CULTURA

RECURSO LIBERADO

Amapá receberá R$ 22 milhões para apoiar cultura durante pandemia

Verba deverá ser utilizada para garantir auxílio emergencial aos trabalhadores do setor que ficaram sem atividade por conta da pandemia

O Ministério do Turismo anunciou os valores que serão repassados aos estados, Distrito Federal e municípios para apoiar ações emergenciais voltadas ao setor cultural e seus trabalhadores durante a pandemia de coronavírus. A região Norte receberá o valor de R$ 327.265.525 distribuídos da seguinte maneira: Acre (R$ 23.106.331), Amazonas (R$ 66.649.294), Amapá (R$ 22.790.043), Pará (R$ 127.840.428), Rondônia (R$ 31.155.659), Roraima (R$ 23.886.859) e Tocantins (R$ 31.836.911).

O recurso total da ordem de R$ 3 bilhões foi estabelecido pela Lei 14.017/2020, mais conhecida como Lei Aldir Blanc, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em 29 de junho. O dinheiro será repassado aos estados e municípios que têm a responsabilidade de fazer a distribuição dos recursos.
De acordo com a lei, metade dos R$ 3 bilhões é destinada aos estados e Distrito Federal. O valor repassado para cada estado, além do Distrito Federal, foi definido por uma equação que considerou: 20% dos critérios de rateio do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE) e 80% em relação à proporção da população. Já o cálculo dos valores que serão passados aos municípios considerou: 20% de acordo com os critérios de rateio do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e 80% em relação a proporção da população.
O recurso poderá ser usado para pagamento de renda emergencial mensal aos trabalhadores da cultura – R$ 600 pelo período de três meses -, subsídio mensal para manutenção de espaços artísticos e culturais – entre R$ 3 mil e R$ 10 mil – e iniciativas de fomento cultural, como: editais, chamadas públicas, prêmios, aquisição de bens e serviços vinculados ao setor cultural e outros instrumentos destinados à manutenção de agentes, de espaços, de iniciativas, de cursos, de produções, entre outros. Para as ações de fomento foi definido um percentual mínimo de 20%, o equivalente a R$ 600 mil.

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“Essa é uma resposta clara às críticas injustas, com o viés político-partidário, que o governo vem sofrendo desde o início da pandemia. Como o presidente Bolsonaro orientou, estamos trabalhando dia e noite para garantir que nenhum brasileiro fique para trás e essa é uma realidade também na Cultura”, comentou o ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio.
Os valores serão transferidos do Fundo Nacional da Cultura, administrado pelo Ministério do Turismo, preferencialmente para os fundos estaduais, municipais e distrital de cultura. No caso de não haver fundo para a realização da transferência fundo a fundo, o dinheiro poderá ser repassado para outros órgãos responsáveis pela gestão desses recursos.

“É de amplo conhecimento de todos que o setor cultural foi um dos mais afetados pela situação da pandemia e a lei é um compromisso do governo em socorrer o setor e os seus profissionais neste momento delicado. Tenho absoluta convicção de que o conjunto de ações que estamos desenvolvendo terá uma resposta positiva de todo o setor”, afirmou o secretário especial da Cultura, Mario Frias.

Cadastro
Toda a operacionalização dos repasses será feita por meio da Plataforma + Brasil. Por isso, e importante que os gestores estaduais e municipais detectem os usuários que possuem o perfil de gestor de convênios. O gestor deve estar atento para em breve entrar na Plataforma para cadastrar o Plano de ação e indicar a agência de relacionamento no Banco do Brasil para onde será feita a transferência. Em até 180 dias após o último pagamento, o estado/município deverá enviar um relatório de gestão e recolher os recursos não aplicados.


Projeto prevê a distribuição de 90 bolsas de estudo em cursos na área do audiovisual para região Norte

Por Wanessa Botelho

A Academia Internacional de Cinema (AIC) está com inscrições abertas para o programa de bolsas referentes ao projeto AIC ONLINE – Formação Audiovisual para Todo o Brasil, selecionado no edital SAV/MINC/FSA Nº 13/2018 e apoiado pela ANCINE – Agência Nacional do Cinema, FSA – Fundo Setorial do Audiovisual, BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, Ministério do Turismo e CTAV/SAV- Centro Técnico Audiovisual.

São 360 bolsas de estudo integrais para 7 cursos online da AIC distribuídas ao longo de um ano. O programa é dividido em quatro etapas que cobrem todas as regiões do país, beneficiando residentes de 24 estados Brasileiros, mais Distrito Federal.
A primeira etapa começou na região Centro-Oeste, onde mais de 650 pessoas se inscreveram para participar do programa de bolsas.
A segunda etapa do projeto cobre a região Norte, onde também serão oferecidas 90 bolsas para os cursos de roteiro, direção cinematográfica, produção, produção executiva, trilha sonora, edição e assistência de direção. As inscrições podem ser feitas de 22 de junho a 31 de julho, no site da AIC.
Para participar, o interessado deve residir em uma das regiões priorizadas no projeto, ter renda máxima declarada de até 5 salários mínimos, ter acesso à internet e computador para as aulas, ter, no mínimo, 17 anos e ter concluído ou estar cursando o último ano do ensino médio.

LEIA MAISAcesse o REGULAMENTO e conheça mais detalhes sobre os cursos

O projeto AIC ONLINE foi um dos quatro vencedores de uma concorrência pública lançada pela ANCINE em 2018, voltada para fomento da educação audiovisual. Para a AIC, que além dos conhecidos cursos presenciais em suas unidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, vem desenvolvendo uma metodologia EAD específica para o ensino audiovisual, com cursos online desde 2017, “o incentivo vem precisamente num momento em que se torna cada vez mais evidente a necessidade de se investir em educação à distância, em especial num país de grande extensão territorial e desigualdades sociais como o nosso. Sabíamos que poderíamos fazer a nossa parte, e arregaçamos as mangas. Montamos um programa capaz de ter um impacto real de forma coordenada e com alcance nacional.”, diz Flávia Rocha, Diretora de Comunicação da AIC.

Além de contribuir para a formação de novos profissionais, o objetivo é também cultivar elementos técnicos para que esses novos profissionais possam expressar conteúdos que reflitam não só suas aspirações pessoais, mas também as suas realidades regionais, já que o audiovisual é uma ferramenta importante de comunicação e representatividade cultural.

Há 15 anos formando profissionais para o audiovisual

Em 2019 a AIC celebrou 15 anos, com uma história que acompanha o crescimento do mercado audiovisual.
Com sedes em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de Cursos Online, a Academia Internacional de Cinema (AIC) é reconhecida pela excelência demonstrada em mais de 3200 filmes produzidos por seus alunos. A escola oferece cursos livres no período das férias e durante o semestre, além de cursos técnicos e de formação profissional.
A metodologia combina teoria e prática, desenvolvendo nos alunos habilidades para atuar no mercado, com técnica e criatividade. O corpo docente é formado por professores-realizadores.
A escola também realiza vários eventos e palestras abertas ao público, proporcionando uma série de discussões sobre o audiovisual.

Para saber mais acesse:
Página do site sobre a escola, com histórico ano a ano.
Conheça alguns dos profissionais que já deram palestras e aulas especiais na AIC
Faça um tour em cada unidade: Rio de Janeiro e São Paulo

Conheça todos os cursos ofertados
Saiba mais sobre alunos que estão no mercado de trabalho


O olhar irônico de Luis Fernando Verissimo nas dobras do tempo

Um dos grandes nomes da literatura brasileira, Luís Fernando Veríssimo lança obra com seleção de crônicas imorredouras

No final dos anos 1960, a seção de gastronomia do jornal gaúcho Zero Hora chamava atenção não apenas pela qualidade das receitas sugeridas, mas, principalmente, pelo estilo talentoso e bem-humorado com que eram escritas. Não eram assinadas, mas logo se descobriu que eram de autoria de Luis Fernando, filho do grande romancista Erico Veríssimo. Era o início do hoje consagrado escritor, cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor fanático do Internacional, um dos grandes nomes da literatura brasileira.
E, a partir da primeira crônica assinada (em 19 de abril de 1969 também no Zero Hora), Luis Fernando Veríssimo não parou mais, produzindo textos para diversos jornais do país – como o Estadão, para o qual escreve desde 1989. Uma amostra dessa fabulosa produção poderá ser saboreada em Veríssimo antológico – Meio século de crônicas, ou coisa parecida, que a editora Objetiva lança inicialmente apenas em e-book – ainda não há previsão do lançamento da versão impressa.

Trata-se de uma seleção com mais de 300 crônicas, justamente aquelas que não pereceram com o tempo. “A boa crônica mantém a atualidade não só porque desvela o passado, mas porque é boa literatura; e não raro, em alguns casos, volta a ser atual, mostrando que a história é também cíclica – são as ironias do tempo, diria Verissimo”, observa a editora Daniela Duarte, no prefácio.
Verissimo só começou a escrever aos 32 anos, depois de ter passado por várias escolas de arte e desenho, inacabadas; de ter tentado o comércio “só para reforçar o mau jeito da família”; e de ter passado por uma rápida carreira jornalística, de revisor e colunista de jazz a cronista.
Assuntos nunca faltaram, mas, ao longo do tempo, alguns temas foram mais recorrentes, como observa Daniela: recriações históricas, notadamente as da criação bíblica e as de grandes personagens da história mundial, relacionamentos amorosos, tramas policiais ou sátiras ao gênero, os flagrantes do dia a dia, a mística do futebol, o prazer da comida, a linguagem e as palavras, o posicionamento político e ideológico engajado, as reflexões sobre a condição humana e as hilárias previsões para o futuro. Sobre a antologia, Verissimo respondeu a essas questões.

O livro faz uma retrospectiva de 50 anos de sua produção de crônicas. Assim, é possível dizer que o Brasil sempre foi um prato cheio para um cronista ou houve um tempo específico em que o desafio foi maior?
Eu ainda peguei o fim da censura, quando certos assuntos e até certos nomes eram proibidos de ser citados na imprensa, como o Estadão sabe muito bem. Precisava ter sempre um texto de reserva sobre o sexo dos anjos, para substituir o eventualmente censurado, ou recorrer a metáforas ou mensagens cifradas para driblar o censor, na esperança de que o leitor entendesse. Havia quem dissesse que a obrigação de escrever na entrelinhas estimulava a criatividade. Mas escrever nas entrelinhas não era um desafio, era uma chateação.

Assuntos do cotidiano, como família, trabalho, amigos, a rápida evolução dos costumes, enfim, são mais atraentes para sua escrita ou falar sobre personalidades (das artes, do esporte, da política) é mais tentador?
A crônica é um gênero literário indefinido, em que cabe tudo, do universo ao nosso umbigo, e a gente aproveita essa liberdade. Mas escrever alguma coisa que preste sobre o cotidiano é difícil. Aquela história que quem canta o seu quintal está cantando o mundo não se sustenta. Mas depende do quintal, claro.

Diálogos invejáveis são um diferencial em seus textos. Para isso basta ter um bom ouvido ou muita leitura? Ou nada disso?
É difícil escrever diálogos em português. Em inglês, por exemplo o corriqueiro não soa falso. Alguém já disse que para um diálogo em inglês parecer natural basta acrescentar um fucking a cada frase. Mas é verdade que, até há pouco tempo, nos livros do Hemingway, por exemplo, o palavrão era substituído por obscenity. No caso do diálogo em português, o “natural” não funciona. Já se disse que, em português, pronome no lugar certo é elitismo.

Há vários anos, textos falsamente atribuídos a você circulam na internet, o que o torna uma vítima antiga das hoje chamadas fake news. No atual contexto, há alguma possibilidade de fake news serem engraçadas?
Há “fake news” engraçadas, você estranha que o autor verdadeiro não queira aparecer, ou prefira se esconder sob um pseudônimo conhecido. Mas geralmente as “fakes” são ruins. Como não há como evitá-las, o jeito é se resignar e aceitá-las, com o risco de um dia ser processado por calúnia ou difamação.

É difícil fazer humor neste momento em que se diz que o aquecimento global é marxista e a Terra é plana? A competição ficou mais acirrada?
Pois é. Triplicou o volume de coisas que as pessoas estão dispostas a acreditar, começando por filósofos astrólogos e mitos a cavalo. É verdade que as religiões prepararam as pessoas a acreditar no inacreditável.

“O comunismo é como o resfriado”, diz Cerqueira, personagem da crônica A mancha. “Enquanto não inventarem uma vacina… Eles podem voltar, mas nós também ainda estamos aqui!” Esse rápido diálogo reflete bem o que vivemos hoje?
Se me lembro bem desse texto, quem o diz é um velho reacionário que não tem dúvida, conhecendo o país em que vive, que sua classe prevalecerá, e qualquer alternativa será natimorta.

Na crônica Vi, você aproveita a chegada de seus 80 anos para elencar fatos memoráveis que viu com os próprios olhos, desde um homem pisar na Lua pela primeira vez até “o implante de cabelo (funcionou com Renan Calheiros, ué)”. Agora, que ruma para os 84 anos, o que acrescentaria nessa lista?
A volta da Peste Negra, francamente, me pegou de surpresa. A volta do ioiô também.

Neste mês de junho, são lembrados os 50 anos da conquista do tricampeonato na Copa do México. Foi essa a melhor de todas as seleções brasileiras da história? Se não, qual teria sido?
A seleção de 1982 foi a melhor, na minha opinião. Aquela foi uma grande geração, mas uma geração sem apoteose. Faltou ganhar a Copa.

No texto Recapitulando, você comenta que o Mundial de 1970 ficou como a Copa da ambiguidade – afinal, durante a ditadura militar, era difícil torcer porque era uma forma de colaboracionismo, mas também fácil porque o time era de entusiasmar qualquer um. Como foi esse dualismo?
Fui para a frente da televisão preparado para torcer contra o Brasil da ditadura, da tortura, do Médici, de tudo o que a gente era contra. Uma predisposição que durou exatamente 10 minutos, até a primeira escapada do Jairzinho pela direita.

Em um exercício de futurologia, quando se fizer, daqui a 20 anos um filme sobre o Brasil atual, como será?
Daqui a 20 anos, não existirão mais cinemas nem grandes telas de TV. Cada pessoa terá seu aparelhinho individual, no qual verá filmes sobre o Brasil de agora, e não acreditará.

Verissimo antologico
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Objetiva (728 págs., R$ 44,90 e-book).


Três obras de Machado de Assis discorrem sobre as pandemias no tempo do Brasil império

Pandemias também estão presentes em livros do escritor Machado de Assis

Machado de Assis falando de epidemia? Sim, Machado de Assis também tratou da pandemia. Não, por óbvio, da pandemia do coronavírus, que tanto tem assustado a todos neste 2020.
Outros males, no entanto, contaminam as obras machadianas. Vejamos alguns deles, retratados em três romances.

A mão e a luva

No segundo romance machadiano, a baronesa, madrinha da protagonista, estava ao sol, quando outra personagem disse que não seria “conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de epidemias”.

Qual seria essa pandemia?
Mais adiante, quando um personagem tenta demover a tal baronesa de viajar (com intenção de não se distanciar da sobrinha, Guiomar), ele disse do “perigo de afrontar o cólera-morbo, que por aquele tempo corria em alguns pontos do interior”. E referindo-se ao destino da baronesa, contou ainda “que em Cantagalo havia aparecido o terrível inimigo”.
Ao final, mostrando que o medo causado pela epidemia era tão grande como o de agora, a notícia do caso era um “fato brutal”, que a fez cancelar a viagem.

Memórias Póstumas de Brás Cubas

No livro do defunto Cubas, uma jovem pretendente morre por “ocasião da primeira entrada da febre amarela”. Brás Cubas é quem nos conta essa história da epidemia:
“Doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando à direita e à esquerda, levou também uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; não cheguei a entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes.”
Como bem sabem os eruditos migalheiros, já em Brás Cubas aparece o personagem título do próximo romance machadiano, Quincas Borba.
E é o mineiro de Barbacena quem explica a Cubas que “epidemias eram úteis à espécie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos”.
Dizia ele que, “por mais horrendo que fosse o espetáculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivência do maior número”.
E, como se não bastasse, Quincas Borba ainda pergunta a Brás Cubas se este não sentia “algum secreto encanto em ter escapado às garras da peste”.
Judicioso, Cubas não o respondeu porque a pergunta era insensata.

Quincas Borba

A fala acima de Quincas Borba, no livro do defunto, já deve ter chocado o migalheiro. Mas não é que ele volta ao assunto?
De fato, em seu próprio livro, antes de morrer alienado, Quincas Borba trata do bem e do mal da epidemia. Diz que não há mais triste do que as pestes que devastam um ponto do globo.
Pondera, no entanto, que “esse suposto mal é um benefício, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistência, como porque dá lugar à observação, à descoberta da droga curativa”.
E ainda sentencia que “a higiene é filha de podridões seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos”.
Na mesma obra, há outro momento em que volta ao assunto da pandemia.
Tal se dá quando a personagem Sofia, a mais bela das mulheres de Machado de Assis, ao receber a notícia de uma pandemia, numa cidade de Alagoas, resolve formar, com outras damas da sociedade, “uma comissão das Alagoas”, para arrecadar fundos de modo a ajudar a cidade daquele Estado.
E, ao menos no romance, foi ótimo, tanto para a cidade como para os personagens.
Sanou-se aquela; casaram-se estes.

Cólera
Vinda da cidade portuguesa do Porto, a cólera-morbo aportou em Belém em 1855, com o navio Defensor. A publicação História, Ciências, Saúde – Manguinhos, da Casa de Oswaldo Cruz, informa que a doença se espalhou com a intensificação do comércio marítimo, originário da Índia, por quase todo o globo.
“Em poucos meses, havia doentes em todas as províncias do Norte e Nordeste do Brasil, e também no Rio de Janeiro, capital do Império. O Conselho de Salubridade Pública buscava identificar os doentes, providenciar quarentena aos suspeitos de contaminação e realizar a desinfecção dos navios e de todo tipo de material com os quais as tripulações tivessem tido contato, como alimentos, roupas e objetos.”
A professora do Departamento de Sociologia da UFPE Luciana dos Santos, ao examinar a epidemia que atingiu a província de Pernambuco em 1855, focalizou as controvérsias médico-científicas que giraram em torno da definição dos princípios de comunicação da moléstia e dividiram as opiniões médicas entre duas concepções distintas: o contágio e a infecção:
“Ainda que o programa médico-científico desenhado em Pernambuco, em meados do século XIX, tenha estabelecido medidas de prevenção ao flagelo, tomando como ponto de partida preferencial o conceito de infecção, a teoria do contágio jamais deixou de prover uma explicação plausível para o surgimento e disseminação do cólera-morbo nos trópicos.”

A história da febre amarela no Brasil remonta ao ano de 1685. A primeira epidemia da doença no país parece ter sido a que irrompeu no Recife, segundo conta dr. Odair Franco, ex-coordenador do Combate à Febre-Amarela no Brasil, em obra publicada em 1969 na Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais (“História da Febre Amarela no Brasil”). O nome e a procedência do barco que trouxe a febre-amarela para o Recife não ficaram esclarecidos, aponta o autor.
“Ao contrário do que geralmente sucede, não existem referências sobre a doença em algum barco antes da eclosão da epidemia, ou que tenham desembarcado no porto tripulantes ou passageiros doentes. Quando a encontramos já estava na zona portuária, fazendo a sua primeira vítima na pessoa de um empregado que conferia a mercadoria importada. De fato, contam as crônicas da época que, a 28 de novembro de 1685, no Recife, um tanoeiro ao abrir uma das barricas de carne, já podre, procedentes de São Tomé, adoeceu subitamente, passando a doença a quatro ou cinco pessoas que moravam na mesma casa, na rua da Praia.”
A febre amarela, então, não ficou limitada ao Recife e Olinda, mas teria se alastrado para o interior.
Na Bahia, constam relatos dando conta da enfermidade no ano seguinte, com o número de doentes calculado em 25.000 e o de mortos em 900. Mas, conforme Odair Franco, quando a doença deixou de se apresentar sob a forma epidêmica, foi relegada a um plano secundário e quase esquecida durante mais de um século: “Houve, assim, um longo período de silêncio no país, com relação à infecção amarílica.”
Saltamos para 1849: em 30 de setembro daquele ano, chegou a Salvador o navio americano “Brazil”, procedente de New Orleans, nos EUA, onde grassava a febre amarela, havendo escalado em Havana, porto também infetado, conta-nos Franco.
“Entretanto, como apresentou carta de saúde limpa, embora houvesse perdido, na viagem, dois homens da tripulação vitimados pela febre-amarela, foi logo admitido à livre prática pelas autoridades marítimas locais. Houve apenas um protesto, infelizmente tardio.”
De acordo com o autor, na época, com receio do cólera-morbo, as medidas de vigilância portuária eram severas, mas visavam especialmente os navios procedentes da Europa.
Interessante notar o relato no ponto em que destaca a divergência de opiniões dos especialistas na ocasião, com acaloradas discussões entre “contagionistas” e “infeccionistas”, com os primeiros representados por médicos estrangeiros e os segundos, pelos médicos nacionais, que insistiam em dizer que a epidemia era oriunda de causas locais.
“Enquanto prosseguiam estas discussões acadêmicas, os hospitais tornaram-se insuficientes para abrigar os enfermos. A triste realidade é que de Salvador este surto se propagou para o Norte e para o Sul do País”, lamenta Odair Franco.
Em Belém, “ficaram paralisados os negócios públicos e particulares; ocupavam-se todos em sepultar os mortos e cuidar dos enfermos”; os dados estatísticos da época apontam a elevada morbidade: em uma população de 16.000 habitantes, teria havido 12.000 doentes e 593 óbitos, que representam índice de morbidade de 75%, e coeficiente de letalidade de 4,9%.
Os últimos Estados a receberem surtos da doença foram Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, que não dispunham de comunicação fácil com portos marítimos.


Livro vai lembrar os 40 anos dos naufrágios dos navios Sobral Santos e Novo Amapá

A história do transporte fluvial na Amazônia é construída com grandes conquistas e, também, com assombrosas tragédias

Com previsão para lançamento e distribuição em Livrarias na segunda quinzena de novembro, o livro “ Sobral Santos e Novo Amapá – 40 anos de impunidade” vai relembrar os naufrágios que mataram centenas de pessoas nos rios da Amazônia. A publicação, de autoria do jornalista Evandro Corrêa, faz um relato profundo e minucioso dos maiores naufrágios ocorridos na região, entre os quais, o mais recente, do barco motor Ana Karoline III, que naufragou no Amapá matando mais de 40 pessoas.
Com relatos e depoimentos de autoridades, sobreviventes e testemunhas, o livro reconta as histórias dos naufrágios do Sobral Santos, II, que foi a pique na madrugada do dia 19 de setembro de 1981, no porto da cidade de Óbidos, no oeste do Pará, matando mais de 300 pessoas, e também a tragédia do navio Novo Amapá, que naufragou no dia 6 de janeiro do mesmo ano, no rio Cajari, em Almeirim, acidente que deixou um saldo de mais de 400 mortos.
Nos dois casos, ninguém foi responsabilizado ou punido pelos dois naufrágios, conhecidos como as maiores tragédias do Brasil, só perdendo, em números de vítimas, para o naufrágio do navio Príncipe das Asturias, ocorrido em São Paulo em 1916, matando mais de 400 pessoas e o acidente com o avião da TAM, em 2007, em São Paulo, deixando um total de 199 vítimas fatais.
“Os dois navios foram a pique a noite e a maioria dos passageiros dormia em redes e camarotes, fatores que impossibilitaram o salvamento de centenas de pessoas.
O difícil acesso e a demora na chegada de equipes de resgate dificultou a retirada da maioria dos corpos do fundo das águas. Em Santana, no Amapá, e em Óbidos, corpos foram amontoados e sepultados, sem identificação, as dezenas, em enormes valas”. Diz a publicação.
A tragédia do Sobral Santos II, ceifou a vida de famílias inteiras e deixou dezenas de órfãos. Estrangeiros, e pessoas oriundas de vários estados do Brasil perderam a vida no naufrágio. Muitos corpos jamais foram encontrados. O caso, apesar do número recorde de vítimas fatais, sequer chegou aos tribunais.

O barco não tinha lista de passageiros, o que impossibilita, até hoje, determinar o número exato de mortos. Existem muitos relatos de que mergulhadores foram pagos para furar corpos no fundo do rio para não boiarem, e consequentemente, aumentar a lista de vítimas fatais.
Em Óbidos, onde foram sepultadas a maioria das vítimas, apenas as grandes valas, sem nomes de identificação, lembram aquela fatídica data. O porto da cidade, por muitos anos, ficou com a pecha de “cais Fantasma”. Com uma investigação precária e inconclusiva, a história é hoje apenas um arquivo, sem responsabilização e punição dos culpados. O navio, hoje com nome Cisne Branco, continua transportando cargas e passageiros nos rios da Amazônia.
No caso do naufrágio do Novo Amapá, familiares das vítimas ingressaram na justiça com pedido de indenização e responsabilização dos proprietários,da União e do Estado. No entanto, o processo foi arquivado em 1997. Até hoje, sobreviventes e familiares de vítimas se encontram anualmente, no dia de finados, no cemitério de Santana, para velar seus mortos e manter viva a história da tragédia.
Além de narrar os dois maiores naufrágios ocorridos no Pará, o livro também faz um resumo cronológico das grandes tragédias amazônicas, com as histórias de mais de quarenta naufrágios ocorridos na região, nas últimas 4 décadas, com destaque também para um acidente com um rebocador, as proximidades de Óbidos, que matou 11 pessoas, cujos corpos só foram retirados do fundo das águas, dois meses após o acidente. A obra, que deverá ter mais de 300 páginas, faz uma abordagem realista sobre a precariedade da navegação na Amazônia e também relata outras nuances das tragédias, como o ataque de peixes territorialistas e vorazes, como a Pirarara, o “Tubarão da Amazônia”, cujos cardumes teriam devorado vítimas dos naufrágios.
O livro “ Sobral Santos e Novo Amapá – 40 anos de impunidade” está em fase de finalização.
O autor criou o Blog https://sobralsantosenovoamapanaufragio.blogspot.com/ e também uma página no Facebook @sobralsantosenovoamapanaufragio com a finalidade de manter contato com vítimas, familiares e testemunhas das tragédias, que queiram dar seu depoimento para a obra. Os contatos podem ser feitos pelos números 91 9 8126 2993 ou 9 8284 – 3175. (ZAP).


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