CULTURA

CENAS LITERÁRIAS

O brinde baixinho dos transversos escritores das pequenas vitórias

Cenas literárias foram feitas para serem grandes. Tanto é que escritores de cidades pequenas abraçam a todos que produzem algum tipo de literatura, da mais besta à mais promissora
Escritores modestos comemoram cada bolsa de criação literária, residência, prêmio, programa de renúncia fiscal, cada resenha, elogio, e cada leitor
Por Yuri Al’Hanati

Cenas literárias foram feitas para serem pequenas. Tanto é que panelinhas se formam em cidades muito grandes, e escritores brigam entre si em artigos de opinião nos jornais, acusando outros escritores de serem oportunistas endinheirados capitalistas em função de determinado evento ou coletânea de bom cachê. Na verdade o que o autor do texto frequentemente quer dizer é “que droga que eu não fui chamado para esse evento ou coletânea de bom cachê, malditos sejam todos”.
Escritores brigam para vender seus livros e serem chamados por um curador para algum evento ou coletânea de cachê bom, mas pode acontecer também de brigarem para serem chamados para algum evento ou coletânea que não tem cachê nenhum, mas que pelo menos é mais uma publicação no currículo ou mais uma viagem bancada por alguma instituição. Não tem cachê, mas pelo menos ele pode vender dez ou vinte livros sem maiores dificuldades entre o público do evento.
Escritores brigam por causa dessas coisas, mas não saem na mão com ninguém. Eles frequentemente dizem que é porque violência é coisa de fascista, mas a maioria tem medo de brigar mesmo. Eivados de sentimentos ruins, o ressentimento se plasma em picuinhas de sempre, tramadas com outros escritores amigos, que ajudam a destilar veneno contra outros escritores inimigos. E se encontram um rival no bar, fingem que não o veem, que é melhor assim. Depois podem voltar para alguma área segura para continuar com as picuinhas de sempre. Reclamam da falta de dinheiro, da falta de respeito, da falta de leitores e da falta de convites. A vida é só ausência.

Cenas literárias foram feitas para serem grandes. Tanto é que escritores de cidades pequenas abraçam a todos que produzem algum tipo de literatura, da mais besta à mais promissora.

Yuri Al’Hanati


Cenas literárias foram feitas para serem grandes. Tanto é que escritores de cidades pequenas abraçam a todos que produzem algum tipo de literatura, da mais besta à mais promissora. Eles se organizam em pequenos coletivos, editam uma revista juntos, frequentam os lançamentos uns dos outros e promovem uma feirinha, para mostrar ao público da cidade e quem mais aparecer de fora o que é que há em termos de literatura na cidade.
São grandes, as cenas literárias. Por isso extrapolam barreiras de município e estado, e frequentemente escritores integram editoras pequenas do sul, do nordeste, assinam curadorias Brasil afora, escrevem orelhas, apresentações, celebram uns aos outros com resenhas, elogios, brindes com cerveja em copos americanos, leituras prévias, conselhos, um colchão e uma toalha para recebê-los em suas cidades. Quando são convidados para algum evento, com cachê ou não, celebram a possibilidade de verem seus pares distantes, bolar novos projetos, livros escritos a mais de uma mão. Ofendem-se com os detratores, solidarizam na crítica negativa, no prêmio que escapa pelos dedos, no calote do pagamento atrasado. Tentam puxar os pares para suas editoras, e cada resgate para o aquário grande tem uma sensação de obra em andamento, uma construção sólida rumo a uma cena literária maior. A vida é só festa.
Cenas literárias foram feitas para serem modestas. Os grandes escritores deixam de frequentá-las. A esses interessam os programas de TV, a multidão das bienais, as adaptações para o cinema e TV, as parcerias com músicos, as viagens para o exterior a convite de universidades, os grandes cachês, as edições comemorativas de suas obras antigas e os grandes prêmios de seu idioma. Os escritores modestos, que na verdade são os escritores sem necessidade de adjetivação, pois são a imensa maioria, comemoram cada bolsa de criação literária, residência, prêmio, programa de renúncia fiscal, cada resenha, elogio, e cada leitor, com o tempo, se torna um conhecido ou mesmo um amigo próximo.
Imprimem duzentos, quinhentos livros, mil ou dois mil quando estão otimistas, certos de que nunca serão citados pela Fátima Bernardes ou pelo Jô Soares. Vendem os próprios livros que compram com desconto do site da editora para poder lucrar alguma coisa além do protocolar 10% do preço de capa, por isso sempre andam com ecobags repletas do próprio livro. Lisonjeiam-se fácil, envaidecidos pela centelha de atenção que um mundo absurdamente tecnológico resolve lhes dedicar. Poderiam se recolher amargurados ante o projeto artístico subaproveitado, mas reconhecem que essa coqueluche da literatura é inaplacável. Por isso brindam um brinde baixinho. A vida é só vitória.

Ética e política da banda de garagem

AMIZADES E NEGÓCIOS — Reunir os amigos para tocar um sonzinho numa garagem já resultou em grandes empreendimentos musicais
Por Yuri Al’Hanati

Montar uma banda com os amigos é criar uma nova política dos afetos. Misto de relacionamento amoroso com empreendimento, a banda exige equilíbrio entre os humores, compreensão ante as limitações, conciliação de demandas e horários, manejo de egos e estratégias coletivas para metas possíveis. Por essa confusão entre tratar amigos como colegas de trabalho e colegas de trabalho como amigos, é sempre necessário pensar em uma ética e política da banda de garagem.
Para começo de conversa, os primeiros recursos investidos em uma banda amadora são sempre tempo e dinheiro. Tempo para ensaiar e dinheiro para pagar o ensaio, caso não seja possível ter um home stúdio. O quanto um ensaio pode render – acertar músicas, afinar vozes, criar uma memória mecânica que dê firmeza à execução – é o quanto de dinheiro e tempo serão gastos. Alguém que se dedique pouco ao ensaio particular invariavelmente atrasará o ensaio geral, e desperdiçará não apenas os próprios recursos quanto os recursos dos demais. Via de regra, essa é a origem das primeiras rusgas das bandas de garagem: o descompasso entre os distintos comprometimentos, que pode ser gerado por uma irresponsabilidade culposa ou pelo atropelo do cotidiano, diante do qual a música guarda a dualidade de ser ao mesmo tempo sagrada e supérflua.
Endereçar esse problema gera um segundo, que é a promiscuidade da recepção da crítica. Se feita em tom profissional, ainda assim pode ser tomada como pessoal. Aceitar críticas e cobranças de membros da banda requer uma maturidade que a experiência mostra ser escassa. A frustração diante de dois ou três ensaios mal sucedidos é contagiosa, e não raro acontecem as primeiras tentativas de desistência – por parte dos menos talentosos, quando percebem o atraso, por parte dos mais talentosos, quando não há qualquer indício de autocrítica por parte dos menos talentosos. Aqui entra o poder de convencimento que move o redemoinho agregador da banda de garagem. Renovar a crença nos objetivos, revalidar os valores, tal qual um matrimônio cansado. É neste momento em que a união dos membros deixa de ser trabalho e se torna, mais uma vez, amor. Tangenciar emoções profundas da alma humana em nome de futuros incertos é a única maneira de fazer com que ninguém resolva dedicar seu tempo a coisa mais rentável. Como aguentar a convivência forçada, as broncas, a displicência de um, o senso de humor incompreensível de outro, se não por um laço afetivo que transcende a racionalidade?
A banda profissional não passa por essa confusão de relações. É um emprego como qualquer outro, e não raro velhos amigos deixam de lado o amor que os uniu um dia em nome da reputação e plateia que construíram. Não se olham na cara nunca mais, mas fazem caretas e simulam sinergia orgânica no palco. A banda de garagem é o último reduto afetivo do músico aspirante. Qualquer coisa dali para a frente será prejudicado por um excesso de sentimentos. Por isso é importante saber lidar desde já. Por isso é importante saber o que se quer.

Classe artística amapaense tem encontro com Davi Alcolumbre e Clécio Luís

— Fotos: Nayana Magalhães
Por Amelline Borges/ASCOM-PMM

Representantes da classe artística e da cultura amapaense reuniram-se com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre e o prefeito de Macapá, Clécio Luís. No encontro, foram abordados temas como a criação de projetos que possam contribuir para o fortalecimento e difusão da cultura local.
O senador Davi falou da importância das ferramentas disponíveis no Senado, que podem colaborar na divulgação das manifestações artísticas produzidas no estado do Amapá, trabalho que já é realizado em diversos estados brasileiros. “Temos instrumentos que estão disponíveis, como a Rádio e TV Senado, além da editora, importantes para a expansão do trabalho cultural produzido em todo país, e o Amapá pouco utiliza”, ressaltou.
Wagner Ribeiro, artista plástico, mencionou o projeto realizado pelo Senado, intitulado Artistas Brasileiros: novos talentos, parado há mais de cinco anos na Casa. “Esse projeto tem como objetivo também ajudar na diversificação de trabalhos produzidos por artistas em todos os segmentos. Seria importante a sua retomada para colaborar nas produções dos nossos trabalhos”, mencionou, ressaltando que não buscam privilégios, mas as mesmas oportunidades que outros estados já tiveram na divulgação de sua arte.
O prefeito Clécio Luís destacou a importância da colaboração do presidente do Senado e da escolha do senador Randolfe Rodrigues como presidente do Conselho Editorial da Gráfica do Senado Federal para a divulgação da arte, da cultura produzida no Amapá. “Podemos realizar muitos projetos. A gráfica é considerada uma das maiores do Brasil. Ela pode ser uma grande ferramenta em favor dos artistas, além da possibilidade de utilizarmos a TV e rádio do Senado, para assim reproduzirmos a cultura do povo do nosso estado para todo o país”, pontuou o prefeito, ressaltando a necessidade de aproveitar o momento que o Amapá, pela primeira vez, de verdade preside o Congresso Nacional.
Ao final da reunião, ficou decido que a classe artística irá formatar um grupo de trabalho que terá como missão elaborar propostas que possam ser analisadas pelo presidente da Casa. Estiveram presentes também no encontro o deputado federal Acácio Favacho e a diretora-presidente da Fundação Municipal de Cultura, Marina Beckman.

Músico amapaense é entrevistado em rádio africana 

A apresentadora Elisangela Barbosa, da Rádio Praia FM, em Cabo Verde (África), entrevista o cantor e compositor Fineias Nelluty. Acompanhe:

A Dança da Canoa – Fineias Nelluty – O rei da Zankerada – Música Amapaense – Macapá

O primeiro beijo

Autor: Emanoel Reis

Aconteceu outra vez, quase uma repetição. Após assistir a mais um capítulo da novela das oito, Gumercindo sentiu repentino formigamento nas mãos e pés ao saber de que outro horário político seria exibido antes do Jornal Nacional. Instintivamente levou a mão direita à cabeça e coçou o cocuruto, externando grande aborrecimento. Abriu um caderno do jornal espalhado sobre o assento ao lado, folheou algumas páginas sem se deter em nenhuma reportagem. Estava inquieto, e algo frustrado, sensação já percebida em ocasiões passadas, principalmente em outras exibições de propaganda eleitoral gratuita nas emissoras de TV e rádio. Dessa vez, a inquietude fervilhava transbordante pela forçosa ausência de Izaura, há quatro dias cuidando da mãe doente numa cidadezinha no interior do estado. Aos 92 anos de idade, a sogra de Gumercindo definhava vítima de uma bronquite crônica. Dificilmente escaparia. “Coitada”, lamentava o velho Gugu. “Gosto demais dela”. A lembrança da sogra moribunda e a ausência da mulher amada eclipsaram de vez os ânimos de Gumercindo, deixando-o irritadiço e ainda mais intolerante com os maus políticos. Aliás, essa ojeriza descomunal vem da juventude distante, quando ainda era universitário rastaquera na inesquecível UFPA. Naquela época, só permitiam a foto, o número e o nome do pretenso candidato. Congelavam a imagem sobre um cromo qualquer ao mesmo tempo em que alguém narrava em off o currículo do sujeito. “Era um saco!”, pensou Gumercindo, enquanto manuseava o jornal, tentando encadernar as páginas, sacolejando-as sobre as coxas. “Eu vou explodir! É o mínimo que deve fazer um cidadão insatisfeito após assistir a essa ‘bosta’!” Para evitar aporrinhações, Gumercindo desligou a TV, reclinou a cabeça sobre o espaldar da poltrona, semicerrou os olhos e alforriou os pensamentos, deixando-os livres para uma viagem ao passado profundo. Um mergulho na pré-adolescência, quando beijou pela primeira vez. Faz tempo. Mais de 30 anos, com certeza. Era uma noite enluarada, dessas eternizadas em versos e canções por poetas e seresteiros. As estrelas cintilavam no céu, o vento provinha constante da mata no entorno do rio de águas escuras e frias, ao longe a música romântica espalhava-se com a brisa juliana, contagiando jovens casais enamorados dispersos pelo tabuleiro da ponte construída em madeira rústica, por onde, no começo do Século 20, passava o trem que cortava a região bragantina transportando cargas e passageiros. Este foi o cenário do primeiro beijo de Gumercindo numa mulher. Na realidade, não era bem uma mulher. E, sim, uma pré-adolescente da mesma idade dele, com muitas espinhas e uma vontade irresistível de conhecer as delícias do amor. Aquele beijo furtivo fez dele o menino mais feliz naquele momento. Sentiu-se um homenzinho, um homenzinho e sua namoradinha igualmente raquítica e espinhenta, com a qual seria capaz de protagonizar as aventuras mais extraordinárias, vencer os monstros da política, tornar o mundo mais justo e harmonioso. Na manhã seguinte, Gumercindo acordou pensando na loirinha de pequenos seios e coxas roliças. A menina salpicara-lhe uma beijoca com gosto de dentifrício e hálito de chiclete de hortelã. Que sensação! Ah, ele estava apaixonado! Amor à primeira vista. Virou poeta. Pensou em escrever uma ode para celebrar aquele acontecimento. Quem sabe um soneto?! Começou rabiscando algumas frases desconexas. Soletrou o nome dela. Produziu estrofes. Construiu quadras. Já estava na oitava página do caderno e sequer conseguira escolher as primeiras palavras do tal poema – ou soneto. Resolveu perambular pelas ruas da minúscula cidade interiorana onde, desde os sete anos de idade, passava as férias escolares na casa dos avós maternos. Estava feliz. Tinha sido beijado por uma mulher. Não fora um grande beijo, é verdade; tampouco, viera de uma mulher feita. Mas, pela primeira vez havia sentido o calor e a maciez dos lábios femininos. E isso, eternizaria na memória. Naquele instante de solidão, sentiu falta do amigo de infância, Rubem Leôncio, com quem dividia confidências, revistas em quadrinhos do Walt Disney e a paixão pelo Payssandu Sport Clube. Os dois amigos não só tinham a mesma idade mas haviam nascido no mesmo dia e ano, e no mesmo bairro — o que, nessas circunstâncias, convertia-se numa grande coincidência. O último encontro ocorrera casualmente numa brilhante manhã de sábado, em setembro de 2000, na panificadora do Benjamim, naquela eleição candidato a vereador pelo PT. — Fala, Leôncio! Que bom te encontrar, meu brother! Tudo bem?! — Ah! E aí, Gugu?! Tudo na paz. — E então? Conte as novidades! — Fechei um bom negócio. Acabei de comprar aquele carro. E apontou um Ford Fiesta prata, rebaixado, incrementado com rodas tala largas, estacionado a uns dez metros. — Caramba!! Que carrão!! Quanto custou? — Uma ninharia!! — respondeu ele Na bicora da conversa, o Benjamim entra de sola: — Pago o dobro e à vista. — Que é isso, “Benja?!” Tá me estranhando?! Merda, conversa de político e jura de amor de puta não valem porra nenhuma. Gumercindo despertou sorrindo, logo passou do riso terno à gargalhada estrondosa. — Quáquáquáquá!!!

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Poderia…

Autor: Emanoel Reis Poderia ter sido diferente para o povo brasileiro se Lula, quando presidente, sendo um líder verdadeiro, gestor probo, competente, livrasse o Brasil do atoleiro. Poderia ter sido diferente, Brasil livre da corrupção, com Lula combatente, agindo com determinação, contra a súcia oprimente, detendo qualquer ladrão. Sim… Poderia ter sido, mas não aconteceu. Lula muito sabido, depois que se elegeu, ficou pra lá de exibido com o brilho do apogeu. Mandou seu braço direito, ministro da Casa Civil, montar esquema suspeito para roubar o Brasil; o golpe quase perfeito mostrou seu lado vil. Como um perigoso corsário, Lula seguiu apoiando todo malversador, peculatário, lançando o ardil engodo, mandando passar o rodo na grana do povo otário. Poderia ir mais adiante, nesse cordel improvisado, narrando fato hilariante, sobre o povo enganado, que mesmo recalcitrante, ainda idolatra o malvado. Sim, leitores deste cordel, poderia ter sido diferente se Lula como presidente, em vez de criar esse bordel, tivesse sido mais prudente com o dinheiro do povaréu. Deveria ter sido diferente se Lula, em vez do mal, tivesse sido coerente com sua história pessoal. Hoje, não estaria preso numa cadeia federal. Mas o brasileiro, povo raro, soube castigar o meliante derrotando seu replicante, um reles “poste” ignaro, elegendo impactante o capitão Jair Bolsonaro. Após uma eleição histórica, pautada pelo fake new, hoje, a população eufórica, sob este céu azul anil celebra a posse categórica do novo presidente do Brasil. Mas… …poderia ter sido diferente!… (Autor incompreendido: Emanoel Reis)

Vox populi, vox Dei

Emanoel Reis

Os recentes acontecimentos no cenário político local e nacional contradizem esse velho provérbio erroneamente atribuído a Guilherme de Malmesbury, historiador medieval do século XII, nascido entre 1080 e 1095 em Wiltshire, Inglaterra. Oriunda do latim, a expressão já era conhecida entre os antigos gregos e romanos, sendo citada por Tito Lívio (59 a.C. – 17 d.C.) em sua obra Ab Urb Condita Libri (Livros Desde a Fundação da Cidade de Roma), famosa narrativa nacionalista da história de Roma. Tito Lívio repudiou a expressão ‘vox populi, vox dei’ ao comentar a escolha dos tribunos, servidores da república oriundos da plebe e encarregados de manter a paz, através da aclamação popular.
Situação idêntica emergiu dos resultados das eleições 2018, principalmente no Amapá. As urnas atestaram, de forma incontestável, que a voz do povo não é, conforme se pensava até então, a voz de Deus. Ficou evidente, após a contagem dos votos, que ainda falta bom-senso e muita sabedoria à população para igualar-se ao divino, em especial no concernente à escolha dos candidatos certos.
Certamente, a voz do povo não é a voz de Deus. Não nas eleições, quando o povo deveria escolher os candidatos realmente comprometidos em trabalhar pela promoção do bem-estar comum, cuja história pessoal e profissional refletisse honradez e dignidade. Porém, para surpresa do Brasil e do mundo, não foi assim. Políticos ficha sujas foram eleitos com considerável número de votos, desbancando parlamentares experientes e reconhecidos pela atuação exemplar no Congresso Nacional. Então, não é de assombrar?
Sem dúvida, assusta sobremodo quando vemos o povo consagrar nas urnas Favachos e Gurgéis porque (ó, Deus!) apenas são hilários. Mas, mais lamentável não são as expressivas votações obtidas por esses personagens burlescos. Deplorável, mesmo, é quando tais histriões, além de bem-sucedidos nas urnas, arrastam – pela força de seus votos embasados sobre um quociente eleitoral confuso – candidatos comprovadamente inexpressivos – e sem nenhum compromisso com as causas populares. Homens e mulheres processados por corrupção, formação de quadrilha, improbidade administrativa, fraudes, malversação e peculato são alçadas à condição de excelências – ou seria melhor “excrecências?”
Então, diante de evidências tão irrefutáveis a voz do povo é a voz de Deus? Para o profeta Isaías, autor do 23° livro do Velho Testamento, Yahweh foi contundente: “(…) os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos”. Logo, a voz do povo, reverberando os pensamentos do povo, está diametralmente oposta ao estabelecido nas escrituras sagradas. Não expressa a vontade de Deus. Justifica-se, assim, as escolhas do povo por homens e mulheres amantes de si mesmas, gananciosas, presunçosas, soberbas, blasfemas, ingratas e ímpias.
Outra grande surpresa na votação em nível de Amapá foram as abstenções no primeiro e segundo turnos. Quase 114 mil eleitores recusaram-se voluntariamente em participar das eleições. Ignoraram as peças de publicidade regiamente pagas – com o dinheiro do povo – pelo Tribunal Superior Eleitoral para mobilização do eleitorado. O número de abstenções em espiral crescente, embora o TSE empenhe-se em minimizar as causas, comprovam a ineficácia do investimento. Essas ausências propositais são reveladoras, expõem a profunda insatisfação popular contra o atual sistema político-eleitoral brasileiro, um modelo amparado na ilegalidade (voto obrigatório) e alicerçado sobre leis exageradamente punitivas para quem apenas quer exercer o seu direito à negação, o exercício universal da liberdade de escolha.
Se não existe liberdade de escolha (em não querer votar, por exemplo), logo, a democracia declina. Porque, se existem leis eleitorais que tratam o cidadão como um criminoso por ele negar-se ao voto, o Estado de direito está perigosamente ameaçado. As duríssimas penalidades eleitorais brasileiras (o eleitor faltoso não pode receber vencimentos, remuneração, salário ou proventos de função ou emprego público, autárquico ou paraestatal, bem como de fundações governamentais, empresas, institutos e sociedades de qualquer natureza… etc.) certificam com extrema clareza que Tito Lívio estava certo em repudiar a expressão “vox populi, vox dei”. Ora, para o TSE a voz do povo não é a voz de Deus. Para a Justiça eleitoral, o voto obrigatório e as leis punitivas são necessárias porque o povo brasileiro (e infelizmente sou obrigado a concordar com o TSE) não está preparado para o exercício do voto facultativo (eita, vida de gado!).
Triste constatação. Em pleno Século XXI, o povo tocado à vara para votar derrama nas urnas, por meio de suas escolhas equivocadas, a enorme insatisfação contra a política, os políticos e o sistema eleitoral brasileiro. Por via transversa, manda para a Presidência da República, para o Senado, governos estaduais, legislativos e Congresso Nacional homens e mulheres suspeitas de envolvimento em megaesquemas de corrupção, processadas por desvios de recursos públicos, denunciadas pelos Ministérios Público Federal e Estadual. Por ser obrigado, o povo venaliza o voto e entrega a própria alma ao Diabo. Então, em vez da redenção, vem a danação eterna. O que fazer?
Definitivamente, a voz do povo não é a voz de Deus.

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