Laudo da POLITEC é rechaçado em aldeia 

DESCONFIANÇAS — Camilo Capiberibe (PSB-AP) e Joênia Wapichana (Rede/RR) defendem a tese da “invasão da área indígena” e acreditam que Emyrá Wajãpi não morreu afogado

Mesmo com exame necroscópico realizado pela Polícia Técnico-Científica do Amapá revelando que a causa da morte do cacique Emyra Waijãpi foi afogamento, os deputados federais Camilo Capiberibe (PSB-AP) e Joênia Wapichana (REDE-RR), membros da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, insistem na tese de que o líder indígena teria sido assassinado durante uma suposta “invasão promovida por garimpeiros armados”. Conforme os parlamentares, recebidos por lideranças na Aldeia Aramirã, município de Pedra Branca do Amapari, a 188 quilômetros de Macapá, as terras dos Waijãpi foram, sim, invadidas por não índios, resultando em conflitos armados.

DEPUTADOS COLOCAM EM XEQUE VERSÃO DO MPF
Os deputados Camilo Capiberibe (PSB/AP), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, e Joênia Wapichana (Rede/RR), coordenadora da Frente Parlamentar Mista de Defesa dos Povos Indígenas, informaram, em coletiva à imprensa, em Macapá, que vão pedir o aprofundamento das investigações sobre a morte do cacique Emyrá Wajãpi.
Em diligência à aldeia Aramirã, na sexta-feira, 16, eles se reuniram com lideranças indígenas, representantes do Ministério Público Federal (MPF), Defensoria Pública da União (DPU), Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Iepé.
Ao mesmo tempo em que era divulgado um laudo pericial apontando que a causa-morte do líder indígena teria sido, possivelmente, o afogamento, familiares e lideranças Wajãpi, apresentaram aos membros da Comissão de Direitos Humanos e Minoria da Câmara dos Deputados (CDHM) um vídeo feito no momento em que encontraram o corpo do cacique Emyrá cujas imagens mostram um corte na cabeça, outro ao lado de uma das orelhas, um ferimento abaixo de um dos olhos, cortes nas costas e uma perfuração na genitália da vítima.
Além disso, informaram aos membros da Comissão que foram encontradas uma sandália e tufos de cabelos, entregues à equipe de investigação da Polícia Federal. Eles também relataram que tem visto constantemente a presença de invasores nas suas terras.
Diante do quadro, o deputado Camilo disse que a CDHM produzirá um relatório e solicitará às autoridades competentes o aprofundamento das investigações.
“O nosso objetivo era ouvir. Pelo que foi relatado, o povo indígena está assustado com os invasores. Vamos cobrar segurança na região e é necessário aprofundar as investigações para elucidar esse caso e darmos respostas claras para os familiares, àquele povo indígena, a comunidade brasileira, todos preocupados com a situação”, afirmou Camilo.

Os indígenas, prosseguem os deputados, também estariam insatisfeitos com o resultado da perícia. Segundo afirmam, Emyra foi executado por garimpeiros.
Para o Ministério Público Federal, essa hipótese carece de fundamentos técnicos porque o laudo pericial protocolado na Polícia Federal não deixa margens para questionamentos: Emyra Waijãpi morreu afogado. No documento, os peritos relatam o encontro de lesões superficiais na cabeça, mas sem hemorragia ou traumatismo craniano. Segundo afirmam, os ferimentos não seriam capazes de provocar a morte. As lesões são compatíveis com impacto provocado por queda. Para os especialistas, a suposição mais plausível é a de que o cacique deveria estar caminhando sozinho por alguma trilha, às margens do rio, quando tropeçou numa raiz, desequilibrou-se, bateu a cabeça e tombou nas águas em estado de semiconsciência.

Na reunião entre os parlamentares da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e os representantes da Aldeia Aramirã, o laudo produzido pela Polícia Técnico-Científica do Amapá não retrata a verdade defendida pelos indígenas. Em conversas reservadas com Camilo Capiberibe e Joênia Wapichana, foram peremptórios: o corpo do cacique apresentava sinais de agressão física. E, para embasar a denúncia, apresentaram aos deputados um vídeo exibindo as supostas marcas da violência sofrida pelo idoso.
As imagens exibidas pelos Waijãpi mostram um ferimento embaixo do olho direito, outro no lado esquerdo da cabeça, perto da testa; a orelha esquerda parcialmente “rasgada”, arranhões nas costas e um ferimento no pênis. De acordo com Camilo, o vídeo teria sido feito momentos antes do sepultamento de Emyra Waijãpi.
Para o Ministério Público Federal, as supostas marcas de violência foram produzidas por objetos encontrados no fundo do rio quando o corpo do indígena ainda não havia sido resgatado. E além do mais, conforme relatos de integrantes do Conselho das Aldeias Waiãpi (Apina), “a morte do cacique Emyra Wajãpi não foi testemunhada por nenhum outro Waiãpi, e só foi descoberta na manhã seguinte (23 de julho)”.

 

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Morte de cacique Wajãpi gera controvérsias

CACIQUE EXUMADO
Os procuradores da República Rodolfo Lopes e Joaquim Cabral anunciaram que o corpo de Emyra Wajãpi será exumado e trasladado no helicóptero do Grupo Tático Aéreo da Secretaria de Segurança Pública do Estado, da região de Pedra Branca do Amapari até Macapá. O vereador Jawaruwa Wajãpi demonstrou preocupação com o fato de o corpo já ter sido tocado pela família. O procurador da República Rodolfo Lopes explicou que somente o técnico responsável poderá dar detalhes a respeito e ressaltou que o exame é fundamental para esclarecer a causa da morte. Para o general Luiz Gonzaga Viana Filho, a versão de invasão das terras Wajãpi carece de fundamentos e indícios sólidos.

A versão sustentada pelo vereador indígena Jawaruwa Wajãpi (Rede), durante reunião recente com os procuradores da República Rodolfo Lopes e Joaquim Cabral, responsáveis pelas investigações iniciais acerca da morte do cacique Emyra Wajãpi e do relato de invasão de área pertencente à nação wajãpi, no município de Pedra Branca do Amapari, a 188 quilômetros de Macapá, contradiz as afirmações do general Luiz Gonzaga Viana Filho, comandante do Exército no Amapá.
No encontro, Jawaruwa Wajãpi reiterou ter ocorrido invasão de um grupo de garimpeiros na aldeia Yvototõ. “Viram três invasores não-índios, que estavam lá sentados, conversando. Voltaram para avisar a comunidade na aldeia Yvototõ. Então, nesse momento, os guerreiros foram atrás dos invasores, seguiram pelo rastro, só que eles apareceram na aldeia onde não tinham homens, guerreiros wajãpi”, relatou ele aos procuradores.
O general, contudo, rejeita essa versão. Conforme esclarece, “a perícia da Polícia Federal não encontrou indícios de que houve invasão de garimpeiros e nem conflito com índios nas terras da etnia Waiãpi”. No entendimento dele, os índios “(…) provavelmente se assustaram e se comentou de uma invasão que, em trabalho científico pericial, não foi constatada.”

Embora o Conselho das Aldeias Waiãpi (Apina) tenha afirmado que “a morte do cacique Emyra Wajãpi não foi testemunhada por nenhum outro Waiãpi, e só foi descoberta na manhã seguinte (23 de julho)”, os indígenas insistem em questionar o trabalho realizado pela Polícia Federal. Segundo afirmam, os agentes federais teriam ignorado as indicações de possíveis localizações de não-índios feitas durante as diligências. “Esses polícias chegaram lá e nós mostramos os sinais para eles: o piso onde que eles (invasores) pisaram e deixaram sua marca, o piso de sapato”, disse. “Eles falaram ‘não viemos para entrar no mato, não viemos para ir atrás dos invasores, viemos para onde pensávamos que estavam localizado, dentro de uma casa, um trabalho, fazendo exploração lá. Viemos para prender essas pessoas num lugar, não viemos para ir atrás’. Não se interessou para ajudar a gente. Ou tem medo de entrar dentro do mato para poder encontrar”.
Para o general Viana Filho, possivelmente os indígenas estão equivocados. “Eu não digo que é mentira. Porque, às vezes, se encontra um corpo e causa um susto, um clamor, começa um ‘disse me disse’. Acho que se assustaram ao encontrar um indígena morto e é possível [ter sido um assassinato causado por não indígena]. Já aconteceu isso nas terras, de invasões, então é lícito que o primeiro pensamento seja que foi uma invasão, que foi um garimpeiro, que foi um invasor, que foi um assassinato por alguém fora da aldeia. É lícito pensar assim. E é pra isso que temos a Polícia Federal, a Polícia Militar, o próprio Exército. Fazemos o trabalho pericial para descartar ou não esses indícios”, completou.
A questão, no entanto, parece mais complexa do que simples desencontro de informações. Há tempos, os Waiãpi denunciam invasões em suas terras feitas, inclusive, por grandes empresas de mineração que estiveram instaladas no município de Pedra Branca do Amapari. A Apina confirma que tentativas de invasão de “não indígenas” ocorrem desde a década de 1970, mas, sempre foram rechaçadas pelos próprios indígenas. Dessa vez, assinala a entidade, o cacique Emyra Wajãpi teria sido executado “(…) com perfurações de faca, na cabeça, barriga e olhos, [tendo] o pescoço amarrado e o corpo jogado dentro de um rio”.
Por sua vez, o general Luiz Gonzaga Viana Filho afirma, peremptoriamente, que não houve nenhuma invasão de não-índios nas terras dos Waiãpi. “É uma área grande e, obviamente, todo o solo do Amapá é rico em minerais, particularmente em ouro, então essas cobiças em busca de garimpo, de ouro, sempre existem e, às vezes, se tangenciam as terras indígenas ou às vezes até dentro das terras indígenas. É pra isso que nós temos que proteger os índios, proteger de invasões, mas temos que ser coerentes e fidedignos nas narrativas. Nesse caso específico a narrativa de que houve invasão de 40, 50 garimpeiros fortemente armados é descabida. Nós temos que falar a narrativa correta até por uma questão de justiça com o trabalho sério das instituições de Estado”, ressalta.