenção. Mas o Estado sumiu e o planejamento acabou.
À medida que grandes atores apareceram no enredo, se apossando dos maiores e melhores recursos, que transformaram em produtos de aceitação internacional, a entidade que devia regular a relação entre os fortes e os fracos se encolheu. Deixou que ficasse em vigor uma lei fatal: a do mais forte. Para os demais restou a luta pela sobrevivência num cenário que ameaça cada vez mais a própria Amazônia.
As lideranças amazônicas se queixam de alguns desses resultados e reivindicam um lugar nessa estrutura de poder. Mas fariam diferentemente do que está sendo feito? A SPVEA sempre foi conduzida por pessoas indicadas pelas lideranças políticas da região, ao contrário do que geralmente aconteceu sob a Sudam.
Do historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, o primeiro superintendente da SPVEA, ao médico Waldir Bouhid, que ocupava o cargo quando a instituição sofreu a intervenção, a partir do golpe militar de 1964, o que eles fizeram? Alguma coisa boa, como os levantamentos florestais em convênio com a FAO, o órgão especializado da ONU para o uso da terra. Mas, em geral, politicagem, obras paroquiais e desvio de recursos.
Ainda que não tenha papel de direção no que o governo faz na Amazônia, ao implantar infraestrutura e sustentar investimentos de capital privado, a elite amazônica tem se satisfeito com o que lhe é reservado nesse modelo: tirar proveito da parte do aparato público a que tem acesso, mais preocupada em vantagens pessoais do que em benefício coletivo. É eficiente abre-portas e comitê de recepção.
A Amazônia, como fronteira natural, é o lugar ideal para a criação, a invenção, a novidade e a ousadia. Só assim se pode realizar a utopia de Euclides da Cunha, escrevendo nesse reino de água e floresta a última página do Gênesis, hoje um garrancho cruel.

Leia Também: O tempo da Amazônia (I)

* Sociólogo e Jornalista

A pandemia e a revolução urbana

O mundo está vivendo uma revolução irreversível. A pandemia pressionou e as sociedades passaram a aplicar subitamente, e em larga escala, os recursos da tecnologia digital que vinham sendo utilizados apenas por uma parcela da população. A necessidade de se manter o mercado em atividade alterou rapidamente muitos paradigmas nas relações com o trabalho e com a Urbe…

* Por Claudia Aragão Soares

O mês de junho passou sem permitir que Santo Antônio, São João e São Pedro se despedissem de mim. Desde que a sergipana Propriá aconchegou o meu recém-nascido respirar, esta foi a primeira vez em que o festivo mês de junho desafinou feito uma “sanfona velha do fole furado” nos arraiais nordestinos, sem que fosse transformada em afinadíssimo baião.
E não poderia ser diferente quando se fica saudoso da musicalidade de Luiz Gonzaga, da poesia de Patativa do Assaré, dos arraiais repletos de obras de Mestre Vitalino e Beto Pezão, dos trajes cangaceiros de Lampião e Maria Bonita, das rimas místicas em louvor a Antônio Conselheiro, Padre Cícero e Frei Damião, do apadrinhamento testemunhado pelas caseiras fogueiras e das comidas típicas recheadas de milho e mandioca.
Esta sensação de vazio sacudiu a minha forrozeira alma nordestina, obrigada a se quedar em casa em desanimado xaxado virtual. A minha e a de todas as pessoas nascidas na parte brasileira que segue resistindo, enfrentando e reagindo aos ventos autoritários que querem destruir a Constituição, a democracia e as institucionais nacionais. E que não desiste de esperançar por melhores dias, mesmo quando os fogos soltados no mês de junho não tinham como finalidade os alegres, culturais e tradicionais festejos juninos, mas sim rojões repletos de pólvoras fascistas contra a democracia e o STF.
Pode-se até escrever, plagiando o genial cantor Flávio José, que o mês de junho de 2020 feriu a “natureza das coisas”, tanto no campo da tradicional alma festiva do jeito de ser nordestino, quanto no campo da comportamental cidadania brasileira.
Esclareço, agora, que retirei da composição de Flávio José o título desta crônica, pois – concordando com o seu autor – não devemos nos avexar, já que “a natureza não tem pressa, segue seu compasso, inexoravelmente chega lá.” Afinal, como ali registrado, musical ou cientificamente, “se avexe não, amanhã ela para na porta da sua casa. Se avexe não, que a burrinha da felicidade nunca se atrasa”. Mas não pense – “avexadamente” – que Flávio José está contrariando o baiano Raul Seixas e pedindo para ficarmos no trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a inexorável morte chegar, contente por ter vencido na vida, agradecendo ao Senhor por ter um emprego e ser um cidadão respeitável.
Não! Não está o cancioneiro nordestino a nos dizer que as coisas acontecerão no tempo certo em que devem acontecer, queiram ou não as pessoas acomodadas, apressadas, alienadas, vanguardistas, pessimistas, alienadas e todas as outras que se enquadram em tudo ou em quase nada. Sabe ele, gonzagamente, que o seu sertão permanece ardendo, abandonado pelo presidente de plantão, deixando triste a asa branca diante de tanta judiação. Compreende que as mortes de vidas nordestinas seguem severinas, vítimas de preconceitos estruturais, como narrou com precisão o pernambucano João Cabral de Melo Neto. Mas, sobretudo, como cancioneiro de primeira grandeza, ele vivenciou, patativamente, por ter nascido em “uma terra que o povo padece, mas não esmorece e procura vencer”.
Daí o conselho musical de que a verdadeira “natureza das coisas” é de que “toda caminhada começa no primeiro passo”, pois, “seja princesa ou seja lavadeira, pra ir mais alto, vai ter que suar”. Não seria outra reação adotada para quem tem o prazer da conterraneidade com Ariano Suassuna, Aperipê, Castro Alves, Celina Guimarães, Dandara, Esperança Garcia, Evandro Lins e Silva, Fausto Cardoso, Francisco Julião, Frei Caneca, Graciliano Ramos, Helder Câmara, Luiz Gama, Luiza Mahin, João Mulungu, Jorge Amado, José de Alencar, Margarida Alves, Maria Firmina, Maria Quitéria, Nísia Floresta, Rui Barbosa, Serigy, Violante Bivar, Tobias Barreto, Zumbi e tantas outras pessoas que cunharam com sangue, suor e lágrimas a alma sertaneja. “Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”, mas não há outro caminho a ser trilhado senão aquele já traçado pelo paraibano Geraldo Azevedo, quando enfrentada e derrotada a ditadura civil-militar instalada em 1964: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”
Seguindo a natureza das coisas, a sociedade retomou – nas ruas, nas redes sociais, nas pesquisas, nos movimentos sociais e em incontáveis manifestos – o seu acolhimento à democracia como posta na Constituição Federal. Vozes abalizadas já pedem o afastamento e/ou impeachment do presidente plantonista. A unidade começa a ser palavra de ordem em cada canto e recanto do país. Eu a escuto com o meu assumido sotaque nordestino: Se avexe não, já demos o primeiro passo. Se avexe não, a democracia é o compasso. Se avexe não, a luta tem meu abraço. Se avexe não, o seu ódio não tem espaço. Se avexe não, o fascismo não tem morada. Se avexe não, a lagarta já criou asas.

* Arquiteta e especialista em questões urbanas

Fake news, injúria e conspiração

… Notícias falsas, injúrias, teorias da conspiração, quase todas as semanas, sobem ao topo da pauta política no Brasil. Nas redes, muito se falou do ataque a Felipe Neto, depois de sua aparição no “New York Times” criticando o governo Bolsonaro…

* Por Fernando Gabeira

Notícias falsas, injúrias, teorias da conspiração, quase todas as semanas, sobem ao topo da pauta política no Brasil.
Nas redes, muito se falou do ataque a Felipe Neto, depois de sua aparição no “New York Times” criticando o governo Bolsonaro. A velha acusação aos comunistas, comem criancinhas, ganhou uma versão atualizada contra Felipe.
No campo editorial, tive a oportunidade de ler “A máquina do ódio”, um livro de Patrícia Campos Mello sobre fake news e violência digital no mundo. Ela conta, entre outros casos, a carga injuriosa que sofreu quando denunciou manipulação digital nas eleições de 2018.
Nem sempre foi assim no Brasil. Nesses tristes momentos de tecnopopulismo, costumo dar uma olhada na bela coletânea intitulada “Duelos no serpentário”, coligida por Alexei Bueno e George Ermakoff.
Trata-se de uma antologia de polêmicas intelectuais no Brasil, de 1850 a 1950. Havia alguma ironia, insultos aqui e ali, mas eles passavam dias, noites, escrevendo suas teses, sob a luz de lamparinas. O problema era convencer com ideias.
A polêmica gramatical entre Rui Barbosa e Carneiro Ribeiro sobre o texto do Código Civil, se impressa no conjunto, daria um livro de mil páginas, capaz de entediar gerações inteiras de estudantes. Houve polêmicas para definir se o cinema falado era melhor que o cinema mudo. Vinicius de Moraes participou dela.

… O agressor sempre adivinha a profissão da mãe dos outros e quer que mudem para um certo lugar que pode ter diferentes nomes. Em português, é possível conciliar os dois tipos de injúria enviando a pessoa para um lugar que, em linguagem amenizada, é a ponte que partiu.

Em relação a esse período da história, talvez tenhamos regredido às medievais canções de maldizer e escárnio. Ou, mais que isso, entramos num campo que só o estudo da injúria pode abarcar.
Jorge Luis Borges escreveu a bela “História universal da infâmia”. Nas suas obras completas é possível encontrar também algumas notas sobre a injúria, uma categoria específica de agressão.
É um texto curto, intitulado “Arte da injúria”. Segundo Borges, o agressor deverá saber, conforme advertem os policiais da Scotland Yard, que qualquer palavra que diga pode ser voltada contra ele.
O sonho dele, portanto, é ser invulnerável. Isso foi escrito na década dos 30, muito antes da internet, que trouxe o conforto do anonimato.
O roteiro da injúria em Borges passa pelas ruas de Buenos Aires. O agressor sempre adivinha a profissão da mãe dos outros e quer que mudem para um certo lugar que pode ter diferentes nomes. Em português, é possível conciliar os dois tipos de injúria enviando a pessoa para um lugar que, em linguagem amenizada, é a ponte que partiu.
Ao longo de sua análise, Borges descobre que, nas “Mil e uma noites”, célebre texto árabe, há um xingamento que se tornou popular: cão.
E chega aos que parecem mais sofisticados e certeiros como este: “Sua esposa, cavalheiro, sob o pretexto de trabalhar num prostíbulo, vende artigos de contrabando”.

… A idade também protege um pouco contra a repetição do mantra “viado e maconheiro”. A maconha restou com alguma vitalidade. Sempre que escrevo algo que lhes desagrada ou parece estapafúrdio, dizem que fumei maconha estragada.

Borges destaca também a injúria mais esplêndida feita por alguém que não tinha contato com a literatura. Ele descreve um homem chamado Santos Chocano, dessa maneira: “Os deuses não consentiram que Santos Chocano desonrasse o patíbulo, nele morrendo. Aí está vivo, depois de ter fatigado a infâmia”. O personagem me lembra um pouco velhos políticos que ganham uma espécie de pele de elefante depois de tantas pancadas pela vida afora. Cansam até o xingamento.
Mas os insultos contra as pessoas que têm outra atividade costumam ser devastadores para suas relações familiares, de amizade e a própria autoestima. Sou solidário com elas e desejaria ver algo na lei que acabasse com a invulnerabilidade do agressor.
Pessoalmente, não guardo ressentimentos, sobretudo agora nessa idade. Não me ameaçam de morte, simplesmente afirmam que já morri e não me dei conta. Decretaram minha morte em algum momento do passado e reclamam por não ter levado a sentença a sério.
A idade também protege um pouco contra a repetição do mantra “viado e maconheiro”. A maconha restou com alguma vitalidade. Sempre que escrevo algo que lhes desagrada ou parece estapafúrdio, dizem que fumei maconha estragada.
Ainda bem que sou de paz. Poderia acusá-los de apologia às drogas. Se as ideias estapafúrdias e equivocadas são fruto de maconha estragada, isso significa que a de boa qualidade traz limpidez e justiça ao pensamento.
Não se discute mais como antigamente. E eles estão com um enorme estoque de cloroquina para se preocupar com outra droga.

* Escritor, Jornalista e ex-deputado federal

As táticas da oposição para evitar o desmonte

* Por Antônio Augusto de Queiroz

Desde sua posse, o governo Bolsonaro, apesar de ter assumido sem reservas a agenda de mercado para as áreas previdenciária, sindical e trabalhista, foi pouco efetivo na relação com o Congresso e só logrou transformar em norma jurídica com reflexos duradouros sobre os trabalhadores, a reforma da previdência (PEC 6/19) e a lei da liberdade econômica (MP 881/19).
Enquanto que o governo Michel Temer, em período idêntico, foi muito mais efetivo nas áreas trabalhista e sindical, tendo incorporado ao ordenamento jurídico a lei de terceirização generalizada e a reforma trabalhista, além de também ter avançado no desmonte do Estado, com a Emenda Constitucional nº 95, que congelou o gasto público e impediu novas despesas com políticas públicas. E, embora não tenha aprovado a sua proposta de reforma da previdência encaminhada ao Congresso ao final de 2016, adiantou o debate e facilitou a aprovação da PEC 6, em 2019. O que houve, afinal, se a correlação de forças para o movimento sindical agora é pior do que no governo anterior?
Qual a explicação para esse desempenho baixo na visão do mercado, se o governo atual, recém legitimado pelas urnas, veio mais forte, possui uma agenda mais agressiva, os parlamentares são até mais favoráveis às reformas trabalhistas, sindicais e previdenciárias e o movimento sindical está mais fragilizado política e financeiramente do que durante o governo anterior?
Antes de explicar os motivos, é preciso lembrar a ofensiva do governo Bolsonaro na tentativa do desmonte do Estado, via propostas de emenda à Constituição – PEC nº 186 e 188, ambas de 2019, dos direitos previdenciários, por meio da PEC 6/19, da reforma da previdência, e dos direitos sindicais e trabalhistas, por intermédio de pelo menos cinco medidas provisórias.
Das três PECs – nºs 6/2019 (reforma da previdência) e 186/2019 (PEC emergencial) e 188/2019 (PEC do pacto federativo)– apenas a primeira, que tratou da reforma da Previdência foi aprovada e promulgada como Emenda à Constituição nº 103, e mesmo assim com modificações relevantes. As outras duas, cuja tramitação teve início no Senado Federal, não evoluíram como esperava o governo, e continuam aguardando deliberação naquela Casa do Congresso. O atraso na deliberação pode ser atribuído, em primeiro lugar, à resistência dos servidores e, em segundo, ao início da pandemia do coronavírus, que suspendeu os trabalhos presenciais no Congresso.
Em relação à reforma da previdência, cuja votação só foi possível pelo empenho pessoal do presidente da Câmara dos Deputados, houve pelo menos dez modificações na proposta original, de um lado, com a retirada ou supressão de partes do texto, e, de outro, com a suavização de seus efeitos mais perversos. No primeiro grupo, podemos mencionar: 1) o regime de capitalização; 2) o aumento automático da idade mínima; 3) as novas regras do BPC-Benefício de Prestação Continuada; 4) o fim do abono salarial; 5) a desconstitucionalização do reajuste automático dos benefícios; e 6) o fim da indenização trabalhista do empregado de estatal que se aposentasse. No segundo grupo: 1) a redução da idade mínima; 2) a inclusão de regras de transição; 3) aposentadoria rural; e 4) restabelecimento da carência de 15 anos para a mulher no INSS, entre outros.
Quanto às medidas provisórias, cujo objetivo era retirar ou reduzir direitos sindicais e trabalhistas, todas perderam a eficácia após os 120 dias de vigência, sem que o Congresso Nacional as deliberasse. Foram elas, as MPs: 873/19, que pretendia eliminar o desconto em folha da mensalidade sindical; 905/19, destinada a instituir o Contrato Verde e Amarelo para jovens, com redução drásticas de direitos trabalhistas e previdenciários; 922/20, que ampliava as contratações temporárias no serviço público, sem necessidade de concurso público; e a 927/20, que autorizava o empregador a praticar o trabalho remoto, antecipando férias e alterando outros direitos trabalhistas durante a pandemia por meio de acordos individuais.
Registre-se, ainda, que a oposição no Senado, com destaque para a atuação do senador Paim e do líder do PT, senador Rogério Carvalho (SE), barrou as duas medidas provisórias mais duras contra os trabalhadores – no caso as MPs 905 e 927 – além da retirada da MP 936, transformada na Lei nº 14.020/2020, de todas as matérias trabalhistas permanentes que não tratavam do “Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda” ou que não estavam diretamente relacionadas ao combate à Covid-19 e, portanto, eram uma espécie de contrabando.
Voltemos à indagação inicial. Mas quais foram as razões disto? As causas ou os motivos da pouca efetividade do governo Bolsonaro são muitos, algumas decorrentes dos erros governamentais na relação com o Congresso, outro resultantes da reação do Centrão à hostilização a que foi exposto pelos apoiadores de Bolsonaro, e por último pela tática empregada pela Oposição, que soube tirar proveito dos erros do governo na condução de sua agenda.
No primeiro caso, o fracasso tem duas dimensões. A primeira foi erro de o governo ter optado pela relação direta com sua base social, ignorando a mediação da mídia e dos representantes do povo no parlamento. A segunda foi ter hostilizado o Centrão, um potencial aliado, acusando-o de fisiológico e de fazer a “velha política”, o que provocou reação desse grupamento. Para fugir da acusação, o Centrão precisou criar um álibi e o fez apresentando-se como independente, divergindo de diversos pontos da reforma da previdência, como forma de provar sua autonomia em relação ao governo e, ao mesmo tempo, mostrar o seu “peso” nas decisões do Legislativo.
No segundo caso foram os acertos da oposição e dos movimentos sociais, que tiveram três movimentos táticos: a) reunir argumentos demonstrando a inconveniência, o exagero e até a perversidade das proposições governamentais; b) articular alianças com o presidente da Câmara e com o Centrão, que vinha sendo hostilizado pelo governo; e c) em nome do objetivo final, abrir mão do protagonismo na condução das derrotas governamentais, permitindo que as forças de centro liderassem as negociações.
As táticas empregadas pela oposição e pelos movimentos sociais, especialmente a última – que terceirizou o protagonismo na condução das negociações como forma de evitar o efeito reverso ou o revanchismo governamental – também serviram para arrancar vitórias importantes, como foram os casos da PEC do Orçamento de Guerra, flexibilizando restrições fiscais para o enfrentamento da pandemia, e a Lei Complementar 173, que permitiu liberar recursos para salvar vidas, empregos, empresas e entes subnacionais, e a criação do auxílio emergencial, para assegurar a ajuda humanitária de R$ 600,00 durante cinco meses, sem a qual milhões de brasileiros vulneráveis teriam morrido de fome nesse período de pandemia.
Entretanto, com o ingresso do Centrão na base do Governo, de um lado, e, a perspectiva de perda de poder do presidente da Câmara, em face da proximidade do encerramento de seu mandato, de outro, tende a inviabilizar o emprego dessas táticas pela oposição. Além disto, é urgente definir novas estratégias por parte da oposição para continuar evitando o desmonte, tanto de direitos trabalhistas e sindicais, quando do próprio Estado brasileiro, afinal o período pós-pandemia o país não contará mais com um orçamento de guerra (sem limites) e o governo irá apresentar a conta, exigindo ajustes em nome da geração de empregos e do equilíbrio das contas públicas.
Frente ao cenário que se anuncia, no qual o governo promete alterar a Constituição para retomar a capitalização na previdência, reduzir o papel do Estado no atendimento às necessidades da população e pôr fim ao direito do trabalho, a alternativa é mobilizar o povo nas ruas, com dados e informações sobre os efeitos perversos da agenda liberal e fiscal do Governo, afinal, o período de isolamento social deve ter servido pelo menos para mostrar que sem o Estado a população fica entregue à própria sorte.
Com agenda propositiva, informações qualificadas sobre os interesses das propostas governamentais, e muita disposição para o diálogo e o convencimento da população estarão dadas as ferramentas e caminhos para evitar retrocessos e criar as condições para fortalecer a democracia, retomar o crescimento econômico, gerar emprego e renda e proteger os vulneráveis. E, como registrou o jornalista Ascâno Seleme, ex-diretor de redação do O Globo, em artigo publicado em 11/07/2020, já é tempo de superar a divisão e os “guetos” na esquerda e reunificar as suas forças em prol do Brasil e da democracia com paz e prosperidade.

* Jornalista

Filme nacional, de todos os gêneros

* Marli Gonçalves

Assistimos, só, não, somos em muitos deles os seus próprios protagonistas, mesmo contra vontade. Vivemos dentro deles. Outro dia um amigo comentava que se sente como se estivesse em um filme. Verdade absoluta, que me fez pensar nesse momento e daí descobrir ironicamente que estamos é vivendo intensamente dentro de todos os gêneros cinematográficos, inclusive os seriados

Ninguém sabe ao certo quando vai poder ir ao cinema, sentadinho no escurinho, com aquele balde de pipoca. Nem venham me falar em drive-in que não tem graça pagar uma grana preta para entrar em um estacionamento de carro e ficar ouvindo o som da tela pelo rádio, pedindo licença para ir ao banheiro, ou esperando um hambúrguer frio chegar pela janela. Aliás, sou do tempo de drive-in bem diferente, não sei se ainda sobrou algum, lembro de um enorme que havia aqui na Avenida Santo Amaro. De outra finalidade, era um box, com cortininha e tudo, valendo os embaçados vidros do carro, que de vez em quando balançava, se é que me entendem. Mais barato e acessível que motel, que não eram tão numerosos como hoje.
Está claro que vários filmes estão sendo produzidos diariamente diante de nossos olhos, e com conteúdo que dificilmente os melhores roteiristas do mundo seriam capazes de imaginar. Mas o melhor é observar a variada produção de filmes nacionais, brasileiros, que estão diariamente em cartaz. Ora chanchadas de péssimo gosto, ora comédias dramáticas. Temos até ficção científica no filme rodado por negacionistas e terraplanistas que inventaram um planeta diferente, todo achatado; agora acrescentaram ao enredo Ets esmagados que seriam usados em vacinas chinesas que nem existem, mas que já são contra, contra o coronavírus, uma gripezinha inventada para dominar o mundo segundo esses gênios criativos, que ainda adicionaram nessa fórmula sangue de fetos. Ficção de puro terror, para exorcista nenhum botar defeito.
Os diálogos desse filme ruim também são encontrados em filmes mais rigorosos, de cunho político, ou documentários desses tempos de pandemia. Neles, ou estamos integrados ou estamos como atingidos, as vítimas retratadas nessa tragédia para a qual a única trilha musical é macabra, e o letreiro inicial deve iniciar com in memoriam trazendo já quase cem mil nomes. Se for escolhido fazê-lo como letreiros finais certamente serão bem mais, dado o desenrolar desse enredo em câmera super rápida.
Interessante como os gêneros se misturam nesse cinematográfico Brasil. Faroeste/comédia: um presidente montado a cavalo correndo pelos campos do Nordeste empunhando em forma de arminha uma caixa de cloroquina; em outra cena, ele, cheio de empáfia, tira a máscara, corre atrás de emas nos campos do Palácio, que o bicam seguidamente. Manda o xerife que comanda facilitar que mais pessoas tenham armas, é aplaudido pelos filhos, pela claque da bala, pelos robôs do mundo digital. Nós só podemos prever que seja uma preparação para um próximo filme, uma continuidade, desta vez de guerra. Ou catástrofe.
Tem filme de espionagem, com dossiês sobre inimigos sendo preparados, fichas pessoais sendo levantadas por um bunker para o qual quem não está com eles é inimigo, de esquerda, comunista, gay, feminista, imprensa, categorias que pretendem exterminar porque lhes impediria de manipular a população como um Grande Irmão, personagem de um lugar aí que eles não sabem qual, quem que escreveu, do que se trata, mas ouviram falar; porque se tem um gênero de filme que não sabem fazer é o Cult.
Os últimos meses, fatos, acontecimentos, ações, decisões, diálogos, registros, surgimento e desaparecimento de personagens, que incluem até astronauta, além de generais e quetais, pastoras e jabuticabeiras, gurus de araque, milicianos, entre outras caracterizações que é melhor nem lembrar, englobam e criam roteiros e cenários (queimadas, devastação da Amazônia, boiadas, reuniões ministeriais, lives, Brasília, cercadinhos, etc.) para todos os gêneros, sem exceção. Podem se misturar. Os figurinos, sempre todos péssimos, incluindo camisetas de time falsificadas. A trilha, em geral sertaneja (ou o hino nacional cantado de forma solene). Os objetos de cena: canetas Bic, caixas de cloroquina, fuzis, pães melados com leite condensado, carimbos com a cara da família estampada, cartazes antidemocráticos. Participações especiais do presidente Donald Trump e de trogloditas que estão saindo das cavernas de forma assustadora.
Drama ou comédia, infelizmente, É Tudo Verdade. Pelo menos por enquanto. Mas precisamos editar esses filmes enquanto ainda é tempo de tirá-los do cartaz. Do jeito que estão, no máximo ganharão a Framboesa de Ouro. O tapete da cerimônia, como eles dizem, jamais será vermelho, a não ser tingido pelo nosso sangue, e de forma cruel.

* Jornalista

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