MACAPÁ

Moradores da periferia de Macapá vivem o drama do abandono

PERDIDÃO — Clécio Luís chega à metade de seu segundo mandato sem definir um plano de recuperação urbana dos bairros mais carentes de Macapá
Por Emanoel Reis

Após sete anos e quatro meses à frente da Prefeitura de Macapá, o prefeito Clécio Luís (REDE) continua uma incógnita como gestor do principal município do Estado. No decorrer desse tempo, não realizou nenhuma grande obra, tampouco conseguiu elevar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos quase 500 mil habitantes concentrados na região metropolitana da capital.
As periferias de Macapá lembram campos de refugiados. Milhares de pessoas sem atendimento adequado em todos os setores, ignoradas pela administração municipal, vivem em condições degradantes em barracos de madeira, em ruas intrafegáveis e sobre alagados permanentes.

DESMAZELO — Nem o ponto turístico mais visitado da cidade vem recebendo a atenção devida por parte da PMM

Nos últimos meses, Clécio Luís tem se ocupado mais em fazer politicagem em parceria com seus “padrinhos”, os senadores Randolfe Rodrigues (REDE) e Davi Alcolumbre (DEM), do que, necessariamente, cuidar da cidade à qual se comprometeu servir ao ser eleito em 2012 e reeleito em 2016. Adontando uma estratégia equivocada, tenta transferir para o Executivo uma responsabilidade que é somente dele. Enquanto perde tempo com picuinhas partidárias e com projetos políticos mirabolantes, os problemas em Macapá se avolumam e ganham dimensões de catástrofe social.
A capital do Amapá é a terceira cidade amazônica em concentração urbana (reúne 54,43% de toda população do Estado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Está atrás de Belém (PA) e Manaus (AM). Boa parte dessa população habita os bairros miseráveis, onde se enquistam os migrantes vindos de outros lugares, geralmente excluídos do mercado formal em suas cidades de origem. E continua chegando gente, a maioria sem qualificação profissional, para encarar uma realidade igual ou pior da que viviam antes.
Por conta da ausência do poder público municipal, os crimes se tornaram corriqueiros. Bandos se formam para agir onde moram os “bacanas”, e depois voltam para se esconder em suas barracas, localizadas em áreas onde a criminalidade grassa tão livremente que os próprios agentes de endemia da Prefeitura de Macapá pensam duas vezes antes de entrar nelas. E quando entram por suas vielas e esconderijos estão sempre acompanhados por guardas municipais.

ESQUECIDA — A maltratada avenida Procópio Rola é o exemplo cabal da equivocada gestão do prefeito Clécio Luís (REDE)

A situação de Macapá é tão trágica que nos últimos anos sequer figurou nas listas das dez melhores ou dez piores cidades do Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal, o IFDM, metodologia de pesquisa por amostragem de altíssima credibilidade instituída pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) para medir o nível de desenvolvimento social e econômico nos 5.564 municípios brasileiros. A leitura dos resultados acontece por áreas de desenvolvimento ou do índice final e é bastante simples, variando entre 0 e 1, sendo que quanto mais próximo de 1, maior o nível de desenvolvimento da localidade.
Uma das vantagens do IFDM é permitir a orientação de ações públicas e o acompanhamento de seus impactos sobre o desenvolvimento dos municípios – não obstante a possibilidade de agregação por Estados. Deste modo, constitui-se uma importante ferramenta de gestão pública. Portanto, de acordo com o ranking IFDM por ordem alfabética, Macapá posiciona-se na 1.293ª posição em nível nacional nos itens emprego e renda, saúde e educação. Com um IFDM médio de 0,6964, a capital do Amapá mais parece um trem sem rumo, na iminência de descarrilar na curva da irresponsabilidade político-administrativa da atual gestão.

O outro lado da praça: solidão, vícios e decadência

LOGRADOURO — Há 37 anos, a praça Isaac Zagury vem abrigando deserdados sociais de todos os cantos do País
Por Emanoel Reis

Quem passa diariamente pelas ruas Bingo Uchôa e Beira-Rio, centro comercial de Macapá, dificilmente presta atenção nos acontecimentos nada convencionais em andamento na praça Isaac Zagury, encravada entre prédios antigos, como o que abriga o Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva, e outros, com fachadas mais modernosas, onde funcionam comércios variados, como o de produtos importados de perfumaria, de alimentos e até um shopping.
Para os desatentos, durante as manhãs a praça parece desprovida de vida. Contudo, um olhar mais perscrutador descortinará um mundo paralelo habitado por moradores de rua, guardadores de carro, desempregados e consumidores de droga, personagens de uma sociedade à margem, somente lembrada nas estatísticas dos institutos de pesquisas, ou, às vezes, por algum programa assistencial de cunho oportunista.
Inaugurada em 1981, pelo então governador do Território Federal do Amapá, Anníbal Barcellos, tornou-se ponto de encontro e referência de lazer para os macapaenses. Vinte e nove anos depois, chegou a ser rebatizada, passando a chamar-se praça do Côco. Porém, o Instituto Memorial Amapá propôs à Prefeitura de Macapá o resgate da homenagem ao pioneiro da indústria e do comércio no Amapá, Isaac Zagury, mantido até os dias atuais.

REFÚGIOS —Equipamentos da praça são usados pela população itinerante

Os ocupantes ocasionais da praça são arredios e pouco afeitos a novas amizades. Até mesmo em relação a outros em idêntica situação de aparente abandono. Um deles, que se identificou pelo nome de Silvano, é natural do Maranhão, município de Carutapera, e estava “passando” pela rua Bingo Uchôa quando viu a praça e resolveu descansar em um dos bancos. Disse que viajou de Belém Para Macapá atrás de emprego. Achou que poderia ser mais bem-sucedido na capital amapaense. “Ainda não consegui nada”, disse ele, com um meio-sorriso no rosto magro, após duas semanas de buscas incessantes.
Mas, os verdadeiros protagonistas desse enredo social controverso são os guardadores de carro, também conhecidos como flanelinhas. Sobrevivem dos trocados que ganham para tomar conta dos carros estacionados nos meios-fios das calçadas que circundam a praça Isaac Zagury. É um trabalho irregular, ausente da Classificação de Ocupações para Pesquisas Domiciliares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (COD/IBGE), desgastante e de baixa rentabilidade.
Ainda assim, mal amanhece o dia e vários deles já podem ser vistos transitando pela praça, devidamente posicionados em seus “pontos”, com baldes ou latões enferrujados, molambos usados como flanelas, além de restos de sabão líquido. Para eles, ferramentas de trabalho indispensáveis para o exercício da atividade marginal.
Essas pessoas, em sua maioria jovens entre os 13 e 17 anos, “gerenciam” enormes espaços públicos, às vezes conquistados por meio de pressões e ameaças aos antigos “proprietários”. Sim, as disputas pelo controle dessas “áreas nobres” é permanente, exigindo do “dono” vigilância constante contra antigos guardadores e ocasionais novatos que aparecem em quantidade cada vez mais crescente nesses tempos de crise econômica refratária no Amapá. Esses últimos são duramente rechaçados. E se insistem, podem sofrer graves represálias.

DISPUTAS — No centro de Macapá, flanelinhas brigam por estacionamentos em “áreas nobres”

É público e notório que a sobrevivência nas ruas de qualquer cidade não é fácil para ninguém. E em Macapá, está realidade vem ganhando contornos de problema social irreversível com o desemprego em espiral crescente e a disseminação do consumo de drogas pesadas, vendidas a qualquer hora em locais públicos, como a praça Isaac Zagury. Não importa a idade dos usuários, o tráfico age nas sombras e facilmente consegue derrubar resistências já corroídas pelo abandono e falta de perspectivas.
Foi o que aconteceu com Manoel, sem profissão definida, que após tornar-se alcoólatra, quando ainda morava no município de Santana, enveredou para o crack. Desconfiado, quis saber onde a reportagem seria publicada. Quando informado, franziu a testa e deu de ombros. “Não tenho internet”, retrucou, virando as costas e seguindo em direção à rua Beira-Rio. Um guardador de carros que acompanhava a conversa sorriu, informando que o morador de rua certamente buscaria abrigo na “cracolândia”, sob o Trapiche Eliezer Levy.
Outro entrevistado, sentado sob um dos obeliscos da praça, olhou ressabiado, meio carrancudo, mas depois concordou em falar. Menos tímido que Silvano, disse chamar-se Flávio. Só isso. Preferiu omitir o sobrenome por vergonha da situação. Ainda assim, contou um pouco de sua história pessoal. Começou revelando que “perdeu o rumo” ao descobrir a traição da esposa. Abandonou tudo. “A vida tem dessas coisas”, disse, conformado.
Sob as sombras produzidas pelas enormes copas das mangueiras laterais à praça, diariamente os desafortunados chegam, param e seguem para destinos indefinidos. Passam quase invisíveis, e quando são notados, provocam medo, repulsa e raiva. Aos olhos dos bem-nascidos, viram vagabundos, viciados ou solitários desprezíveis. “Tratam a gente com desprezo, mas estão enganados. Estou aqui só de passagem. Sou um homem de bem, temente a Deus. Tenho certeza de que vou construir outra família”, garante Flávio.

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